
Manifestação popular nascida do improviso e do anonimato se tornou uma das principais atrações do carnaval da cidade.
No Agreste de Pernambuco, a cerca de 110 quilômetros do Recife, o município de Bezerros mantém uma das manifestações mais tradicionais do carnaval nordestino, que são os papangus. Vestidos com máscaras coloridas e fantasias elaboradas, esses personagens transformam as ruas da cidade em um espaço de tradição cultural que atravessa gerações.
Os papangus representam uma expressão coletiva marcada por transformações sociais e históricas que transformaram Bezerros como um dos principais polos culturais do carnaval pernambucano. “O que torna o Carnaval de Bezerros forte é justamente essa essência do papangu, as pessoas saírem fantasiadas e essa cultura continuar viva”, afirma o jornalista e produtor de eventos Luiz Renato Silva.
A tradição dos papangus tem origem no início do século XX, associada principalmente às camadas populares da cidade. Os primeiros foliões utilizavam máscaras improvisadas e roupas velhas para circular pelas ruas sem serem reconhecidos.
A prática permitia que trabalhadores rurais, moradores humildes e pessoas socialmente marginalizadas participassem da festa de maneira anônima, rompendo barreiras sociais e normas de comportamento vigentes. A máscara era um meio de se libertar no período de festa.
“Como toda cultura forte, muitas vezes ela passa pela resistência. E o papangu foi exatamente isso. O supercentenário papangu passou por momentos difíceis, de rejeição e preconceito, muito diferentes do que vemos hoje. Com o tempo, essa resistência fez com que a manifestação deixasse de ser vista como algo marginal para se tornar motivo de orgulho. Passou de algo rejeitado pela sociedade para algo valorizado. Hoje é bonito sair de papangu, é algo pomposo. Faz parte do glamour do carnaval”, explica Luiz Renato.
O próprio termo “papangu” possui origem popular e está associado ao ato de comer ou beber excessivamente, além de remeter ao comportamento brincalhão dos mascarados durante a folia.
Inicialmente, as fantasias eram confeccionadas com materiais simples, como sacos, retalhos de tecido, papelão e folhas de plantas. Com o tempo, a prática evoluiu para a produção artesanal de máscaras cada vez mais elaboradas.
O elemento mais característico do papangu é a máscara, geralmente feita de papel machê ou fibra, com feições exageradas, cores vibrantes e expressões caricatas. Ao vestir a máscara, o folião assume um personagem coletivo, diluindo sua identidade pessoal em uma expressão cultural junto com outras pessoas. O anonimato possibilita brincadeiras com o público e uma relação direta com a tradição popular.
A produção das máscaras tornou-se uma atividade econômica e cultural importante em Bezerros. Artesãos locais desenvolveram técnicas próprias, transmitidas entre gerações, contribuindo para a preservação do saber tradicional e para a movimentação econômica durante o período carnavalesco.
Patrimônio cultural
Ao longo do século XX, a tradição dos papangus passou por um processo de institucionalização. O crescimento da festa atraiu visitantes, pesquisadores e políticas públicas de valorização cultural, tornando o carnaval de Bezerros um evento de destaque no calendário turístico de Pernambuco.
Hoje, o chamado “Carnaval do Papangu” reúne milhares de foliões e visitantes todos os anos. O evento inclui desfiles de mascarados, concursos de fantasias, apresentações culturais e exposições dedicadas à história da manifestação. A cidade também abriga o Centro Cultural Casa do Papangu, espaço dedicado à preservação da memória e à difusão da tradição, com acervo de máscaras, registros históricos e atividades educativas.
Apesar das mudanças sociais e da crescente profissionalização do evento, a essência da manifestação permanece ligada à participação popular e ao espírito coletivo.
Atualmente existem produções artesanais sofisticadas e criações contemporâneas que trazem debates sobre temas atuais. A diversidade de personagens ampliou o repertório visual da festa, mas mantém o princípio central da transformação identitária por meio da máscara.
“Durante o ano todo a gente vê papangu na cidade, em apresentações culturais e eventos. Porém, obviamente, no período carnavalesco isso é muito mais forte. A economia do município não gira apenas em torno do papangu, mas também através dele. Muitos mascarados e artesãos vivem o ano inteiro produzindo e vendendo máscaras, seja em feiras e eventos culturais”, explica Luiz Renato.
A manifestação reúne elementos históricos, sociais e artísticos que refletem a criatividade popular e a capacidade de reinvenção das tradições.
Os papangus trazem à tona aspectos da cultura carnavalesca brasileira, como a suspensão temporária das hierarquias sociais, a valorização da liberdade e a celebração da diversidade cultural.
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