
Veja como os efeitos econômicos da guerra no Irã respingam em vários países e regiões do mundo; proximidade do conflito e dependência de exportações de petróleo são os fatores principais.
A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, além das perdas de vidas humanas e materiais, traz diversos impactos de médio e longo prazos na geopolítica global. Mas um dos aspectos que estão recebendo mais atenção são os efeitos imediatos e os mais duradouros na economia global.
O tamanho e a duração dessa conta depende de fatores como a proximidade física do conflito e o grau de dependência de bens transacionáveis que estão com suas cadeias totalmente ou parcialmente interrompidas.
Preços de energia em alta, segurança alimentar, riscos de inflação ou estagflação e até influências nas políticas monetárias são alguns dos efeitos citados em jornais e sites especializados, além de centros de estudo em todo o mundo. O InfoMoney compilou algumas dessas projeções, dividida por países ou regiões. Veja abaixo:
O consumidor americano já foi apresentado a primeiro impacto econômico do início da guerra no Irã e da interrupção do transporte de petróleo no Estreito de Ormuz: com a cotação internacional do petróleo saltando de algo abaixo de US$ 70 para mais de US$ 90, com pico intradiário acima de US$ 100 na 2ª feira (17), o galão de gasolina saiu de US$ 3,00 para US$ 3,54, em média, em pouco mais de uma semana.
A perspectiva de a commodity buscar um ponto de equilíbrio bem acima da média recente, reacendeu temores inflacionários no país e colocou em risco se não a retomada dos cortes de juros em 2016, ao menos o tamanho da flexibilização monetária esperada.
Isso, aliado a expectativas de taxas de crescimento econômico mais baixas, trouxe de volta leituras de que uma estagflação.
De acordo com análise de Mark Mathews, economista-chefe da National Retail Federation (NRF), que representa o varejo americano, as famílias dos EUA pagam US$ 2.500 por ano, ou quase US$ 50 por semana, para abastecer seus carros. Um aumento de 20% nos preços da gasolina, portanto, significa mais 10 dólares por semana fora do orçamento, o que força um corte em outros gastos do dia a dia. “Se eu tiver que pagar mais por um essencial, então reduzo um item discricionário”, explicou Mathews.
Se os preços do petróleo permanecerem em torno de US$ 100 por barril, calcularam analistas da Evercore ISI, o aumento resultante nos preços da gasolina eliminará para a maioria dos americanos os benefícios dos reembolsos de impostos este ano, decorrentes dos cortes de impostos de Trump em 2025. E apenas os 30% mais ricos ainda teriam algum ganho.
Por outro lado, os Estados Unido são agora exportadores líquidos de energia e tendem a ganhar com o aumento dos preços do petróleo e gás. E também podem se favorecer da busca de outros países por produtos cuja cadeia de fornecimento seja interrompida, como no caso da nafta petroquímica.
Embora a Europa dependa muito menos do petróleo e GNL produzidos no Oriente Médio do que países como China, Índia, Japão ou Coreia do Sul, tende a sofrer o impacto de quebras na oferta por conta dos preços internacionais de energia. Petróleo e GNL são mercados globais: qualquer bloqueio do Estreito de Ormuz pode desencadear picos de preços que atingem a Europa independentemente de suas importações físicas menores.
Segundo o think tank Bruegel, a vulnerabilidade mais pronunciada da Europa é o GNL. Quando os fluxos do gás são reduzidos, a disponibilidade global cai e os europeus são forçados a competir com compradores asiáticos por cargas no mercado spot – isso aconteceu na crise energética de 2021-2023, exacerbada pela guerra entre Rússia e Ucrânia.
E a Europa começou 2026 com níveis de armazenamento de gás muito mais baixos do que nos anos recentes: 46 bilhões de metros cúbicos (bcm) no final de fevereiro de 2026, comparado a 60 bcm em 2025 e 77 bcm em 2024.
O centro de estudos destaca que preços de energia mais altos afetam as margens industriais, especialmente para setores intensivos em gás. Se os preços do petróleo e gás dispararem em simultâneo, a substituição fica mais difícil, potencialmente provocando uma renovada demanda por carvão e pressão por economias do lado da demanda. Alcançar o objetivo europeu de reduzir os custos de energia industrial – uma questão central das preocupações de competitividade dos líderes da UE – pode se tornar mais complicado.
Segundo o Bruegel, a crise coloca nos holofotes a contínua dependência europeia de combustíveis fósseis importados e negociados em mercados globais voláteis. Ainda que tenha transferido a dependência da Rússia para outros fornecedores, especialmente os EUA, a União Europeia deveria rever sua atual estratégia de desacelerar a transição para o baixo carbono, diz o think tank.
Além da instabilidade energética, existe um temor de uma nova crise de refugiados, de ameaças cibernéticas na segurança e até uma possível retaliação comercial dos EUA contra a Espanha, que criticou a operação militar.
A maior vulnerabilidade da China, segundo as últimas análises, é a hipótese de interrupções de longo prazo no Estreito de Ormuz, já que cerca de 45% de suas importações de petróleo vêm por essa via navegável. E o consequente aumento dos preços do petróleo pode representar um problema para a economia chinesa, que já sofre de deflação. Sua moeda artificialmente baixa torna mais caro comprar petróleo não autorizado (denominado em dólares americanos), assumindo que as exportações russas não possam substituir completamente os fluxos vindos do Irã.
Mas o The Washington Institute considera que vários fatores podem jogar a favor da China no longo prazo. Primeiro, Pequim começou a construir suas reservas estratégicas de petróleo no ano passado e agora tem o equivalente a cerca de 104 dias de importações guardadas —patamar acima da recomendação mínima da Agência Internacional de Energia, de 90 dias.
Além disso, nas semanas anteriores à guerra, vários relatos indicaram que grandes quantidades de petróleo iraniano ainda estavam sendo mantidas em petroleiros porque a demanda chinesa caiu no ano passado. Assim, a projeção é que a China provavelmente ficará bem protegida no campo energético, desde que a guerra não dure muito.
A Índia importa quase 90% de seu petróleo bruto, enquanto mais de 60% da demanda por GLP e mais da metade de suas necessidades de gás natural liquefeito são atendidas por importações, a maioria originada da região do Golfo.
A estimativa é que o gigante da Ásia possua mais de 250 milhões de barris de petróleo bruto e produtos petrolíferos refinados em suas reservas, o equivalente a cerca de sete a oito semanas de fornecimento em todo o sistema indiano.
Embora a Rússia continuasse em fevereiro como o maior fornecedor de petróleo bruto para a Índia – e os EUA terem concedido uma isenção de 30 dias para essas compras – o país tem feito um esforço para ampliar o número de fornecedores: são 27 países, de seis continentes.
Ainda assim, há um plano emergencial em vigor para evitar que a população sofra com algum tipo de desabastecimento ou com uma alta expressiva de preços. O governo anuncio como “improvável” qualquer reajuste no varejo de combustíveis nos próximos dias e revisou prioridades no fornecimento de GNL e GLP para setores críticos e para o gás de cozinha.
O segundo nível de prioridade foi definido como o do setor de fertilizantes, mostrando a prioridade à segurança alimentar.
O prolongamento da guerra no entanto, pode atingir a Índia em outras frentes além dos preços internos: cerca de 10 milhões de indianos vivem e trabalham em todo o Golfo, enviando para casa remessas recordes que sustentam milhões de famílias e ajudam a financiar uma fatia considerável das contas externas indianas.
Além disso, o Oriente Médio responde por 17% das exportações indianas, boa parte disse em bens tecnológicos.
A escalada dos preços do petróleo desde o início dos bombardeios no Irã está tornando a Rússia como a grande beneficiária da guerra no curto prazo – e isso pode se manter por mais tempo caso o presidente Donald Trump decida levantar algumas das sanções impostos sobre o país de Vladimir Putin, como prometeu. Assim, a economia russa seria fortemente fortalecida por uma interrupção mais alongada no Estreito de Ormuz, um dos corredores energéticos mais críticos do mundo.
E isso pode se estender às vendas de gás natural para a Europa, que poderiam ser elevadas antes da interrupção planejada pela União Europeia para 2027.
Mas o país também encara incertezas do futuro de projetos que vinha tocando no Irã ente do início da guerra. A Rússia está atualmente construindo a segunda fase da usina nuclear Bushehr e o trabalho foi suspenso após o início dos ataques israelenses e americanos, com o pessoal sendo evacuado. A corporação nuclear estatal russa Rosatom planejava não apenas concluir o projeto Bushehr, mas também lançar um novo. Em 2025, Moscou e Teerã chegaram a um acordo preliminar de US$ 25 bilhões para construir a Usina Nuclear Hormoz.
Calcula-se que a Rússia já aportou ao menos US$ 4,2 bilhões em investimentos no Irã desde 2022, a maioria direcionados a projetos de petróleo e gás no país.
Das grandes economias do mundo, a do Japão talvez seja a mais dependente de importações de energia, especialmente petróleo, gás e carvão. E qualquer conflito que cause distúrbios no transporte de petróleo do Oriente Médio afeta os japoneses diretamente pois mais de 90% do petróleo consumido pelo país vem da região, passando prioritariamente pela travessia do Estreito de Ormuz.
O Japão tem buscado há vários anos diversificar seus suprimentos e fortalecer sua cooperação energética com parceiros como os Estados Unidos e a Austrália. Mas esses esforços não são suficientes para reduzir a dependência estrutural no Oriente Médio.
A paralisação prolongada do transporte marítimo pelo Estreito levaria a um rápido aumento nos preços da energia, ameaçando a própria estabilidade econômica japonesa. Segundo os cálculos mais recentes, o arquipélago tem hoje reservas estratégicas de 90 dias, as maiores da Ásia, mas isso pode servir apenas para suprir uma crise de tempo limitado.
Especialistas em geopolítica e estratégia analisam que a posição japonesa é tradicionalmente cautelosa e equilibrada. Mesmo com o Japão sendo um aliado muito próximo dos Estados Unidos — parceria que foi fortalecida com a subida ao poder da primeira-ministra Sanae Takaichi – a tendência é que o país continua com sua política de manter relações diplomáticas relativamente estáveis até com o Irã.
A estratégia remonta em parte à década de 1970, quando o Japão desenvolveu sua diplomacia energética após os choques do petróleo. O objetivo era preservar o acesso aos recursos do Oriente Médio, evitando o envolvimento direto em rivalidades regionais.
Os países do Golfo Pérsico e do Norte da África dependem fortemente de commodities agrícolas importadas. O consumo per capita de trigo nesses países é bastante alto, frequentemente ultrapassando 100 kg/ano. Em Omã, o arroz importado também é uma parte importante da dieta diária. Além disso, a região depende fortemente de óleos vegetais importados e sementes oleaginosas, como a soja. O açúcar é outro item importante da importação, parte do qual é processada e exportada para a África e outras regiões.
Nos últimos 18 meses, a inflação de alimentos tem sido relativamente baixa na região, com a maioria dos países registrando taxas anuais abaixo de 2%. A exceção foi o Irã, que antes da guerra atual enfrentava anos de alta inflação crônica devido à má gestão econômica, sanções globais e participação em conflitos regionais. O Irã registrou um aumento de 42% ano a ano nos preços dos alimentos no varejo em setembro de 2025, segundo a FAO.
As projeções são de que, se o Estreito de Ormuz permanecer fechado ao transporte marítimo por muito tempo, os países do Golfo Pérsico precisarão encontrar corredores alternativos de importação. Alguns grãos podem ser transportados por terra da Rússia para o Irã, ou da Síria e Turquia para o Iraque, mas a custos mais altos.
A Arábia Saudita também pode conseguir importar mais por seus portos do Mar Vermelho, mas os volumes diários nesse corredor caíram quase 60% desde dezembro de 2023 devido a ataques de rebeldes houthis do Iêmen.
Além do fluxo de transporte de petróleo, Catar, Arábia Saudita, Bahrein e Omã são grandes exportadores de fertilizantes, especialmente de ureia, fosfato de diamônio (DAP) e amônia anidro. Algumas estimativas sugerem que até um terço do comércio global de fertilizantes pode ser afetado. O Irã também é um grande produtor de fertilizantes nitrogenados, mas atualmente exporta muito pouco.
A avaliação é que, se o conflito no Golfo Pérsico continuar e os envios continuarem interrompidos, os importadores terão que buscar fontes alternativas. Como em disrupções anteriores, esses esforços provavelmente terão sucesso, mas acarretarão custos significativamente maiores.
Pequenos estados insulares em desenvolvimento estão entre os mais dependentes de combustível importado e, portanto, são considerados os mais vulneráveis da região do Indo-Pacífico. As importações líquidas de petróleo e gás geralmente ficam entre 5 e 15% do PIB nos países das Ilhas do Pacífico e 10% do PIB nas Maldivas.
Tailândia, Laos, Camboja, Nepal e Paquistão são os próximos mais expostos, com importações líquidas de petróleo e gás entre 5 e 8% do PIB. A maioria das outras economias em desenvolvimento do Indo-Pacífico, no entanto, também são importadoras líquidas significativas de petróleo e gás e, portanto, sofrerão com preços globais mais altos. Apenas Papua Nova Guiné e Timor Leste são exportadores líquidos de energia entre os países de baixa renda, assim como Malásia e Brunei de renda mais alta.
Além da energia, a guerra tem feito os custos dos fertilizantes disparar, tanto porque o Oriente Médio e o Estreito de Ormuz são uma importante fonte de suprimento global de fertilizantes, quanto porque o gás natural é um insumo crítico na produção. Os efeitos poderão ser sentido mais à frente nos preços globais dos alimentos.
Os pequenos estados insulares em desenvolvimento, como os do Pacífico, estariam entre os mais expostos devido à forte dependência de alimentos importados e outros bens, enquanto a indústria internacional do turismo é frequentemente vital para renda e emprego. Países como Camboja, Tailândia e Nepal estão entre os mais expostos devido à dependência do turismo e das exportações manufatureiras.
(Fontes: BBC, AP, Yahoo Finance, The Moscow Times, The Washington Institute, Fundação para Pesquisa Estratégica -FRS, Instituto Internacional de Pesquisa em Políticas Alimentares – IFPRI, Lowy Institute)
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