
Em dezoito meses, os Estados Unidos removeram ou enfraqueceram todos os desafiantes da ordem global. Sem guerra mundial. Sem invasão terrestre.
Em 1938, após o Acordo de Munique, o então primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain voltou a Londres exibindo um papel assinado por Adolf Hitler e proclamando “paz para o nosso tempo”. Então membro do Parlamento britânico, Winston Churchill respondeu com a advertência que atravessaria o século: “Você teve a escolha entre a guerra e a desonra. Escolheu a desonra, mas terá a guerra.” Menos de um ano depois, a Segunda Guerra Mundial começou.
Lembrei dessa frase, ao ver a estátua de Churchill pichada em Londres – pelo mesmo povo que ele salvou. E ao ver a Europa pedindo “contenção”, enquanto iranianos celebravam nas ruas de Los Angeles e Londres a queda do regime que os oprimia há 45 anos.
No sábado, 28 de fevereiro de 2026, Estados Unidos e Israel realizaram uma operação conjunta que eliminou o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã desde 1989, e dezenas de integrantes centrais da estrutura político-militar do regime. A ação foi conduzida sem invasão terrestre, sem ocupação prolongada e sem mobilização convencional de larga escala.
Independentemente das controvérsias jurídicas e diplomáticas que um evento dessa magnitude inevitavelmente desperta, o fato é que o regime iraniano acumulava um histórico consistente de repressão interna – perseguição a mulheres, minorias religiosas e opositores – além do financiamento de grupos armados como Hamas, Hezbollah e Houthis e da manutenção de um programa nuclear sob permanente tensão internacional.
Tenho escrito, ao longo dos últimos meses, que os movimentos da política externa americana obedeciam a uma lógica estratégica mais ampla. Em “Trump está errado?” (maio/2025), argumentei que havia um método por trás do que muitos interpretaram como improviso. Em “O Erro Estratégico do Brasil” (julho/2025), sustentei que o país corria o risco de se posicionar de forma desalinhada diante de uma reorganização estrutural do sistema internacional. Em “Trump tem estratégia” (agosto/2025), defende que, diante de regimes autoritários consolidados, negociações sucessivas têm limites objetivos.
Em janeiro de 2026, ao analisar a captura de Nicolás Maduro na Venezuela, escrevi que aquele movimento não era isolado, mas parte de um rearranjo mais amplo do tabuleiro do xadrez geopolítico. O enfraquecimento subsequente do regime sírio e a desarticulação de grupos apoiados por Teerã reforçaram essa leitura. A operação que atingiu o núcleo do poder iraniano deve ser compreendida dentro dessa sequência lógica.
A reação inicial de Teerã, ao atingir alvos civis em países do Golfo como Emirados Árabes Unidos, Bahrein e Kuwait, acabou produzindo um efeito contrário ao pretendido. Em vez de ampliar a solidariedade regional, contribuiu para aproximar potências sunitas da posição americana. A tentativa de demonstrar força revelou fragilidade estratégica: ao atacar vizinhos potencialmente neutros, o regime ampliou seu isolamento. A Arábia Saudita, por exemplo, condenou os ataques iranianos, mas não os americanos.
A eliminação simultânea de dezenas de líderes – incluindo integrantes da Guarda Revolucionária e do alto clero político – comprometeu a cadeia de comando do Irã em vários níveis.
A sucessão em regimes teocráticos altamente centralizados depende não apenas de arranjos institucionais, mas de legitimidade religiosa. Sem uma transição clara e rápida, o risco de disputa interna cresce. A eventual transformação do regime iraniano pode resultar menos de pressão externa direta e mais de desestruturação interna.
Há, inevitavelmente, uma dimensão moral nesse debate. A diplomacia é instrumento essencial das relações internacionais, mas não resolve todos os conflitos. A experiência européia dos anos 1930 permanece como advertência sobre os limites do apaziguamento.
O regime iraniano foi responsável, ao longo de décadas, por repressão doméstica e por operações indiretas em múltiplas regiões – torturava mulheres, enforcava homossexuais, financiava terrorismo e matava tropas americanas ao redor do mundo.
Pedir “contenção” diante de um regime que destruiu o Líbano como nação funcional, que lançou ataques terroristas em três continentes, que matou mais iranianos do que qualquer inimigo externo — isso não é diplomacia. É cumplicidade com roupa de gala.
A questão que se impõe é desconfortável: quando a comunidade internacional possui meios concretos de interromper ciclos de violência sistemática, qual é o limite entre prudência estratégica e omissão moral? Os Estados Unidos tinham o direito de agir? A pergunta é: quem tem o poder de parar isso e NÃO age – qual é a responsabilidade moral dessa omissão?
A pergunta não elimina as complexidades do direito internacional nem os riscos de precedentes. Mas tampouco pode ser descartada. Os iranianos nas ruas de Los Angeles e Londres responderam essa pergunta com celebração. Não porque são belicistas, mas porque foram libertados. Esse elemento não pode ser ignorado na análise.
Do ponto de vista militar, a operação demonstra uma capacidade de projeção de poder que altera cálculos estratégicos globais. O Irã possuía mísseis balísticos, redes de influência regional e um programa nuclear em desenvolvimento. Ainda assim, foi severamente debilitado, duas vezes, por meio de inteligência, coordenação tecnológica e alianças.
Esse fato repercute inevitavelmente em Moscou e Pequim. A Rússia enfrenta desgaste prolongado na Ucrânia. A China, que mantinha o Irã como fornecedor relevante de combustíveis com desconto e como parceiro político, perdeu uma peça importante em sua arquitetura de influência. O cálculo estratégico de ambos muda quando a demonstração de força é clara e objetiva.
A Rússia está sangrando na Ucrânia há quatro anos, sem aliados operacionais. Se os EUA fizeram isso com o Irã, o que podem fazer com o complexo militar russo? O leverage para um acordo na região acaba de aumentar exponencialmente, e o presidente Vladimir Putin, agora, precisa negociar antes que não tenha mais nada para oferecer.
A China perdeu, nos últimos meses, parceiros estratégicos relevantes. A Venezuela deixa de ser uma plataforma regional estável; a Síria perde centralidade; grupos apoiados por Teerã são enfraquecidos; e o próprio Irã deixa de cumprir o papel de eixo energético alternativo sob sanções.
O país foi, nos últimos anos, o principal destino do petróleo iraniano vendido sob sanções, frequentemente com descontos relevantes em relação ao Brent. Caso esse fluxo seja interrompido ou reduzido de forma significativa, parte dessas importações tende a ser substituída por compras no mercado internacional a preços mais próximos da cotação global, pressionando o custo médio de energia.
Esse impacto ocorreria em uma economia que já enfrenta desafios estruturais: envelhecimento acelerado da população, elevado endividamento agregado – estimado por diversas consultorias em patamar próximo ou superior a 280% do PIB quando considerados governos locais, empresas e sistema financeiro – e uma crise prolongada no setor imobiliário. Nesse contexto, a aritmética que descrevi em “A Grande Fratura” não se altera; ao contrário, torna-se potencialmente mais desafiadora.
A questão de Taiwan permanece como ponto sensível. A demonstração de capacidade americana no Oriente Médio inevitavelmente entra no cálculo estratégico chinês. Conflitos potenciais passam a envolver riscos maiores quando a assimetria tecnológica e militar se evidencia.
A Europa escolheu a desonra e terá a guerra – exatamente como Churchill previu para Chamberlain. A União Europeia investiu anos na negociação do acordo nuclear com o Irã, enquanto o país financiava proxies, desenvolvia mísseis e se aproximava da bomba atômica.
No momento decisivo, contudo, teve participação limitada na definição dos rumos. A dependência energética, as restrições orçamentárias em defesa e a fragmentação política reduzem a capacidade de ação coordenada.
O contraste entre a postura de cautela diplomática e a percepção de parte da opinião pública europeia tende a ampliar tensões internas. O homem que salvou a Europa da tirania teve seu memorial vandalizado por europeus que vivem em liberdade porque ele existiu.
Mas a população vai explodir. O gap entre as elites diplomáticas de Bruxelas – que pedem diálogo com regimes que enforcam mulheres – e o cidadão europeu que assiste iranianos celebrando nas ruas é insustentável. A mesma elite que não resolve imigração, não resolve energia, não resolve defesa e não resolve crescimento é a que pede contenção. Isso não se sustenta. Em algum momento rompe. Nas urnas ou nas ruas.
Walter Russell Mead, especialista em política externa dos EUA e estratégia global, descreveu a Europa como “salada de pequenos poderes temperada com inimigos.” A pichação de Churchill é a prova.
Desde 1991, o sistema internacional opera sob predominância americana. A narrativa multipolar ganhou força com a ascensão da China e o reposicionamento da Rússia, mas os acontecimentos recentes recolocam a discussão em termos concretos de capacidade.
Olhem o tabuleiro: Irã enfraquecido, Rússia pressionada e aliados regionais, como Venezuela, Hamas e Síria, reorganizados. A China permanece como principal competidor sistêmico, mas enfrenta desafios estruturais relevantes. Ao mesmo tempo, os Estados Unidos concentram poder militar, supremacia tecnológica, autonomia energética, domínio financeiro e uma ampla rede de alianças.
Em dezoito meses, os Estados Unidos removeram ou enfraqueceram todos os desafiantes da ordem global. Sem guerra mundial. Sem invasão terrestre. Sem caixões americanos voltando. Isso nunca aconteceu na história. Nenhum império – romano, britânico, mongol – consolidou hegemonia com tão pouco custo de vidas humanas em tão pouco tempo.
E não é só força militar. É a convergência simultânea de todas as formas de poder numa única nação. Os Estados Unidos são exportadores líquidos de energia no agregado – a alta do petróleo tende a beneficiá-los relativamente e a pressionar adversários mais dependentes de importações. Nenhum império na história combinou, ao mesmo tempo, autonomia energética, supremacia tecnológica e centralidade financeira nessa escala.
A China importa cerca de 70% do petróleo que consome. A Europa permanece estruturalmente dependente de importações de energia, inclusive do Golfo. Os EUA são muito menos vulneráveis a choques externos do que seus principais competidores.
O dólar permanece dominante: representa cerca de 58% das reservas globais, enquanto o yuan oscila entre 2% e 3%. Não é inércia – é infraestrutura financeira, profundidade de mercado, liquidez e segurança jurídica. Substituir o dólar exigiria a construção de um sistema financeiro alternativo completo, com escala comparável – algo que hoje nenhum país demonstrou capacidade de oferecer.
Os investimentos globais em inteligência artificial somam centenas de bilhões de dólares por ano, com forte concentração nos Estados Unidos, tanto em capital privado quanto em infraestrutura tecnológica.
A próxima revolução econômica e militar está sendo amplamente desenvolvida em solo americano, com liderança em semicondutores avançados e data centers.
A China enfrenta restrições significativas de acesso aos chips mais avançados e a equipamentos críticos de fabricação, o que amplia os desafios para reduzir a distância tecnológica no curto prazo.
A rede de alianças americana permanece extensa e ativa. Japão ampliando seu orçamento de defesa. Coreia do Sul aprofundando coordenação estratégica. Austrália, no AUKUS. Índia, no Quad. Israel expandindo laços regionais após os Acordos de Abraão. Países do Sudeste Asiático, como Filipinas e Vietnã, reforçando vínculos com Washington.
E há ainda um elemento menos mensurável, mas politicamente relevante: a percepção de legitimidade. Parte das diásporas iraniana, venezuelana e síria celebrou mudanças recentes como a libertação. Não se trata apenas de imposição de poder, mas da construção de influência associada à ideia de ordem e estabilidade. Essa combinação – capacidade material e percepção de legitimidade – é um dos pilares clássicos da hegemonia sustentável.
Essa combinação é rara na história das grandes potências. A Pax Americana, nesse contexto, deixa de ser retórica e passa a ser descrita.
A questão não é “se” a Pax Americana vai se materializar? Já está se materializando. A questão é: quem se posiciona primeiro? O Japão já escolheu. Arábia Saudita e Índia também. Cada país que se reposiciona cedo captura capital, tecnologia, acesso a mercados e segurança. Os que resistem pagam o preço do isolamento.
Para países emergentes, inclusive o Brasil, o cenário impõe escolhas estratégicas. O país dispõe de ativos importantes – energia, agronegócio, minerais críticos, posição geográfica relativamente protegida – que podem ser valorizados em um ambiente de maior alinhamento com a potência predominante.
Em “O Erro Estratégico do Brasil”, argumentei que o desalinhamento em momentos de inflexão global tende a gerar custo de capital mais alto, menor acesso a tecnologia e perda de competitividade. A reorganização atual do sistema internacional torna essa discussão ainda mais relevante.
As decisões políticas tomadas nos próximos anos definirão se o Brasil capturará oportunidades associadas a esse novo arranjo ou permanecerá à margem.
Churchill alertou Chamberlain em 1938. A história mostrou o custo do apaziguamento mal calibrado. Hoje, diante de uma reconfiguração clara do poder global, o debate não é apenas sobre força, mas sobre posicionamento.
A escolha estratégica está posta. E, como a história ensina, neutralidade ambígua raramente é gratuita. Em outubro de 2026, o eleitor brasileiro decide.
Churchill avisou Chamberlain. A história provou que ele estava certo. Nós avisamos o Brasil. A história está provando que estamos certos. A escolha entre desonra e coragem está na mesa. Quem escolher a desonra não evitará as consequências. Apenas pagará mais caro por elas.
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