
Uma planta até então desconhecida pela ciência foi identificada no extremo oeste do Rio Grande do Sul, no Parque Estadual do Espinilho, unidade de conservação administrada pela Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura (Sema), localizada em uma das regiões mais raras e ameaçadas do país. Batizada de Grindelia mutabilis, a nova espécie ocorre exclusivamente na localidade do parque, em Barra do Quaraí.
A descoberta foi feita por pesquisadores ligados à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e a instituições parceiras, durante estudos taxonômicos e trabalhos de campo dedicados ao gênero Grindelia– um grupo de plantas da família botânica Asteraceae, que inclui margaridas, girassóis e crisântemos, entre outras. O estudo foi publicado na revista científica internacional Plants .

Apesar de já existirem registros antigos da planta, coletados ainda na década de 1940, ela vinha sendo confundida com outra espécie semelhante. Uma análise minuciosa revelou que se tratava, na verdade, de uma espécie nova para a ciência, com características próprias na forma de crescimento, nas folhas, nas flores e nos frutos.
A pesquisa por trás da descoberta
O biólogo Fernando Fernandes, que conduziu os estudos para seu projeto de mestrado em Botânica na UFRGS, disse que a pesquisa inicialmente envolvia o gêneroGrindeliano Brasil. Em sua investigação, foi realizada a revisão taxonômica das espécies brasileiras, um processo científico de reavaliar a delimitação, a identificação e a nomenclatura de um grupo de organismos. Nesse contexto, foi identificado que a espécie conhecida como Grindelia scorzonerifolia, que ocorre no Parque Estadual do Espinilho, na verdade não correspondia a essa espécie, mas sim a uma completamente distinta e ainda não descrita pela ciência.
“A Grindelia mutabilis apresenta lígulas — pequena estrutura localizada na folha da planta — de coloração amarelo-claro que, ao longo do desenvolvimento, mudam para um tom mais salmão à medida que amadurecem, algo inédito para o gênero, por isso o nome mutabilis. Além disso, essa espécie possui uma morfologia singular que, somada a evidências já disponíveis na literatura, nos permitiu contribuir para sinonimizar outros gêneros do grupo Asteraceae”, disse o biólogo. “Além de descrever essa espécie única (que já pode ser considerada criticamente ameaçada de extinção segundo a nossa avaliação preliminar do estado de conservação), o trabalho resolveu um problema taxonômico antigo dentro das margaridas da América do Sul”, explicou Fernandes.
Habitat da nova espécie
O habitat da nova espécie daGrindeliaé extremamente específico: solos arenosos e levemente salinos, em áreas abertas da vegetação conhecida como espinilho ou ñandubay (árvore nativa do nordeste da Argentina, Uruguai, Paraguai e sul do Brasil) — um tipo de savana rara. No território brasileiro, esse ecossistema sobrevive praticamente apenas dentro dos limites do Parque Estadual do Espinilho.
Atualmente, os pesquisadores estimam que existam cerca de 35 indivíduos adultos da nova espécie, todos concentrados em uma área muito pequena. Por isso, a Grindelia mutabilis foi classificada como criticamente ameaçada, o nível mais alto de risco de extinção segundo critérios internacionais.
Importância do Parque Estadual do Espinilho
“A descoberta da nova espécie evidencia ainda mais a importância do Parque Estadual do Espinilho, criado para proteger o bioma Pampa, que é um conjunto de ecossistemas exclusivo do Rio Grande do Sul. Ao mesmo tempo em que revela uma nova espécie para a ciência, o parque contribui com grande valor ecológico e acadêmico para a sociedade”, comentou a diretora do Departamento de Biodiversidade da Sema, Cátia Viviane Gonçalves.
Mais do que um novo nome em catálogos científicos, a Grindelia mutabilis se torna símbolo da biodiversidade escondida nos campos do sul do Brasil e da importância das unidades de conservação para o meio ambiente.
Texto: Alisson Santos/Ascom Sema
Edição: Secom
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