
Maria da Penha Moura, 71, não cabia em si de felicidade. “Vou passear”, repetia, enquanto a equipe multidisciplinar da UTI Amarela do Hospital Geral de Fortaleza (HGF), equipamento da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), a acompanhava e transportava o leito para o tal passeio. O destino era próximo — o corredor lateral do andar —, mas, para quem estava há oito dias sem ver a luz do dia, sentir a brisa da tarde fortalezense e avistar o movimento da cidade foi uma experiência transformadora.
No início, mesmo amparada pelos profissionais, Dona Maria manteve um olhar distante e contemplativo, como se processasse o momento. “Deus sabe o que se passa em meu coração. Receber um ventinho desse, ver o sol…”, disse, antes de mergulhar em um silêncio sereno.
Aos poucos, a contemplação deu lugar a um sorriso persistente. Maria fazia planos e contava histórias, ânimo que se intensificou com a chegada do filho, o vigilante Sérgio Moura, 45. “Isso é muito bom para a recuperação dela. Fico muito feliz. Obviamente, a vontade que temos é de tê-la em casa, mas vê-la assim é confortante demais”, comentou ele.

“A UTI é um espaço muito restrito, muito fechado, onde os pacientes permanecem muito tempo e, muitas vezes, ligados a equipamentos, sedados, em ventilação mecânica. Passam longos períodos no leito sem conseguirem sair para ver sequer a luz do sol”, detalha Nilce Almino de Freitas, que coordena os profissionais de fisioterapia de unidades consideradas críticas, como a UTI.
É para proporcionar momentos como esse que o setor de fisioterapia, junto de outros profissionais de saúde do hospital, realiza o projeto “Luz é Vida”. Segundo Nilce, o projeto existe desde 2022. “Ele é voltado para pacientes que, muitas vezes, não conseguem ir andando ou ir numa cadeira de rodas: vão na própria cama hospitalar. Já aconteceu de levarmos pacientes que estavam dependentes de ventilação mecânica, inclusive, com o ventilador portátil junto, com a monitorização, e a equipe inteira acompanha, para garantir o cuidado”, relembra.
A fisioterapeuta plantonista Lais Estela Alves, que acompanhou Maria da Penha, ressaltou o impacto emocional da ação. “Foi um prazer e uma alegria imensa participar. Foi visível o quanto essa experiência fez bem a ela e o quanto a alegrou. É gratificante estarmos juntos nesse momento e compartilharmos essa vivência”, destacou.
Para estar apto ao projeto, são tomadas algumas precauções. “Esses pacientes precisam estar clinicamente estáveis e ter o aval de toda a equipe. É necessário um planejamento conjunto entre médicos, enfermeiros e fisioterapeutas para garantir a segurança. O paciente não deve estar em uso de drogas vasoativas nem necessitar de altas frações de oxigênio. Para maior segurança, ele deve fazer a atividade monitorada e com suporte de retaguarda, como um cilindro de oxigênio, caso precise de auxílio externo”, explica Nilce.
O caso de Maria da Penha se encaixa nestes requisitos. Ela entrou no serviço para compensação do quadro, ou seja, estar estável o suficiente para a realização dos exames e tratamentos necessários, após realizar uma cirurgia de desobstrução intestinal. A saída para a janela aconteceu no dia 27 de março e, naquele mesmo dia, ela foi transferida para uma enfermaria no próprio HGF.

“O projeto integra mobilização precoce, estímulos ambientais, atuação multiprofissional e expande o espaço terapêutico para além da UTI. Então é um compromisso que a gente afirma com esses pacientes, de tentar realmente fazer algo diferente para que isso repercuta na recuperação funcional deles”, pontua a fisioterapeuta.
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