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Ali Khamenei, o implacável aiatolá que atravessou sanções, guerras e protestos no Irã

Ali Khamenei, o implacável aiatolá que atravessou sanções, guerras e protestos no Irã

28/02/2026 às 22h42
Por: Redação Fonte: Agência O Globo
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Ali Khamenei, o implacável aiatolá que atravessou sanções, guerras e protestos no Irã

Ali Khamenei, o implacável aiatolá que atravessou sanções, guerras e protestos no Irã.

 

Líder supremo consolidou regime repressivo, projetou influência via grupos aliados e pode deixar um vácuo de poder em meio a guerra, crise econômica e oposição fragmentada.

O presidente dos EUA, Donald Trump anunciou que o longevo líder supremo iraniano, o aiatolá Ali Khamenei, foi morto neste sábado (28) após décadas no comando da República Islâmica, em meio à maior escalada militar envolvendo o Irã desde a Revolução de 1979.

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Khamenei sucedeu o aiatolá Ruhollah Khomeini em 1989 e, desde então, atravessou sanções, conflitos por procuração e sucessivas ondas de protestos internos reprimidos com violência — incluindo as manifestações de 2022-2023 contra a obrigatoriedade do véu para mulheres. Aos 86 anos, já vinha sendo alvo de especulações sobre sucessão, tema que agora entra definitivamente no centro da cena política iraniana.

Segundo um funcionário americano ouvido pela imprensa internacional, o presidente Donald Trump chegou a vetar no ano passado um plano israelense para assassinar Khamenei. O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, porém, nunca escondeu que via a eliminação do líder supremo como objetivo estratégico. Certa vez, afirmou que a morte de Khamenei levaria “ao fim do conflito”.

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“Ele é como um Hitler moderno. Ele não vai parar, mas vamos garantir que não tenha meios para executar suas ameaças”, disse à ABC News, acusando o Irã de buscar uma “guerra eterna” e de arrastar a região à beira de um confronto nuclear.

Veterano da guerra contra o Iraque (1980-1988), Khamenei não viajou ao exterior desde que assumiu o cargo há 36 anos. Em 1981, sobreviveu a uma tentativa de assassinato que deixou seu braço direito paralisado. Desde então, qualquer deslocamento passou a ser cercado por sigilo e um pesado esquema de segurança.

Especialistas como Karim Sadjadpour, do Carnegie Endowment for International Peace, vinham apontando que Khamenei se via diante de um dilema cada vez mais difícil: faltava-lhe “acuidade física e cognitiva” para conduzir o Irã em uma guerra de alta tecnologia.

“Uma resposta fraca a Israel diminuiria ainda mais sua autoridade. Uma resposta forte poderia colocar em risco sua sobrevivência e a do regime”, avaliou, à época do último confronto aberto com Israel.

Mudança de roteiro

Durante décadas, Khamenei construiu uma estratégia de projetar poder fora das fronteiras iranianas sem se envolver diretamente em guerras convencionais, apoiando grupos como o Hamas palestino, o Hezbollah libanês, os houthis no Iêmen e o regime sírio da família Assad — derrubado em dezembro passado por uma coalizão de grupos islamistas. Esse modelo começou a ruir depois que Israel, a partir da guerra em Gaza em outubro de 2023, intensificou ataques a esses aliados e, mais recentemente, passou a mirar o próprio território iraniano.

“Desde que assumiu a liderança suprema em 1989, ele se orgulhava de ter mantido os conflitos afastados das fronteiras do Irã”, comentou Jason Brodsky, da organização United Against Nuclear Iran (UANI). “Agora, Khamenei cometeu um grande erro de cálculo.” A velocidade dos acontecimentos “ameaça superar a capacidade de resposta de Teerã”, acrescentou.

Em junho, Israel — que detém armas nucleares, embora nunca tenha confirmado oficialmente — lançou uma campanha militar sem precedentes contra o Irã, matando o chefe da Guarda Revolucionária, o comandante do Estado-Maior das Forças Armadas e vários cientistas ligados ao programa atômico, além de atingir instalações nucleares e alvos militares. A ofensiva aconteceu após anos de dificuldades econômicas impostas ao Irã por sanções internacionais relacionadas justamente a esse programa. Teerã sempre negou buscar a bomba.

No plano interno, o legado de Khamenei é marcado por autoritarismo e repressão. “Muitos iranianos querem que a República Islâmica termine. Mas a maioria não quer que isso aconteça às custas de sangue e guerra”, diz Holly Dagres, pesquisadora do Washington Institute.

A oposição é fragmentada, tanto dentro quanto fora do país. Reza Pahlavi, filho do último xá deposto em 1979 e uma das principais figuras opositoras no exílio, vinha usando as recentes ondas de protestos para pedir a queda do regime: “Mantenham-se fortes e venceremos”, disse em uma das mensagens dirigidas à população.

Com a morte de Khamenei, o Irã entra em uma fase de incerteza aguda. Pela Constituição, um conselho de clérigos deve indicar o novo líder supremo, mas parte da elite militar e política também foi atingida na atual ofensiva, elevando o risco de disputas internas, vácuo de poder e maior instabilidade em um momento em que o país já enfrenta pressão militar externa, crise econômica e insatisfação popular.

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