Sexta, 06 de Março de 2026
31°

Tempo nublado

Caruaru, PE

Negócios Negócios

Brics e outros emergentes: O mundo multipolar que o Ocidente não pode ignorar

Brics e outros emergentes: O mundo multipolar que o Ocidente não pode ignorar

12/01/2026 às 10h25
Por: Redação Fonte: Infomoney
Compartilhe:
Brics e outros emergentes: O mundo multipolar que o Ocidente não pode ignorar

Brics e outros emergentes: O mundo multipolar que o Ocidente não pode ignorar.

 

O Ocidente deve investir na compreensão das economias políticas e das motivações das potências emergentes.

LONDRES – O lançamento da Estratégia de Segurança Nacional do governo Trump marca um momento crucial para os Estados Unidos e o Ocidente. Os EUA reformularam seu papel global em torno de um conjunto mais restrito de prioridades centrais, enfatizando a revitalização industrial, cadeias de abastecimento resilientes e concorrência estratégica, ao mesmo tempo em que sinalizam que os aliados tradicionais devem assumir maior responsabilidade pela sua própria segurança e sorte econômica.

Continua após a publicidade
Anúncio

Ao mesmo tempo, a União Europeia está avançando com propostas de política industrial – como a exigência de que bens críticos contenham até 70% de conteúdo proveniente da UE – que refletem uma ansiedade profunda em relação à dependência, vulnerabilidade e perda de controle. Mas é necessária uma reflexão mais fundamental, tanto na Europa como no Reino Unido.

A era do domínio estratégico ocidental chegou ao fim. Cadeias de abastecimento antes tratadas como ativos comerciais neutros são agora instrumentos de poder, e decisões sobre tecnologia, comércio e investimento tornaram-se inseparáveis das questões de segurança nacional, estabilidade social e custo de vida. Contudo, muitas vezes, as políticas ocidentais oscilam entre posturas morais e intervenções defensivas, em vez de promover uma estratégia coerente no longo prazo.

Continua após a publicidade
Anúncio

A visão do mundo imediatamente após a Guerra Fria tratava o domínio econômico do Ocidente como sinal de que todos os países convergiriam para o seu modelo liberal. Isso se mostrou incorreto. O que enfrentamos hoje não é perturbação passageira, mas transformação estrutural: uma mudança de um sistema amplamente unipolar para um conjunto de acordos mais fragmentado, contestado e multipolar.

Neste ambiente, a questão central para o Ocidente não é como restaurar uma ordem em declínio, mas como operar de forma viável e responsável num sistema em que a influência deve ser partilhada.

Este desafio é perfeitamente ilustrado pela ascensão dos Brics (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), que recentemente adicionaram Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã.

Embora muitas vezes descartado como um contrapeso meramente simbólico ao G7, o grupo Brics+ reflete uma realidade material mais profunda. Seus membros representam uma parcela crescente da população global, da produção econômica, da produção e dos recursos naturais.

Além disso, os dois maiores membros, China e Índia, estão longe de ser participantes periféricos no sistema internacional. Eles estão no centro da economia mundial em mudança, com suas cadeias de abastecimento, ecossistemas tecnológicos e fontes de energia em evolução.

O domínio da China no processamento de terras raras e sua liderança em energias renováveis sublinham os limites de qualquer estratégia ocidental baseada na exclusão.

Até agora, as respostas ocidentais ao crescimento da China continuam a ser em grande parte reativas, com a “redução do risco” servindo de princípio organizador. Porém, embora o impulso seja compreensível, a gestão de risco não é uma grande estratégia.

Uma abordagem mais eficaz começaria com uma reavaliação honesta dos interesses. Para o Reino Unido, a UE e os EUA, isso significa ir além dos debates abstratos (muitos enquadrados como “valores versus pragmatismo”) para enfrentar as compensações reais que moldam a formulação de políticas econômicas.

As preocupações com dependência e segurança devem ser equilibradas com preocupações com acessibilidade, sustentabilidade das medidas de redução de riscos e coesão social interna.

As empresas europeias muitas vezes lidam com essas tensões de modo pragmático, adquirindo tecnologia onde quer que ela seja mais competitiva. Por exemplo, para se manter viável, a Deutsche Bahn, operadora ferroviária estatal da Alemanha, adquiriu uma pequena parte (cerca de 5%) de sua nova frota de veículos elétricos do fabricante chinês BYD. Mas mesmo essa decisão gerou críticas dos sindicatos.

Essas tensões não podem ser ignoradas, só administradas. Os países ocidentais precisam de priorização disciplinada, não de pureza doutrinária. Princípios fundamentais, como estado de direito, soberania nacional e direitos humanos, ainda devem estabelecer limites claros ao envolvimento, mas não podem substituir a estratégia.

A cooperação com Estados que operam sob diferentes sistemas políticos é inevitável em áreas que vão desde mudanças climáticas e padrões tecnológicos até finanças e desenvolvimento global. Fingir o contrário só reduz a margem de manobra do Ocidente.

Sinais morais sem um plano confiável para conciliar valores com dependência material acabam minando tanto a credibilidade no exterior quanto o consentimento interno.

A tarefa à frente não é contenção nem desvinculação, mas envolvimento seletivo guiado por interesses definidos de forma clara. As preocupações com a segurança exigem limites e salvaguardas, mas não justificam o rompimento das relações.

Num sistema multipolar, a influência é exercida não só por meio de restrições, mas também por meio da participação, da definição de agendas e da capacidade de moldar regras onde os interesses se sobrepõem.

À medida que surgem novas formas de multilateralismo, o Ocidente deve investir muito mais na compreensão das economias políticas e das motivações estratégicas das potências emergentes. Isso requer ir além das narrativas baseadas no medo e desenvolver mais capacidade analítica e competências relevantes para as políticas.

Se os governos ocidentais continuarem respondendo de forma fragmentada — reagindo a cada choque à medida que ele ocorre —, perderão a capacidade de moldar resultados e tendências globais.

A era multipolar exige uma mudança de mentalidade. A escolha para o Ocidente não é se ele deve partilhar o poder, mas sim se deve moldar a forma como essa partilha ocorre. A alternativa é uma postura reativa que aumenta os custos internos e gradualmente corrói a influência no exterior.

Tradução por Fabrício Calado Moreira

Gemma Cheng’er Deng é pesquisadora de doutorado no King’s College London e coautora (com Kerry Brown) de China Through European Eyes: 800 Years Of Cultural And Intellectual Encounter (“China pelos olhos da Europa: 800 anos de um encontro cultural e intelectual”, em tradução livre do inglês) (World Scientific Publishing Europe, 2022). Jim O’Neill é ex-ministro do Tesouro do Reino Unido e ex-presidente da Goldman Sachs Asset Management.

Direitos autorais: Project Syndicate, 2025. www.project-syndicate.org

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.