
Uma duna parece a coisa mais sólida do mundo quando se olha de baixo, mas ela é apenas areia parada por enquanto. Em Natal, o Morro do Careca perdeu 2,7 metros de altura entre 2006 e 2023, e o que aparece embaixo dela não é praia. É a falésia que a duna cobriu há milhares de anos e que o mar está descobrindo outra vez.
A medição existe e é precisa. Pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) usaram sensoriamento remoto e sistemas de informação geográfica para comparar a duna entre 2006 e 2023, e o resultado foi publicado na Revista Contexto Geográfico: redução de 2,7 metros na altitude e perda de 318,5 m² na linha da escarpa.
Traduzindo o número: o morro saiu de cerca de 66 metros para pouco mais de 63. Parece pouco diante de um cartão-postal que domina a paisagem, mas o estudo explica a mecânica. A causa é o balanço negativo de sedimentos, ou seja, chega menos areia do que sai, e o efeito colateral é o mais revelador de todos: a base da falésia da formação Barreiras está ficando exposta.
Porque a duna chegou depois. Segundo o professor Rodrigo de Freitas Amorim, do Departamento de Geografia da UFRN e um dos autores do estudo, o local já foi uma falésia há cerca de 6 mil anos, quando o nível do mar estava mais elevado, e só depois foi recoberto pela areia soprada do continente.
O Morro do Careca não é um monte de areia uniforme. É um empilhamento de depósitos de épocas diferentes, incluindo paleodunas, dunas fósseis que ficaram séculos escondidas sob a camada branca e lisa do topo. Quando a areia da superfície some, esses níveis aparecem estratificados, como as páginas de um livro que ninguém tinha aberto. O morro está, literalmente, revelando a própria idade.
De trás dele, empurrada pelo vento. A duna se alimentava dos sedimentos soprados da praia vizinha, a da Barreira do Inferno, num ciclo que repunha o que o tempo levava. Esse abastecimento caiu.
O professor da UFRN aponta uma combinação de fatores que forma um sistema entre oceano, atmosfera e continente: a elevação do nível do mar, ligada ao derretimento de geleiras e à dilatação térmica da água, faz as ondas alcançarem a base do morro; a ocupação do litoral alterou a dinâmica da areia; e a construção de barragens reduziu o volume de sedimentos que os rios levavam ao mar, criando um déficit nas áreas de dunas. O resultado aparece na base: falésias de cerca de 2,5 metros onde antes havia rampa de areia.
Quem quer aproveitar a noite em Ponta Negra, vai curtir este vídeo do canal Caio Costa, com mais de 40 mil visualizações, que mostra a orla, os bares e os restaurantes de Natal:
Em 1997, e o motivo foi um esporte. Durante décadas, o morro foi palco da esquibunda, a descida em alta velocidade sobre uma prancha, além de ponto de subida para ver o pôr do sol. Cada descida arrastava areia morro abaixo, e o pisoteio constante consumia a vegetação de restinga que segurava o conjunto.
A duna virou área de proteção ambiental naquele ano e, em 2011, o Conselho Estadual de Meio Ambiente elevou a categoria para Monumento Ambiental, proibindo qualquer atividade sobre as dunas. Há cerca, placas e fiscalização da Guarda Municipal, e ainda assim gente sobe. O detalhe curioso é que a área nem é municipal: o terreno pertence à União, ligado ao Centro de Lançamento da Barreira do Inferno, o que ajuda a explicar por que a gestão do problema envolve tantos órgãos ao mesmo tempo.
A resposta veio em escala industrial. Entre setembro de 2024 e janeiro de 2025, uma draga holandesa despejou cerca de 1 milhão de metros cúbicos de areia ao longo de 4,6 km da orla, da Via Costeira até o pé do morro, na obra conhecida como engorda. Segundo a Prefeitura do Natal, a intervenção ampliou a faixa de areia e teve como objetivo declarado proteger o cartão-postal.
O que veio depois é a parte que a geologia já anunciava. Em maio de 2026, o Ministério Público Federal ajuizou ação civil pública afirmando que a drenagem foi ineficiente e que os alagamentos podem acelerar a erosão do morro e reduzir a faixa recém-ampliada. Pesquisadores da UFRN observam que parte da areia depositada já migrou para outros trechos da orla. Areia não fica onde a colocam. Ela segue a corrente, como sempre fez.
O Morro do Careca não vai sumir amanhã, e nenhum pesquisador diz isso. O que o estudo da UFRN descreve é mais sutil e mais inevitável: uma descaracterização lenta, medida em décadas, na qual a duna devolve a paisagem à falésia que ela mesma cobriu quando o mar era outro.
Na escala de uma vida humana, 2,7 metros em 17 anos é quase nada, um detalhe que só um instrumento de precisão enxerga. Na escala que formou aquele lugar, é o litoral fazendo o que faz desde sempre, retomando um desenho antigo enquanto uma cidade inteira tenta convencê-lo do contrário.
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