
Na nova economia global, os EUA terão perdido a sua liderança, enquanto o país está à mercê de um presidente desequilibrado.
NOVA YORK – Tornou-se quase rotineiro terminar cada ano falando da “policrise” e reconhecendo a dificuldade de antecipar um futuro que parece carregado do risco de novas guerras, pandemias, crises financeiras e devastação provocada pelo clima. No entanto, 2025 adicionou um ingrediente singularmente tóxico a este conjunto: o regresso de Donald Trump à Casa Branca, cujas políticas erráticas e ilegais já desestabilizaram a era de globalização do pós-guerra. Perante tamanha confusão e incerteza, será que podemos afirmar com confiança algo sobre o rumo que as economias dos EUA e mundial estão tomando?
Uma coisa que podemos dizer é que a economia dos EUA não está tendo o bom desempenho que Trump, o eterno vigarista, nos quer fazer crer. A criação de emprego está praticamente estagnada, o que não é de surpreender, uma vez que Trump tem semeado incerteza e enfraquecido a economia de formas sem precedentes.
Do lado da oferta, a sua política mais perniciosa tem sido o ataque frontal aos trabalhadores imigrantes (e aos trabalhadores americanos com tez mais escura, em termos mais gerais).
As deportações em massa da administração – levadas a cabo por agentes mascarados do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE, na sigla em inglês) que detêm pessoas nas ruas – eliminaram a principal fonte adicional de mão de obra numa altura em que a força de trabalho nacional está diminuindo.
Isto afeta a todos, porque não só os americanos dependem dos imigrantes em setores que vão desde a agricultura e a construção civil até o turismo e prestação de cuidados, como também esses imigrantes são fonte de procura.
No entanto, atualmente, muitas pessoas não brancas que vivem nos EUA – inclusive cidadãos dos EUA – têm medo de sair de casa, receando ser detidas e brutalizadas pelo ICE.
Os efeitos negativos dos cortes indiscriminados de Trump no setor público também se disseminaram por toda a economia. Há efeitos multiplicadores nas contrações governamentais, tal como nas expansões, e, no contexto atual, os custos foram amplificados pela natureza errática do processo.
A abordagem incompetente e desastrada da administração semeou ainda mais incerteza e fez com que empresas e consumidores adotassem comportamentos de precaução.
As tarifas de Trump – impostas ou ameaçadas – e outras políticas intermitentes devem ser reconhecidas pelo que são: um grande choque do lado da oferta para a economia. Acrescentaram, inutilmente, incerteza aos custos de produção e aos preços que os consumidores pagam, impossibilitando as empresas de se envolverem num planeamento sério a longo prazo.
E esses são apenas efeitos a curto prazo. As perspetivas da economia dos EUA a longo prazo parecem ainda mais sombrias, tudo graças a Trump. Afinal, a vantagem comparativa dos EUA sempre se baseou na tecnologia e no ensino superior sem restrições.
Ao atacar a pesquisa e ao tentar privar as universidades de financiamento federal, a menos que se submetam às suas exigências, Trump está dando um tiro no pé da economia americana.
Tal como vários prémios Nobel da Economia têm sublinhado, a “riqueza das nações” reside nas instituições, sobretudo no Estado de direito. Mas Trump está atropelando o Estado de direito e substituindo-o por um regime extorsivo de negociação de favores (e autofavorecimento), em que os benefícios públicos (como licenças de exportação para a Nvidia ou subsídios para a Intel) são concedidos em troca de participações nos lucros futuros da empresa.
É claro que, com o tempo, os alvos de extorsão de Trump irão diminuir. Tendo percebido o perigo de depender dos Estados Unidos, muitos países já estão procurando novos acordos comerciais.
Por que razão, então, o PIB continua a crescer (embora não tão robustamente como no tempo do presidente Joe Biden), com o mercado acionista a atingir novas máximas e a inflação mantendo-se abaixo dos níveis que os críticos tinham alertado?
Há várias explicações para essa aparente força. No que diz respeito ao mercado acionista, o boom é, na realidade, muito reduzido, concentrado sobretudo num pequeno grupo de gigantes tecnológicos: Alphabet, Amazon, Apple, Meta, Microsoft, Nvidia e Tesla.
E, no entanto, as avaliações dessas empresas refletem expectativas de lucros de monopólio a longo prazo que podem nunca se materializar. (Isto é particularmente verdade no caso da Tesla, devido ao fato de Elon Musk apoiar Trump, o que afastou muitos consumidores).
Eu próprio estou entre os muitos analistas que veem as avaliações atuais como o produto de uma bolha, uma bolha que tem sustentado não só o mercado acionista, mas toda a economia.
Os enormes investimentos em IA têm compensado a debilidade do resto da economia. Mas, como todas as bolhas, esta acabará por arrebentar. Ninguém sabe ao certo quando, mas com uma fatia tão grande da economia dependente de um setor, o colapso será inevitavelmente sentido de forma generalizada.
Pior ainda, se a IA tiver o sucesso que os seus defensores antecipam, isso será um prenúncio de outros problemas graves, porque então a tecnologia irá provavelmente substituir muitos trabalhadores e causar uma desigualdade ainda maior.
Se somarmos a isso a redução do Estado exigida pelos pseudolibertários tecnológicos do Vale do Silício, resta-nos questionar o que poderá sustentar a economia dos EUA nos próximos anos.
No que diz respeito à inflação, há uma explicação simples para o fato de ainda não ter subido de forma acentuada. Para começar, as tarifas de Trump, em geral, não têm sido tão elevadas como ele inicialmente ameaçou (embora a tarifa punitiva de 50% imposta à Índia, um país que os EUA tratavam como amigo antes do regresso de Trump, seja chocantemente brutal).
Além disso, os efeitos das tarifas manifestam-se muitas vezes com longas defasagens temporais. Muitas empresas evitaram aumentar os preços até verem o que os seus concorrentes fariam, e algumas não irão aumentar os preços enquanto não esgotarem os estoques dos bens adquiridos antes da implementação das tarifas.
Mas, se as tarifas que Trump ameaçou aplicar à China fossem realmente impostas, a situação seria diferente. Na verdade, o desmantelamento das cadeias de abastecimento poderia desencadear aumentos de preços superiores aos das próprias tarifas.
Isto leva-me à questão fundamental: Que país se sujeitaria voluntariamente aos caprichos de um rei louco? Não é como se os EUA tivessem um controle absoluto sobre o fornecimento de minerais críticos ou de terras raras, sem os quais a era industrial moderna se desmoronaria.
Não é como se não existissem mercados noutros locais. A lei da oferta e da procura funciona bem, com ou sem os EUA.
Tal como Adam Smith e David Ricardo nos ensinaram, o crescimento econômico consiste em aproveitar as vantagens comparativas e as economias de escala. Mas, como Trump (e o presidente russo Vladimir Putin) nos ensinaram, depender de parceiros comerciais pouco fiáveis pode ser extremamente desvantajoso.
Além disso, os EUA já não são tão importantes como eram. Atualmente, representam menos de 10% das exportações mundiais. Embora os lucros de algumas empresas sofram numa economia global pós-americana, outras se beneficiarão. Enquanto alguns trabalhadores terão de encontrar empregos alternativos, outros encontrarão uma nova demanda pelas suas competências.
É certo que o curto prazo não será fácil. Mas, na nova economia global que emergirá a longo prazo, os EUA terão perdido a sua hegemonia. É para aí que nos dirigimos, à medida que entrarmos no segundo ano de vida à mercê dos caprichos de um presidente desequilibrado.
A transição já começou e, embora o crescimento global vá sofrer, a dor poderá ser menor do que muitos temem. Na Europa, por exemplo, os investimentos em rearmamento – outro subproduto das políticas autodestrutivas de Trump – darão um impulso significativo.
Talvez o momento decisivo chegue com as eleições legislativas e de governadores em 2026 nos EUA, em novembro. Eleições que não sejam tão livres e justas como seria de esperar numa democracia genuína (como muitos receiam) marcariam um ponto de virada sombrio.
Mas, se a crescente insatisfação com a gestão econômica de Trump e o deslizamento do país para o autoritarismo resultarem na recuperação, por parte dos democratas, de pelo menos uma das Casas do Congresso, isso será um ponto de virada na direção oposta. Em qualquer dos casos, os EUA e o mundo continuarão a enfrentar pelo menos mais dois anos de incompetência econômica e incerteza.
Joseph E. Stiglitz, laureado com o Prêmio Nobel de Economia, é ex-economista-chefe do Banco Mundial, ex-presidente do Conselho de Assessores Econômicos do presidente dos EUA, professor na Universidade de Columbia e autor, mais recentemente, de The Road to Freedom: Economics and the Good Society (W. W. Norton & Company, Allen Lane, 2024).
Copyright: Project Syndicate, 2025
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