
Avaliação é de que eventual classificação de PCC e CV como terroristas poderia alimentar narrativa bolsonarista e intervenções externas .
O governo brasileiro tem adotado cautela na reação à eventual classificação, por parte dos Estados Unidos, de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas e ameaças à segurança nacional americana. O principal receio é de as movimentações políticas possam sabotar as tratativas para o encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente Donald Trump na Casa Branca. A expectativa é que o encontro seja viabilizado em abril.
Com estratégia liderada pelo Itamarary, a gestão petista tem reunido informações sobre ações de Estado adotadas pelo governo Lula para combater o crime organizado no Brasil, como a aprovação da PEC da Segurança e do Projeto de Lei Antifacção, além das operações realizadas pela Polícia Federal (PF) para desarticular o braço financeiro das organizações criminosas, a exemplo da Carbono Oculto.
Esses pontos estão sendo usados como argumentos, dentro de discussões de nível técnico entre os dois países, para demonstrar que o Brasil já usa uma série de dispositivos para combater o crime no país — incluindo o endurecimento de leis contra o crime, caso do projeto Antifacção que aguarda a sanção de Lula.
Integrantes do governo envolvidos na discussão afirmam que, diante dos elementos apresentados aos Estados Unidos, o governo brasileiro sustentará que qualquer intervenção seria redundante ao que já vem sendo feito internamente.
De acordo com relatos, o trabalho vem sendo conduzido com “sensibilidade diplomática” para não queimar pontes que estão sendo construídas para viabilizar o encontro entre os dois presidentes.
Entre auxiliares de Lula, o eventual encontro entre os dois presidentes seria um trunfo eleitoral do petista às vésperas das eleições. A visita seria o ponto máximo da aproximação entre Lula e Trump, construída desde setembro do ano passado, terá o combate ao crime organizado como parte importante da pauta que será tratada entre os dois líderes.
A relação de proximidade que começou a ser construída desde setembro, inclusive, impede o governo de ter uma reação mais dura diante do risco de os Estados Unidos classificarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.
Quando Trump anunciou o tarifaço contra produtos brasileiros em julho, Lula e o PT iniciaram uma campanha em defesa da soberania nacional. A avaliação no governo é que a resposta dada naquele momento ajudou a reverter um cenário negativo de avaliação do presidente. Em agosto, a gestão petista era desaprovada por 51% da população e aprovada por 46%, segundo a Quaest. A diferença, que já tinha sido de 17 pontos, estava em cinco naquele momento. Pesquisa divulgada nesta quarta-feira pelo mesmo instituto aponta 51% de aprovação e 44% desaprovação.
Para auxiliares do presidente, com o tarifaço, o governo enfim encontrou um discurso capaz de mobilizar a população. Lula disse na época que o “Brasil é um país soberano com instituições independentes que não aceitará ser tutelado por ninguém”.
Como O GLOBO noticiou, oficiais do Departamento de Estado dizem considerar as facções criminosas brasileiras “uma ameaça relevante à segurança regional” e avaliam que o PCC e o CV preocupam autoridades de segurança no hemisfério.
Aliados do governo Lula afirmam que a eventual classificação de CV e PCC como organizações terroristas pelo governo americano teria graves efeitos sobre a soberania do país e poderia ser usada como justificativa para intervenções dos Estados Unidos em assuntos internos do país.
Exemplos não faltam: aliados citam desde casos recentes de bravatas intervencionistas — como falas de Trump associando, sem provas, o governo da Colômbia ao narcotráfico — e de intervenções militares — como a da Venezuela, que também envolveu uma acusação de que o então ditador Nicolás Maduro e outras lideranças de seu regime teriam ligações com o narcotráfico.
Apesar das tratativas entre Itamaraty e o governo americano, lideranças da base aliada de Lula no Congresso já dizem publicamente que uma classificação do PCC e do CV como terroristas seria uma espécie de segundo ato da ação internacional da família Bolsonaro contra os interesses do Brasil, visto que deixaria o país exposto a sanções e intervenções do governo dos Estados Unidos em assuntos internos.
Para rebater o discurso oposicionista de que se opor à classificação das facções criminosas como terroristas seria defendê-las, esses aliados têm reforçado que operações recentes da PF, como a Carbono Oculto, têm desarticulado financeiramente organizações criminosas.
— A agenda deles (oposição bolsonarista) é que governos estrangeiros executem. Sonham em se apossar do governo brasileiro à força. Sonham com uma intervenção estrangeira em nosso país. O objetivo é esse. O PCC e o CV nunca foram tão combatidos como no governo Lula. Eles têm seus territórios e são combatidos nos territórios onde estão. Essas facções também têm os comandantes, de terno e gravata — diz Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Senado.
O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC) afirma que as facções em questão “são organizações criminosas que querem ganhar dinheiro ilicitamente, não têm uma ideologia por trás”.
— Quando o governo dos Estados Unidos quer forçar e conceituar ou categorizar PCC e Comando Vermelho como entidade terrorista, não tem interesse em enfrentar o crime organizado, está com outros interesses que precisam ser explicitados — afirmou ao GLOBO.
Uczai ressalta que os EUA podem colaborar com o combate ao crime por meio do estrangulamento financeiro de atividades criminosas e lembrou que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já enviou aos Estados Unidos informações sobre criminosos que atuam no Brasil a partir do território americano.
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