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Caso de adolescente que esfaqueou o pai após suposta indução no Roblox mostra riscos do aliciamento digital.

Caso de adolescente que esfaqueou o pai após suposta indução no Roblox mostra riscos do aliciamento digital.

04/05/2026 às 08h19
Por: Redação Fonte: Agência Diario de Pernambuco
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Caso de adolescente que esfaqueou o pai após suposta indução no Roblox mostra riscos do aliciamento digital.

Caso de adolescente que esfaqueou o pai após suposta indução no Roblox mostra riscos do aliciamento digital.

 

Especialistas explicam como criminosos se infiltram em jogos online e manipulam crianças e adolescentes dentro de casa.

Horas de dedicação a um jogo de celular trancado em um quarto levou a uma situação que fez com que o caso de um adolescente de 14 anos fosse parar nos jornais de Pernambuco. O jovem foi apreendido no Recife após esfaquear o próprio pai enquanto ele dormia. À polícia, o menino relatou ter recebido orientações dentro da plataforma Roblox. O caso, ainda sob investigação, pode ser mais um de aliciamento de menores de idade em ambientes virtuais.

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Segundo dados da pesquisa TIC Kids Online Brasil, do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), mais de 24 milhões de crianças e adolescentes entre 9 e 17 anos usam a internet no país, o equivalente a 93% dessa população. Entre eles, a maioria acessa plataformas com interação direta entre usuários, como jogos online e redes sociais, muitas vezes sem supervisão constante dos responsáveis.

É nesse ambiente que criminosos encontram espaço para agir e o processo raramente começa com violência explícita. Na maioria das vezes, ele se constrói pela confiança.

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“O criminoso nunca vai se apresentar como alguém de má índole. Pelo contrário: será sempre alguém com uma foto simpática, aparentemente disponível, acolhedor e disposto a ajudar. Porque o objetivo principal é ganhar confiança”, afirma o professor e especialista em segurança digital Eronides Meneses.

Segundo ele, o principal erro dos pais não é necessariamente negligência, mas o excesso de confiança na falsa segurança do ambiente doméstico. “Os pais veem os filhos dentro de casa, no quarto, e acreditam que eles estão seguros. Porém, deixam esse acesso livre, sem qualquer tipo de supervisão, e é aí que mora o perigo.”

Jogos como Roblox, Free Fire, Fortnite e plataformas paralelas como Discord se tornaram espaços de convivência para milhões de adolescentes.

“Crianças e adolescentes precisam de supervisão constante, assim como acontece na vida real, também na vida digital. Você está entregando um equipamento que pode transformá-los em verdadeiras marionetes de quem está do outro lado da tela. Eles podem ser seduzidos para o crime, para situações de violência, porque querem ser aceitos naquele grupo em que estão inseridos, muitas vezes dentro de jogos online”, explica Eronides.

O aliciamento

Segundo ele, esse tipo de aliciamento segue um roteiro conhecido e o criminoso busca ganhar confiança da vítima. A aproximação também costuma acontecer por meio de recompensas aparentemente inofensivas.

“Eles se infiltram em ambientes frequentados por crianças e adolescentes, como jogos online, oferecendo brindes, vantagens dentro do jogo, ajuda para alcançar objetivos ou evoluir de fase. Também atuam em aplicativos de comunicação, como o Discord, fingindo ter a mesma idade ou apenas um pouco mais velhos.”

No caso investigado em Pernambuco, a promessa teria sido justamente a entrega de Robux, moeda virtual utilizada dentro do Roblox. “Nesse caso específico, foi relatado que houve a oferta de moeda virtual dentro do jogo, como Robux, do Roblox, como recompensa pela participação no desafio. O adolescente, sem a noção real do perigo, acredita que aquilo é apenas uma brincadeira ou algo reversível. Muitas vezes, a criança sequer compreende a gravidade da situação”, complementa Eronides Meneses.

Exposição em excesso culmina em cenários críticos

Para a psicóloga e psicopedagoga Kátia Guerra, a exposição a este tipo de plataformas sem supervisão influencia diretamente o desenvolvimento emocional e psicológico das crianças e adolescentes. “Isso porque a criança ou o adolescente ainda está em processo de construção das suas referências internas, como autorregulação, senso crítico, limites e percepção de risco”, elucida.

Ela explica que, do ponto de vista da neurociência, a permanência prolongada nesses ambientes pode afetar a forma como o cérebro responde a estímulos e ameaças. “Em ambientes digitais abertos, eles podem entrar em contato com conteúdos, linguagens e dinâmicas que ultrapassam sua capacidade de elaboração emocional. Do ponto de vista da neurociência, isso pode gerar uma ativação constante de sistemas de alerta, favorecendo impulsividade, ansiedade e dificuldade de regulação.”

Segundo a especialista, muitas vezes o uso excessivo da internet não é a causa principal, mas um sintoma de fragilidades emocionais já existentes. “Em muitos casos, o que se observa não é apenas o uso do jogo, mas uma tentativa de preencher um vazio, uma busca por conexão onde há, muitas vezes, desamparo emocional”, observa.

Após o endurecimento das regras de segurança do Roblox no início do ano, com maior restrição ao chat de voz e exigência de verificação etária para determinadas interações, usuários menores de 18 anos fizeram manifestações on-line como forma de se mostrarem contrários ao novo cenário.

Crianças são sinais de “alerta”

O especialista em segurança digital Eronides Meneses afirma que as vítimas mudam de comportamento no período do aliciamento. “Passam a esconder o celular quando o pai ou a mãe se aproximam, criam senhas, não deixam ninguém ver o aparelho. Esses pequenos sinais são importantes. Quando o filho esconde algo, é porque existe alguma coisa que ele não quer que os pais descubbram”, alerta Eronides.

A psicóloga Kátia aponta mudanças emocionais semelhantes. “Entre eles, destacam-se alterações no humor, como irritabilidade frequente, tristeza ou ansiedade sem causa aparente; mudanças no padrão de sono; isolamento social progressivo; perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas; queda no rendimento escolar; e uma necessidade excessiva de estar conectado.”

Diante desse cenário, a orientação dos especialistas é reduzir o tempo de tela e fortalecer vínculos. “Estratégias baseadas no medo ou no controle excessivo tendem a gerar afastamento, resistência e, muitas vezes, ocultação de comportamentos. O caminho mais efetivo é o da construção de vínculo e diálogo”, afirma Kátia.

“Conversar sobre o ambiente digital precisa partir de uma postura de curiosidade genuína e interesse real pelo universo da criança ou do adolescente. Perguntar sobre os jogos, sobre o que eles gostam, com quem interagem, cria uma ponte de comunicação”, complementa.

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