
Ao longo de 113 anos de história, Marabá recebeu influências provenientes de frentes econômicas e fluxos migratórios, que são captadas no que a cidade é e representa hoje. Para compreendermos a diversidade histórica, cultural, social e econômica de Marabá, conversamos com dois historiadores da Fundação Casa da Cultura de Marabá (FCCM).
Registros do início
Antes de 1913, ano da emancipação de Marabá, os registros históricos apontam para uma ocupação no território que compreende o município, assim como na região adjacente. O Núcleo de Arqueologia da FCCM é um espaço que apresenta artefatos e outros registros encontrados que corroboram esse fato. A presença indígena, por exemplo, remonta a períodos anteriores ao século XIX. Em relação à ocupação de não indígenas, segundo Camila Caetano, historiadora que atua no Arquivo Histórico Manoel Domingues da FCCM, começou no final do século XIX.
“Relatos de viajantes, como Inácio de Moura, Henri Coudreau, eles dão conta de que essa era uma região que tinha uma presença indígena diversificada, que vai aparecendo nessas fontes, mas que a partir do final do século XIX também começa a atrair para cá visitantes não indígenas, motivados por atividades econômicas”, explica a historiadora.


Esse fluxo de pessoas vinha principalmente da região Nordeste do país, de lugares próximos como o Maranhão, e também do norte do atual estado do Tocantins. A chegada desses migrantes dava-se principalmente pelo Rio Tocantins, mas também pelo Itacaiúnas. Antes da emancipação, o que hoje conhecemos como Marabá fazia parte do município de Baião, distante mais de 380 quilômetros.
De acordo com Camila Caetano, os primeiros relatos de pessoas não indígenas que passaram por esta região têm as rotas comerciais pelos rios como justificativa.
Um acontecimento histórico no início da República movimentou a região: a Primeira Revolta de Boa Vista do Tocantins, em 1892, na atual cidade de Tocantinópolis, um conflito entre oligarquias locais que resultou na derrota do coronel Carlos Gomes Leitão que, a partir desse fato, muda-se para a região após seu grupo político ser derrotado, fundando o Burgo do Itacaiúnas.
Essa movimentação de Gomes Leitão, segundo Camila Caetano, é bastante associada a um marco de fundação de Marabá.
“Isso não necessariamente significa que a história da região, de Marabá, começa com a chegada dele, mas é um marco importante porque ali ele vai formar o Burgo Agrícola do Itacaiúnas, às margens do rio. Era uma comunidade que tinha o objetivo de colonizar essa região através da atividade agropastoril. Era uma comunidade com cerca de 200 pessoas organizadas, comandadas pelo coronel Carlos Gomes Leitão”, complementa a historiadora.
Nesse período, o fluxo de migrantes e viajantes na região aumenta. É nesse contexto que chega à região Francisco Coelho, cuja história também está atrelada a um mito de fundação de Marabá. “Esse mito de fundação não necessariamente quer dizer que algo é mentira, mas é algo que é tomado como marco historiográfico, utilizado para construção de memória e de identidade de uma população. O Francisco Coelho é comumente associado a esse mito de fundação da cidade de Marabá”, pontua Camila Caetano.
Vindo do Maranhão, o comerciante se estabeleceu no pontal do encontro entre os rios Tocantins e Itacaiúnas, fundando a Casa Marabá. Esse estabelecimento atuava com aviamento no período da extração do caucho que, assim como a seringueira, também produzia látex. Segundo o cientista social e historiador Helias Montarroyos, em artigo publicado em 2013, a Casa Marabá também foi um prostíbulo nessa época.
O barracão vendia mantimentos básicos e equipamentos de trabalho. Por ser a única casa comercial da região, provavelmente também era um espaço para negociar a borracha, argumenta Camila Caetano.
A historiadora aponta que não há fontes conhecidas sobre como a região, que hoje compreende Marabá, era chamada na época. A partir daí, inicia-se um dos mitos de fundação, a hipótese de que o nome da cidade veio da casa comercial, que teria sido inspirado em um poema de Gonçalves Dias de mesmo nome.
“Devido a esse poema, dessa indígena que é chamada de Marabá, por vir dessa mistura entre uma indígena e um não indígena, ela recebe esse nome de Marabá para se referir a essa mistura de diferentes etnias. Então, existia esse poema que circulava, era muito famoso no século XIX. Supostamente, por causa desse poema, Francisco Coelho teria colocado o nome de Casa Marabá”, explica a historiadora.
Os registros apontam que, quando da emancipação, o nome Marabá já era conhecido, mas não há como delimitar a partir de que momento as pessoas que moravam na região passaram a denominá-la dessa forma.
No pontal do encontro entre os dois rios, surgiu posteriormente o bairro Francisco Coelho, popularmente conhecido como Cabelo Seco.
A importância dos rios Tocantins e Itacaiúnas
Para Camila Caetano, há duas maneiras de compreender a importância dos dois rios que banham a cidade para sua formação histórica.
A primeira delas é que a cidade só surgiu devido aos rios e suas influências comerciais e logísticas na economia local, visto que não havia estradas na época. Mas essa é a resposta mais simples.
A segunda maneira diz respeito ao fato de não atribuir toda a ocupação da região a um elemento geográfico porque é um processo cultural e histórico mais complexo, que leva em consideração outros fatores e não encerra em si mesmo as questões referentes ao desenvolvimento da cidade e sua ocupação.
“Ainda assim, não dá para descaracterizar que essa característica geográfica é culturalmente bastante influente para a formação dessa região. Isso pode ser observado no fato de que a cidade durante muito tempo vai crescendo, expandindo urbanamente a partir do pontal para o centro do que chamamos Velha Marabá, e muitos núcleos associados à história mais recente, na segunda metade do século XX, vão surgir com a construção da Transamazônica, na década de 1970”, afirma.


Nesse sentido, durante muito tempo, o fato de Marabá ser uma cidade ribeirinha influenciou bastante suas dinâmicas culturais, sociais e econômicas. É importante lembrar que as grandes pontes que fazem parte da paisagem da cidade só começaram a ser construídas a partir da década de 1980. Antes disso, para atravessar de um lado a outro, era necessário o uso de embarcações. Além disso, a dinâmica de cheia e vazão dos rios também teve e tem impacto direto até hoje nas comunidades às margens deles.
“A dinâmica de ocupação da cidade é muito influenciada pelas enchentes. Durante esse período, a vida dessas pessoas mudava completamente, que precisavam estar aqui por causa do trabalho, por causa de questões culturais, por causa de necessidades econômicas, mas que também precisavam se adaptar ao fato de que viviam em uma região que era alagadiça”, observa.
Frentes econômicas
Muito do que Marabá é hoje também é reflexo dos processos econômicos que se seguiram nos últimos cem anos. O que chamamos de Ciclo da Borracha no início do povoamento atraiu imigrantes e uma infraestrutura comercial, mesmo que mínima.
No entanto, para o historiador Wellington Mota, coordenador de Projetos da FCCM, a primeira frente econômica de longa duração foi a Castanha. Por bastante tempo, Marabá foi grande produtora da semente. Foi nesse período, com o declínio da borracha, que o desenvolvimento urbano da cidade despontou e alguns prédios foram construídos, como o Palacete Augusto Dias, atual Museu Francisco Coelho, em 1939. Para o coordenador, apesar de comumente chamarmos esses períodos de ciclos, que indicam início, meio e fim, o mais correto historiograficamente seria utilizar a expressão “frentes econômicas” porque dizem respeito a dinâmicas que podem ou não ter continuidade.


Alguns ciclos aconteceram ao mesmo tempo, como o Ciclo do Diamante durante o Ciclo da Castanha. O declínio da extração da Castanha acontece a partir do fim da Segunda Guerra Mundial, em 1945.
“A Castanha é muito importante para a gente porque ela se tornou identidade nossa, está no nosso brasão, na nossa arte, nas nossas expressões culturais, na nossa culinária também e no nosso cotidiano urbano, por exemplo. É dentro desse período que Marabá vai ter seus primeiros traçados urbanos oficiais, pensados mesmo para desenvolver a cidade”, contextualiza o historiador.
A Nova Marabá, por exemplo, foi projetada, no final da década de 1970, para ter um traçado em forma de castanheira, além de ser um novo espaço urbano além das áreas alagáveis.
Wellington Mota conta que fontes históricas como o álbum “Vistas do Pará”, de 1939, colocavam Marabá como espinha dorsal da economia paraense por causa da Castanha, tamanha a importância da atividade.
Nesse movimento, os rios também ditavam o rumo das atividades econômicas. Nas cheias, as pessoas dedicavam-se à extração das castanhas, enquanto nos períodos de seca, com os pedrais aparecendo, iam para o diamante.
Hoje, em parte, a extração da semente é realizada por comunidades indígenas que possuem as árvores dentro de suas reservas, retornando ao início de tudo, pois:
“A teoria mais aceita hoje em dia, dentro dessa corrente de pesquisa, é que as castanheiras foram plantadas por populações indígenas. Então, a nossa região, que era muito rica em castanhas, na verdade, a Arqueologia tenta provar especificamente como esses povos, que eram nômades, faziam esse plantio específico”, revela.
Com os grandes investimentos, principalmente de bancos na região, a partir da década de 1960, a extração de madeira passa a ser uma frente econômica importante porque estava condicionada à concessão de crédito, e segue pela década de 1970.
“Os bancos tinham a ideia de ‘melhoria de terra’, ou seja, se você era dono de uma terra e queria pegar mais dinheiro com o banco, o próprio banco perguntava: ‘Você fez melhoria na sua terra?’. Entende-se ‘melhoria’ como derrubada de árvores, desmatamento. Então, Marabá tem essas frentes econômicas que vão coexistir”, afirma Wellington Mota.
Segundo o historiador, a floresta era vista como empecilho ao desenvolvimento, diante da expansão do agronegócio e da abertura de estradas, e o extrativismo não se encaixava no que se esperava de uma economia moderna na época.
“Existem movimentos, por exemplo, como a queima dos castanhais. Existe uma obra aqui no Museu, de Domingos Nunes, que é ‘O cemitério dos castanhais’, que é onde ele mostra várias áreas que foram queimadas para transformar em pasto. Mas esse era o pensamento da economia daquele período”, ressalta.
Esse redirecionamento das prioridades econômicas contribuiu ainda mais para o declínio da extração da castanha. As pessoas que trabalhavam nos castanhais passam a trabalhar na abertura de estradas, por exemplo.
O que hoje conhecemos como Núcleo Cidade Nova já acomodava o bairro Amapá desde a década de 1920 quando, na década de 1970, começou a ampliação das áreas urbanas por causa de obras como a abertura da Rodovia Transamazônica e, mais tarde, a construção da primeira ponte sobre o Rio Itacaiúnas.
A partir da década de 1970, a mineração ganha força e entra em funcionamento o Projeto Grande Carajás, em 1982, focado na exploração mineral da região, e em 1985 a Estrada de Ferro Carajás, para escoar a produção.
Em 1980, surge o maior garimpo a céu aberto do mundo, Serra Pelada, que reuniu milhares de garimpeiros vindos de diversas partes do Brasil em busca de riqueza. Encerrado na década de 1990, deixou para trás um rastro de implicações socioeconômicas sentidas até hoje na região. O historiador apresenta a dimensão desse fato histórico.
“A Serra Pelada, como foi um grande boom econômico na nossa região e um movimento de muitas pessoas migrando para cá. Estamos falando de um prazo muito curto, de Marabá ter em média 20 mil pessoas para 100 mil pessoas. E quando a gente fala Marabá, nesse período, a gente fala de toda a extensão que compreende Parauapebas, Curionópolis, Canaã dos Carajás. Então, imagina esse pequeno núcleo administrar toda essa extensão territorial e ainda mais 100 mil garimpeiros que vieram para cá.”
O fim de Serra Pelada ampliou as tensões na região, com muitos garimpeiros sem ter para onde ir e participando das fileiras do MST, na década de 1990.
Mas o que cada um desses períodos contribuiu para compreender a Marabá de hoje? Para o pesquisador, todas essas frentes econômicas tiveram grande contribuição para a formação da cidade, em grande parte por causa dos fluxos migratórios, seja inicialmente pelos rios, por onde chegaram os viajantes e trabalhadores do Maranhão e Goiás, por exemplo, seja nos demais períodos em que a migração foi incentivada pelos governos de plantão. Esses momentos estão no DNA da cidade, com um sotaque diferente e uma culinária mais próxima do Nordeste.
“Era mais fácil migrar do Nordeste para Marabá do que subir o rio de Belém para cá. Quando a gente fala sobre a economia influenciar a nossa cultura, se a gente avançar mais um pouco, no período dos grandes projetos, já não era mais o nordestino ou paraense que era incentivado pelo governo, mas os sulistas. Vem uma galera do Sul, com outro tipo de cultura, com uma carga identitária diferente da gente. Aqui, a gente tem o que Idelma Santiago chama de ‘zona de contato’, que é um momento de conflito cultural por conta desses movimentos econômicos”, destaca.
Na atualidade, mineração, agropecuária e comércio são os pilares da economia marabaense, que tenta ter um arranque em sua industrialização. Nesse cenário, a cidade é um polo de serviços e educação, reunindo a Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará (Unifesspa), a Universidade do Estado do Pará (UEPA) e outras instituições privadas de ensino.


Marabá e os projetos de desenvolvimento para a Amazônia
É impossível deslocar Marabá de sua realidade amazônica. Sendo assim, muito do que foi planejado para a região acabou por ter suas impressões na história da cidade. Na percepção da historiadora Camila Caetano, a Amazônia é uma região que sempre foi palco de políticas voltadas para seu desenvolvimento, seguindo a lógica capitalista de ocupação e exploração de seus recursos naturais. Os discursos sempre iam no sentido de pensar a Amazônia como um “Inferno Verde”, sem civilização.
Com a Ditadura Civil-Militar instaurada em 1964, uma nova fase desse projeto para a região foi inaugurada. Para a historiadora, a Amazônia serviria como propaganda política para um governo que adotava o desenvolvimentismo, o nacionalismo ufanista e o incentivo ao capitalismo e à industrialização como bandeiras.
Nesse contexto, as fontes apontam que Marabá ainda era uma cidade pequena, mas importante para a economia paraense por ser uma das maiores produtoras de castanha. Diante disso, a dinâmica econômica girava em torno dos castanhais, que eram dominados por uma pequena elite e que tinham em sua base a exploração de migrantes.
“Alguns historiadores, como Marília Emmi, com ‘A Oligarquia do Tocantins’, vão demonstrar que existia um processo de ocupação e domínio mesmo dessas terras públicas, que pertenciam a castanhais, que se dava através do aforamento”, conta.
Com a Ditadura, o cenário muda. O extrativismo não era mais visto como uma atividade econômica que simbolizava o progresso. Era necessário integrar a região ao sistema capitalista, derrubando as matas, abrindo pastos e explorando minérios descobertos na região.
Lemas como “Terras sem homens para homens sem terra” e “Integrar para não entregar” norteavam essa lógica. Empresas e conglomerados do Centro-Sul do país foram incentivados a vir para a Amazônia e investir na agropecuária. Matas derrubadas, madeira vendida e pastos abertos.
“Ao mesmo tempo, havia o incentivo para que famílias do Nordeste, que buscavam melhores condições de vida, fugir da pobreza, viessem para cá, na expectativa de que encontrariam um paraíso para plantar e colher, criar seus filhos. Muitas famílias, com toda dificuldade, enfrentando semanas e semanas de viagem em uma Transamazônica praticamente intrafegável, chegavam e encontravam uma região extremamente conflituosa”, descreve a historiadora.
Os conflitos se davam pelo embate entre posseiros, que eram os trabalhadores rurais, com os donos dos castanhais que, por vezes, utilizavam títulos de terra falsos para expulsar esses trabalhadores, sendo chamados de grileiros. Esses donos de castanhais tinham uma concessão temporária do governo e acabavam por se apropriar dessas faixas de terra.
Outros conflitos na região envolviam as comunidades indígenas que, em meio a diversos processos de expansão agrícola e dos projetos desenvolvimentistas, também foram expulsas de suas terras. Tudo isso ocorre enquanto há a expansão da cidade, como explica a pesquisadora.
“O que nós vamos ter é uma região que vai ter um crescimento exponencial. Entre o início dos anos 1970 e o início dos anos 1980, nesse período de uma década, dá para perceber por dados do IBGE que Marabá vai ter um crescimento exponencial. E agora não só vai ganhar novos bairros, como também novos núcleos, caso da Cidade Nova e da Nova Marabá. Vai ganhar novos migrantes, a maioria do Nordeste, e novos agentes sociais como uma elite que vem do Centro-Sul brasileiro.”


Marabá, a segurança nacional e os conflitos por terra
Em 1970, diante dos grandes investimentos e projetos na região, e da descoberta de minério de ferro na Serra de Carajás, Marabá foi declarada área de segurança nacional pelo Governo Militar. O crescimento rápido e a concentração de terras nas mãos de poucos acentuaram a desigualdade social, assim como os conflitos.
“Possibilitando que aqui fosse praticamente um barril de pólvora prestes a explodir. Para manter o controle desse espaço, Marabá é declarada área de segurança nacional. Os prefeitos passam a ser escolhidos pela Junta Militar. Os moradores não escolhiam diretamente o prefeito, que era escolhido a partir da indicação de uma lista tríplice. Para além disso, passa a ser uma região extremamente militarizada, que é uma característica que existe até hoje”, comenta Camila Caetano.
A situação na região escalou a partir de 1972, quando o governo descobriu a existência da Guerrilha do Araguaia, criada por militantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B) e que tinha como objetivo derrubar a Ditadura Militar nos moldes das Revoluções Cubana e Chinesa. O movimento foi debelado pelo regime e é estudado pela forma como se deu a repressão e suas consequências até a atualidade.
A cidade permaneceu na condição de área de segurança nacional até o final do Regime Militar, em 1985. No entanto, a política adotada para a região nesse período deixou marcas profundas.
“Depois de 20 anos de Ditadura, nós vamos ter uma região com extrema concentração de terras, altos índices de exploração de mão de obra, trabalho análogo à escravidão, uma cidade extremamente desigual, com grande parte da população vivendo em áreas periféricas. Uma grande parte da população que veio incentivada pela Serra Pelada e, quando o garimpo é fechado no final da década de 1980, não vai ter com o que trabalhar e vai, muitas das vezes, ocupar periferias de cidades como Marabá”, analisa a pesquisadora.
Apesar de a repressão diminuir com o fim da Ditadura, os costumes de mandonismo de fazendeiros e grandes proprietários da região continuam a subjugar a parcela da população mais vulnerável. Contratação de pistoleiros e assassinato de lideranças de trabalhadores rurais e suas famílias eram práticas comuns, que passaram a tomar conta das páginas de jornal, assim como os conflitos armados, que envolviam posseiros, grileiros e o Estado, e as ocupações de terra por parte do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). A violência no campo aumentou consideravelmente na década de 1980.
Dois marcos desse crescimento da violência são: o Massacre da Ponte, em 1987, quando Polícia Militar e Exército arremeteram contra garimpeiros que protestaram na Ponte Rodoferroviária de Marabá; e o Massacre de Eldorado do Carajás, em 1996, que, mesmo ocorrendo em outro município, afetou diretamente Marabá. Nele, 19 trabalhadores rurais sem-terra foram assassinados pela Polícia Militar, na Curva do S.
Os muitos Projetos de Assentamentos, comuns na zona rural de Marabá, são resultados diretos ou indiretos de todo o processo histórico recente que envolve a luta por terras na região.
Marabá e sua diversidade cultural
Os fluxos migratórios, ao longo das décadas, trouxeram para Marabá diversas referências e inspirações culturais, musicais e artísticas.
O historiador Wellington Mota cita influências da cultura nordestina que chegaram à região de Marabá, como o Boi-Bumbá e as quadrilhas juninas. O Festejo do Divino Espírito Santo e Santos Reis são influências que vieram via Maranhão, mas que estão presentes em várias partes do país.


No que diz respeito à cultura própria do estado, o Carimbó é um dos principais expoentes.
Marabá é tão diversa que também teve influências de fora do país, tendo contato com a cultura sírio-libanesa.
“A nossa cultura originária que as pessoas sempre questionam é esse contato, esse conflito e essa mudança também que acontece quando vêm para cá. ‘Ah, as quadrilhas de Marabá são diferentes’, são diferentes porque aqui nós construímos de forma diferente. Tudo isso vai modificar um pouco a nossa cultura. Aqui é a nossa zona de contato. Um momento em que a cultura emerge de forma mais contextualizada porque a gente pode voltar um pouco e entender de onde veio essa migração”, ressalta.
As festas religiosas como o Círio de Nazaré de Marabá, que tem mais de 40 anos e é o segundo maior do estado em participação, além de a cidade ter um santo padroeiro, que é São Félix de Valois, que dá nome a uma igreja e praça, cartões-postais da cidade, revelam a importância da Igreja Católica na trajetória da cidade.


A cena musical da cidade sempre foi uma referência, com artistas que transitam por todos os ritmos e a realização de grandes festivais de música.
A grande diversidade cultural de Marabá também é étnica. De acordo com o último censo do IBGE, Marabá possui mais de 70% de sua população que se autodeclara parda, com quase 10% que se autodeclara preta. De acordo com esses dados, a população do município é composta por mais de 81% de negros, conforme a classificação do próprio instituto.
Esses dados são apenas uma das muitas perspectivas que tornam Marabá uma cidade única, uma condensação de inúmeros processos históricos, culturais, sociais, econômicos e políticos que formam a identidade da cidade.
Ana Luiza Rocha, 70 anos, testemunha da história da cidade
A aposentada Ana Luiza Rocha nasceu às margens do Rio Tocantins, no bairro Francisco Coelho. Filha de uma lavadeira, ficou órfã de pai aos dez anos, em uma família de dez irmãos.
A vida era árdua. Vendo todo o esforço da mãe para criá-los, disse a si mesma que não queria ser lavadeira também. Ana Luiza terminou o Ginásio, que hoje corresponde à faixa entre o 6º e o 9º anos, e, na época, para concluir o ensino médio era necessário ir para Belém. Ficou em Marabá, conseguiu uma bolsa no então Colégio Santa Teresinha e fez o Magistério.
Logo tornou-se servidora pública e concluiu o curso técnico em enfermagem. Trabalhou na iniciativa privada em Tucuruí, retornou a Marabá, fez novamente concurso público, foi aprovada e trabalhou 22 anos com saúde indígena. Atualmente, está aposentada, mas não parou. Logo se engajou em movimentos sociais e iniciou o Grupo de Mulheres do Cabelo Seco Raízes de Marabá, que buscava políticas públicas para a comunidade e, atualmente, é vice-presidente do Conselho Municipal de Cultura.


Dos ciclos econômicos que abordamos nesta reportagem, Ana Luiza tem lembranças da castanha. “Meu cunhado era piloto desses barcos que iam para o igarapé, para esses castanhais. E quando vinha o barco, vinha cheio de castanha, e a gente nadava para que eles dessem castanha para a gente. Era muito emocionante”, relembra.
Com o passar do tempo, Ana Luiza acompanhou todas as transformações pelas quais Marabá passou, como o surgimento dos Núcleos Cidade Nova, Nova Marabá, São Félix e Morada Nova, e a construção das pontes que mudaram a forma de se locomover pela cidade.
“Marabá significa tudo, é minha vida, onde eu nasci. É minha casa. Na época, não tinha ponte, a gente atravessava na balsa. Olha a transformação que houve com essa ponte. Acompanhei toda essa evolução. O que eu quero é que Deus continue protegendo a nossa cidade e que cada dia possa prosperar”, afirma.
A Casa da Cultura e a história de Marabá
Para quem tem interesse sobre a história da cidade, a FCCM conta com o Arquivo Histórico Manoel Domingues. Desde 1987, a fundação desenvolve um grande acervo documental, que possui variedade de documentos, fontes e registros, como jornais, fotografias, revistas, panfletos, cordéis, atas, relatórios, planejamentos urbanos, produzidos ao longo das décadas sobre Marabá e região. É uma reserva técnica ampla.
“Qualquer pesquisador, cidadão que tenha curiosidade sobre algum tema, que queira pesquisar, que tenha tempo para olhar as fontes, pode solicitar tanto as fontes digitalizadas, porque grande parte do acervo é digital, quanto pode vir presencialmente conhecer as fontes físicas. Temos caixas classificadas por temas variados, sociais, culturais, econômicos, históricos, administrativos, que podem ser acessados aqui”, reitera a historiadora do Arquivo Histórico, Camila Caetano.
O Museu Francisco Coelho também guarda em suas galerias muito da história de Marabá, com linhas do tempo e salas que ressaltam aspectos da trajetória da cidade, como os ciclos econômicos, a cultura indígena e as lendas, por exemplo. Para o historiador Wellington Mota, quem vai ao Museu consegue compreender um pouco da identidade de Marabá e os processos que a moldaram.


“É entender que nós somos filhos de migrantes, uma migração constante. A gente é conhecido por sempre ter gente nova na nossa região. E quando você vem ao Museu e se percebe dentro desse processo, filho de migrantes, parentes ou está migrando agora, a gente é isso, nós somos esse povo migrante. Quando você entra no Museu, vai entender todos esses processos, entender essa perspectiva religiosa, cultural, que é o mais bacana de todos”, conclui.
O Arquivo Histórico Manoel Domingues funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 16h, na sede da Fundação Casa da Cultura, na Folha 31, Nova Marabá.
O Museu Francisco Coelho funciona de terça a sexta-feira, das 9h às 17h, e aos sábados e domingos, das 9h às 13h.




Texto: Ronaldo Palheta
Fotos: Sara Lopes / Arquivo Secom
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