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Governo envia dados de facções aos EUA, mas evita atrito antes de encontro com Trump

Governo envia dados de facções aos EUA, mas evita atrito antes de encontro com Trump

11/03/2026 às 17h22
Por: Redação Fonte: Estadão Conteúdo
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Governo envia dados de facções aos EUA, mas evita atrito antes de encontro com Trump

Governo envia dados de facções aos EUA, mas evita atrito antes de encontro com Trump.

 

Avaliação é de que eventual classificação de PCC e CV como terroristas poderia alimentar narrativa bolsonarista e intervenções externas  .

O governo brasileiro tem adotado cautela na reação à eventual classificação, por parte dos Estados Unidos, de facções criminosas brasileiras como grupos terroristas e ameaças à segurança nacional americana. O principal receio é de as movimentações políticas possam sabotar as tratativas para o encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva com o presidente Donald Trump na Casa Branca. A expectativa é que o encontro seja viabilizado em abril. 

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Com estratégia liderada pelo Itamarary, a gestão petista tem reunido informações sobre ações de Estado adotadas pelo governo Lula para combater o crime organizado no Brasil, como a aprovação da PEC da Segurança e do Projeto de Lei Antifacção, além das operações realizadas pela Polícia Federal (PF) para desarticular o braço financeiro das organizações criminosas, a exemplo da Carbono Oculto.  

Esses pontos estão sendo usados como argumentos, dentro de discussões de nível técnico entre os dois países, para demonstrar que o Brasil já usa uma série de dispositivos para combater o crime no país — incluindo o endurecimento de leis contra o crime, caso do projeto Antifacção que aguarda a sanção de Lula. 

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Integrantes do governo envolvidos na discussão afirmam que, diante dos elementos apresentados aos Estados Unidos, o governo brasileiro sustentará que qualquer intervenção seria redundante ao que já vem sendo feito internamente. 

De acordo com relatos, o trabalho vem sendo conduzido com “sensibilidade diplomática” para não queimar pontes que estão sendo construídas para viabilizar o encontro entre os dois presidentes. 

Entre auxiliares de Lula, o eventual encontro entre os dois presidentes seria um trunfo eleitoral do petista às vésperas das eleições. A visita seria o ponto máximo da aproximação entre Lula e Trump, construída desde setembro do ano passado, terá o combate ao crime organizado como parte importante da pauta que será tratada entre os dois líderes.  

A relação de proximidade que começou a ser construída desde setembro, inclusive, impede o governo de ter uma reação mais dura diante do risco de os Estados Unidos classificarem o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas.

Quando Trump anunciou o tarifaço contra produtos brasileiros em julho, Lula e o PT iniciaram uma campanha em defesa da soberania nacional. A avaliação no governo é que a resposta dada naquele momento ajudou  a reverter um cenário negativo de avaliação do presidente. Em agosto, a gestão petista era desaprovada por 51% da população e aprovada por 46%, segundo  a Quaest. A diferença, que já tinha sido de 17 pontos, estava em cinco naquele momento. Pesquisa divulgada nesta quarta-feira pelo mesmo instituto aponta 51% de aprovação e 44% desaprovação.

Para auxiliares do presidente, com o tarifaço, o governo enfim encontrou um discurso capaz de mobilizar a população. Lula disse na época que o “Brasil é um país soberano com instituições independentes que não aceitará ser tutelado por ninguém”.

Como O GLOBO noticiou, oficiais do Departamento de Estado dizem considerar as facções criminosas brasileiras “uma ameaça relevante à segurança regional” e avaliam que o PCC e o CV preocupam autoridades de segurança no hemisfério.

Aliados do governo Lula afirmam que a eventual classificação de CV e PCC como organizações terroristas pelo governo americano teria graves efeitos sobre a soberania do país e poderia ser usada como justificativa para intervenções dos Estados Unidos em assuntos internos do país.  

Exemplos não faltam: aliados citam desde casos recentes de bravatas intervencionistas — como falas de Trump associando, sem provas, o governo da Colômbia ao narcotráfico — e de intervenções militares — como a da Venezuela, que também envolveu uma acusação de que o então ditador Nicolás Maduro e outras lideranças de seu regime teriam ligações com o narcotráfico. 

Apesar das tratativas entre Itamaraty e o governo americano, lideranças da base aliada de Lula no Congresso já dizem publicamente que uma classificação do PCC e do CV como terroristas seria uma espécie de segundo ato da ação internacional da família Bolsonaro contra os interesses do Brasil, visto que deixaria o país exposto a sanções e intervenções do governo dos Estados Unidos em assuntos internos. 

Para rebater o discurso oposicionista de que se opor à classificação das facções criminosas como terroristas seria defendê-las, esses aliados têm reforçado que operações recentes da PF, como a Carbono Oculto, têm desarticulado financeiramente organizações criminosas.  

— A agenda deles (oposição bolsonarista) é que governos estrangeiros executem. Sonham em se apossar do governo brasileiro à força. Sonham com uma intervenção estrangeira em nosso país. O objetivo é esse. O PCC e o CV nunca foram tão combatidos como no governo Lula. Eles têm seus territórios e são combatidos nos territórios onde estão. Essas facções também têm os comandantes, de terno e gravata — diz Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Senado. 

O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC) afirma que as facções em questão “são organizações criminosas que querem ganhar dinheiro ilicitamente, não têm uma ideologia por trás”. 

— Quando o governo dos Estados Unidos quer forçar e conceituar ou categorizar PCC e Comando Vermelho como entidade terrorista, não tem interesse em enfrentar o crime organizado, está com outros interesses que precisam ser explicitados — afirmou ao GLOBO.  

Uczai ressalta que os EUA podem colaborar com o combate ao crime por meio do estrangulamento financeiro de atividades criminosas e lembrou que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já enviou aos Estados Unidos informações sobre criminosos que atuam no Brasil a partir do território americano.

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