Valdemar, por sua vez, tratou diretamente da estratégia de longo prazo do PL, incluindo 2026. Bolsonaro pediu que o partido estruturasse chapas fortes, principalmente no Sudeste, para não perder protagonismo, e reforçou a necessidade de que a legenda se mantivesse como núcleo da direita. Já Tarcísio ganhou carta branca para nacionalizar temas e ocupar espaços antes reservados ao ex-presidente, transformando-se em porta-voz da direita e tomando para si a articulação da anistia.
Nos bastidores, aliados descrevem Bolsonaro como um líder dividido entre a fragilidade física e determinação política. Ao se encontrar com Valdemar, insistiu que seu filho, Carlos Bolsonaro, seja candidato ao Senado em 2026 por Santa Catarina. Sobre a anistia, conversou com Lira de forma direta: “É preciso ter coragem política”, teria dito. Mas o próprio deputado alertou que qualquer movimento precipitado poderia gerar resistência no Congresso e no Supremo.
Internamente, a casa funciona como um QG político com rotina própria. Flávio Bolsonaro se tornou ponte institucional entre o pai e líderes do Congresso, transmitindo recados. Carlos Bolsonaro e Jair Renan transitaram menos na residência, mas vieram para Brasília nesta semana para acompanhar o julgamento da trama golpista. Michelle organiza a vida doméstica, do arroz com feijão que Bolsonaro não abre mão à logística de visitas, determinando a que horas os aliados podem ir até à casa, após serem autorizados pelo STF.
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O cotidiano de Bolsonaro alterna momentos de lazer, rotina familiar e discussões políticas: assiste a jogos de futebol, reúne-se com advogados, recebe aliados e trata de estratégias eleitorais. A mesa da sala está sempre ocupada por papéis e frascos de remédios. O ex-presidente enfrenta crises de soluço, refluxo e dores no estômago, diagnosticadas em exames recentes como irritação no esôfago. Esses episódios de náusea e fragilidade, que decorrem de um quadro gástrico que apresenta desde a facada de 2018, o impediram de participar da primeira parte do julgamento no STF.
Aliados relatam que, mesmo diante de limitações físicas, Bolsonaro mantém ritmo intenso de articulação. O QG doméstico mistura política e intimidade. Michelle prepara a comida caseira enquanto Bolsonaro debate alianças. Nas reuniões com aliados, o ex-presidente alterna momentos de reclamação sobre dores e soluços com decisões estratégicas, como definição de candidatos, palanques regionais e movimentos do partido. “Ele não está fora do jogo, só está jogando de dentro de casa”, diz um deputado próximo.
Ao completar um mês em prisão domiciliar, Bolsonaro tenta conciliar o papel de chefe de família com o de líder político em xeque.
O julgamento continua na próxima semana, e o resultado pode definir se a casa continuará sendo palco das articulações de Bolsonaro.
