
Índices nos EUA fecham em alta, com inflação ao produtor abaixo do esperado.
O Ibovespa parece que está em uma areia movediça e só afunda. Hoje, perdeu 0,23%, aos 167.100,95 pontos, uma descida de 390,12 pontos, na oitava sessão seguida no vermelho, algo que não acontecia desde 2023, quando ficou 13 sessões seguidas no negativo, entre 1º e 17 de agosto.
Parece que se há uma certeza atualmente no mercado é que o IBOV vai terminar no vermelho. E que o dólar comercial vai subir. A alta de 0,25%, a R$ 5,193, é a quarta alta seguida da moeda norte-americana sobre o real. Os DIs (juros futuros) terminaram com altas por toda a curva.
Não teve milagre que desse jeito na Bolsa brasileira. Wall Street mais uma vez ficou a favor, com os principais índices no positivo, e tecnologia puxando o S&P 500 a novo recorde, mas não só: a inflação ao produtor nos EUA, o PPI, ficou estável em julho, ajudando a aliviar ainda mais a pressão sobre o Federal Reserve para uma alta nos juros.
Para Vitor Kayo, economista sênior da Nomad, o indicador ligeiramente abaixo das expectativas do mercado “dá certo conforto de que a inflação segue na direção esperada pelo Fed” e indica que o ambiente macroeconômico atual diminui a pressão por um aperto monetário imediato.
Há ainda sinais de alerta, tanto na guerra, quanto na economia. O Irã voltou a reafirmar controle total sobre o Estreito de Ormuz. Mesmo assim, o petróleo caiu.
Além disso, o governo dos EUA está prestes a vender títulos de 30 anos à maior taxa de juros em um quarto de século, depois de uma liquidação histórica que alimentou especulações de que o país vai direcionar mais suas emissões para vencimentos mais curtos. Leilão de US$ 25 bilhões ocorre em meio a temores fiscais e à alta persistente da inflação, que pressionam ainda mais o custo da dívida pública americana.
Mesmo assim, o bom humor prevaleceu por lá. Mas não contaminou o sentimento aqui. Ao contrário, os pés da Bolsa brasileira não encontram terreno sólido e vão se afundando nessa lama que parece não ter fim.
O principal motivo tem sido o temor fiscal. Analistas passaram a precificar mais o cenário eleitoral. “O mercado está cada vez mais preocupado com o fiscal, com o discurso dos candidatos a presidente da Republica. Está na dúvida se realmente haverá um novo desenho fiscal para o Brasil”, afirmou Kevin Oliveira, sócio da Blue3, ao referir-se ao presidente Lula, que tenta a reeleição, e ao seu opositor mais bem colocado nas pesquisas, o senador Flávio Bolsonaro.
Também para Bruno Perri, economista-chefe da Forum Investimentos, o que o mercado quer é sinais de recuperação do arcabouço fiscal. “Isso seria um trigger para o Ibovespa, mas não deve sinalizar isso agora, pois não é um tema popular, estamos próximos da eleição”, disse.
Como o mercado vê Lula como favorito ao pleito deste ano, reduziu ainda mais as alocações no Brasil antes das eleições. O próprio Lula sabe que não será assim tão moleza, que no segundo turno a coisa pode ficar apertada, como foi em 2022, então o que se vê é cautela, é o mercado não querendo colocar o pé nessa lama por enquanto.
Do lado do atual mandatário nacional, seguem os dados macroeconômicos minimamente favoráveis. Hoje foi a vez da Pesquisa Mensal do Comércio e o varejo em junho não decepcionou, subindo acima do esperado.
Nos setores ligados à compra de itens essenciais, como alimentação, houve avanço. Já as vendas de bens e produtos que demandam crédito recuaram, frente ao cenário de juros restritivos e alta inadimplência. Ou seja, tá bom, mas não tá tão bom.
E tem, por fim, mais uma rodada de balanços da temporada do 2T26. Esses pesaram forte e fizeram o Ibovespa se afundar mais um pouco, até o pescoço.
É o caso de Hapvida (HAPV3), que perdeu sufocantes 33,09% (sim, trinta e três por cento), após tendência de judicialização vir significativamente pior do que o esperado, o que dificultou ainda mais a avaliação de qual seria o nível normalizado de rentabilidade da companhia.
Calma, que esse chão tem mais instabilidade. O Banco do Brasil (BBAS3) perdeu 4,16%, após seu lucro ajustado superar as estimativas, mas o avanço da inadimplência em pessoas físicas e pressão sobre o capital mantiveram tom cauteloso entre analistas.
A presidenta do BB, Tarciana Medeiros, afirmou, em teleconferência de resultados, que o banco está lançando mão de estratégias para dirimir a adimplência no segmento agro, que ainda veio elevada no balanço do segundo trimestre de 2026.
Minerva (BEEF3) afundou ainda mais, com menos 7,60%, após um 2T26 com pressão sobre caixa e sinais de demanda mais fraca. MBRF (MBRF3) também caiu, com 1,39%, mas seu balanço sai hoje, após fechamento do mercado.
Já com balanço conhecido, a Vale (VALE3) perdeu 1,75%, com minério de ferro oscilante e novos projetos em andamento.
Mas é como nos filmes de ação: o mocinho está ali na areia movediça, afundando, sempre aparece um galho para se segurar e evitar, por um momento, o pior. Petrobras (PETR4) subiu 1,09%, se recuperando de perdas recentes.
No campo dos balanços, teve gente que foi bem, como Ultrapar (UGPA3), que subiu 5,08%, com resultados acima das expectativas com Ebitda surpreendendo, forte geração de caixa e anúncio de dividendos, que animaram investidores.
MRV (MRVE3) fez mais: disparou 14,29%, após resultados. Apesar do efeito negativo de baixas contábeis ligadas à venda de ativos da subsidiária americana, analistas destacaram que a operação brasileira segue apresentando evolução operacional, com melhora consistente de margens e geração de caixa.
E teve ainda a CSN (CSNA3), que subiu 5,56%, enquanto CSN Mineração (CMIN3) perdeu 5,18%. Os sinais ficaram trocados: 2T26 reforçou a percepção de que a CMIN entregou o melhor resultado operacional, enquanto a CSN segue sendo uma história mais dependente da desalavancagem do que da evolução dos negócios, mas ações reagiram de “formas contrárias”.
A sexta-feira tem dados do varejo nos EUA e PIB preliminar do 2º trimestre na zona do euro. No Brasil, o que se procura é um galho mais fortalecido para tirar o Ibovespa da lama movediça que se meteu. Será amanhã? (Fernando Augusto Lopes)
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