
Recurso voltado à liquidação do comércio entre os países do bloco, baseado numa cesta de moedas, surge como possibilidade pragmática.
LONDRES – Será que os Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) poderiam lançar uma moeda comum para desafiar a posição dominante do dólar americano na economia mundial? Como muitos economistas internacionais convencionais, eu rejeitei a ideia em termos gerais, apesar do meu próprio papel na criação da sigla Brics, que levou à criação de um clube formal dos Brics (desde então expandido para Brics+, com a adição de cinco novos membros).
Seguindo os critérios padrão de como as principais moedas de reserva se desenvolveram ao longo da história, um requisito é uma conta de capital totalmente conversível, para que investidores nacionais e internacionais possam investir livremente dentro e fora do país emissor sempre que quiserem. E quando se trata de uma moeda comum e partilhada, como o euro, é necessário estabelecer um novo banco central, o que implica que o banco central de cada país participante perderá sua independência, incluindo a capacidade de definir a política monetária de acordo com as condições e prioridades nacionais.
Dados esses requisitos, é difícil acreditar que os dez membros do BRICS+ possam fazer os sacrifícios necessários para apoiar um rival real do dólar. Alguém consegue imaginar a Índia cedendo a independência do banco central para promover um novo bloco monetário que também inclui seu rival de longa data, a China?
E alguém consegue imaginar a Índia ou a China abrindo mão dos controles de capital? O renminbi chinês não é amplamente utilizado internacionalmente porque as autoridades chinesas sempre fizeram uma escolha consciente de não permitir que o capital fluísse livremente para dentro e fora da China.
Esses são, de fato, grandes obstáculos. Ainda assim, comecei a questionar meu próprio pensamento nos últimos meses, por alguns motivos. Primeiro, o próprio presidente chinês Xi Jinping manifestou interesse em que o renminbi tenha um papel mais importante como moeda de reserva global.
Segundo, vários líderes dos Brics+ deixaram clara sua oposição ao domínio persistente do dólar, e seus assessores econômicos com certeza sabem tanto de história e teoria monetária quanto eu.
Em terceiro lugar, há o efeito Trump. O atual presidente dos EUA tem travado uma guerra contra as próprias instituições que sustentam o domínio do dólar, a saber, por meio da realização de investigações criminais com motivação política contra membros do conselho do Federal Reserve americano.
O governo Trump também rejeitou abertamente o papel dos Estados Unidos como administrador e fornecedor de bens públicos globais. Em nome do “America First”, Donald Trump cedeu totalmente à sua obsessão por tarifas, e o dólar americano enfraqueceu de modo significativo como resultado.
O resto do mundo não está aceitando passivamente a agressão dos EUA. A maioria dos outros países – incluindo muitos aliados de longa data dos EUA – está buscando novos acordos comerciais entre si.
Nas últimas semanas, foram anunciados acordos importantes: Canadá e China, União Europeia e Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai), UE e Índia, entre outros. Os EUA ainda podem ser a maior economia do mundo, representando 25% do PIB global. Mas isso deixa 75% do PIB global ainda em jogo.
Em quarto lugar, estes desdobramentos recentes me levaram a questionar se é mesmo verdade que as principais moedas de reserva globais exigem fluxos de capital livres. Numa visão ampla da história, isso só tem sido verdade desde o colapso do sistema de Bretton Woods em 1971-73.
Além disso, o euro tem sido bem-sucedido como moeda de troca entre os países participantes. Se não foi totalmente internacionalizado, isso se deve em parte ao fato de que seu maior membro (a Alemanha) nunca quis desafiar diretamente o dólar e foi durante muito tempo relutante em permitir um mercado de obrigações verdadeiramente pan-eurozonal.
Dado o sucesso do euro, talvez seja viável para os membros dos Brics+ – especialmente os maiores – explorar uma moeda comum para uso na liquidação de transações comerciais entre si, mesmo que resistam à liberalização de suas contas de capital.
O processo seria sem dúvida complicado no início e presumivelmente exigiria uma cesta de moedas dos países participantes, pesada pelos respectivos PIBs. Porém, se isso fizesse parte de um processo mais amplo para buscar volumes maiores e mais livres de comércio intra-Brics+, poderia valer a pena o esforço.
Isso me leva a uma última reflexão. Defensores das stablecoins denominadas em dólares e outras moedas digitais afirmam que estas vão ampliar e aprofundar o domínio do dólar. Só que há um grande problema com este argumento: as mesmas tecnologias também facilitariam aos Brics+ o desenvolvimento de meios de pagamento alternativos para liquidar o comércio entre si.
Uma moeda Brics é viável ou ainda é uma fantasia? Vamos descobrir em breve
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