
Novas restrições de exportação da China atingiram em cheio a indústria ocidental, e governo americano e empresas se mexem para mudar situação.
Os Estados Unidos sabem há anos que sua economia depende de materiais que não consegue controlar. Os metais de terras raras que alimentam os caças F-35, veículos elétricos e iPhones vêm, em sua maioria, de um único lugar: a China.
Agora, após anos de alertas, essa dependência deixou de ser uma vulnerabilidade abstrata para se tornar uma questão central no comércio global. Um acordo entre o presidente Donald Trump e o presidente chinês Xi Jinping no início deste mês afastou os EUA da beira do pânico — ao menos por enquanto —, mas a vulnerabilidade de longo prazo da cadeia de suprimentos permanece.
As regras planejadas por Pequim, com entrada em vigor em 1º de dezembro, exigiriam uma licença para qualquer empresa em qualquer lugar do mundo exportando até mesmo quantidades mínimas de materiais de terras raras originados na China. Analistas alertaram que a aplicação desses controles poderia desacelerar ou paralisar a produção em indústrias inteiras, impactando especialmente o setor automotivo.
O acordo compra um pouco de tempo para os EUA — cerca de um ano — para lidar com os minerais de terras raras. Mas especialistas dizem que ele não corrige a raiz do problema que colocou os EUA nessa posição em primeiro lugar: décadas de excesso de cautela e subfinanciamento.
Peter Harrell, pesquisador da Escola de Direito de Georgetown e ex-alto funcionário da Casa Branca e do Departamento de Estado que assessorou as administrações Trump e Biden sobre segurança da cadeia de suprimentos, disse que as vulnerabilidades eram bem conhecidas em Washington muito antes da crise atual.
“Este não é um problema novo”, disse ele em uma entrevista à Fortune.
Para muitos formuladores de políticas, acrescentou Harrell, a primeira vez que a lacuna começou a chamar atenção foi em 2011, quando a China cortou exportações de terras raras ao Japão durante uma disputa marítima.
Esse incidente — às vezes chamado de “exemplo clássico” de como o comércio pode ser transformado em arma em conflitos geopolíticos — assustou o Japão a ponto de reduzir sua dependência das exportações chinesas de terras raras de 90% para 60%.
Esse episódio, afirmou, desencadeou “uma onda de atividade” no Pentágono e entre aliados dos EUA. Os esforços iniciais da administração Obama foram principalmente diagnósticos; o primeiro mandato de Trump financiou alguns projetos piloto de mineração e processamento; o mandato de Biden adicionou uma camada diplomática por meio da Minerals Security Partnership, uma aliança liderada pelos EUA com cerca de uma dúzia de países para garantir cadeias globais de suprimentos de minerais críticos.
Mas, coletivamente, argumentou Harrell, esses esforços fracassaram porque “é difícil fazer o governo se concentrar em problemas que não são urgentes, levam anos para resolver e custam dinheiro de verdade.” Por um tempo, a ameaça parecia teórica — até agora.
A ex-funcionária do USTR (departamento de comércio exterior dos EUA) e do Departamento do Tesouro Emily Kilcrease, atualmente pesquisadora do think tank Center for a New American Security, concordou que a falha de Washington não se deveu à ignorância, mas sim à fé equivocada no mercado livre.
“O mercado privado de terras raras não vai nos fornecer o que precisamos”, disse ela. “Ele é dominado pela China. As empresas não conseguem competir apenas no preço.”
O sistema chinês, dirigido pelo Estado — impulsionado por subsídios, regras ambientais frouxas e uma política industrial agressiva — destruiu seus concorrentes. As terras raras há muito dão a Pequim uma influência global desproporcional apesar de exigirem um investimento financeiro relativamente pequeno.
A indústria gera cerca de US$ 50 bilhões por ano — um número citado por Ahmad Ghahreman, CEO da Cyclic Materials —, mas sustenta setores de múltiplos trilhões de dólares, incluindo defesa, veículos elétricos, energia renovável e eletrônicos de consumo.
Ao subsidiar pesadamente o refino e a produção de ímãs ao longo das décadas de 1990 e 2000, Pequim garantiu um quase monopólio da produção global, disse Ghahreman à Fortune. Hoje, a China responde por cerca de 70% da mineração de terras raras e quase 90% da capacidade de processamento, segundo o Serviço Geológico dos EUA e dados de comércio da OCDE.
Essa dominância permite que a China use restrições de exportação como ferramenta geopolítica a baixo custo econômico para si — mas com enorme potencial de disrupção no exterior — uma dinâmica que, como colocou Kilcrease, transformou as terras raras em “um gargalo” das cadeias de suprimentos mais avançadas do mundo.
A China, porém, sempre havia “agido com moderação” ao explorar esse gargalo, afirmou Kilcrease.
Isso mudou este ano. As novas restrições de exportação da China atingiram o coração da manufatura ocidental justamente quando cresce a demanda por motores de veículos elétricos e hardware de data centers. Em Washington, a resposta tem sido uma corrida para projetar uma política industrial para uma cadeia de suprimentos que praticamente não existe.
A medida mais ambiciosa até agora é o acordo de US$ 8,5 bilhões entre EUA e Austrália sobre terras raras, apoiado pelo Departamento de Defesa americano e pelo Banco de Exportação e Importação. O pacto combina empréstimos, subsídios e garantias de compra para manter produtores aliados ativos mesmo se Pequim inundar o mercado para derrubar os preços.
Ainda assim, especialistas dizem que o acordo mal arranha o problema. Para começar, o acordo cobre principalmente neodímio e praseodímio, que são apenas dois dos 17 elementos de terras raras.
“Existem uma dúzia de outras terras raras e outras 20 matérias-primas críticas que precisam da mesma atenção”, alertou Harrell. “É preciso manter o foco no conjunto inteiro, não apenas em alguns deles.”
Além disso, embora a Austrália possua a quarta maior reserva mundial, com 5,7 milhões de toneladas equivalentes de óxidos de terras raras, sua indústria é insignificante comparada às 44 milhões da China.
Para Kilcrease, o acordo faz parte de uma mudança maior: o fim da fé de Washington nos mercados como solução automática e o reconhecimento de que o Estado precisa ter papel mais direto.
Ela disse que a mudança se encaixa em um padrão mais amplo de “uma política industrial mais musculosa,” apontando para investimentos de capital recentes do governo em empresas como Intel e U.S. Steel.
“Tudo isso faz parte da mesma tendência”, disse Kilcrease. “O governo está se envolvendo mais para garantir que tenhamos um suprimento confiável de materiais que mantêm nossa economia funcionando.”
Dentro de Washington, o processo de formulação de políticas também mudou.
“O processo interagências sob o segundo governo Trump é fundamentalmente diferente de tudo que já vimos”, disse Kilcrease.
Ela descreveu uma Casa Branca que não espera mais por propostas técnicas: “É o presidente sentado com o secretário do Tesouro ou o secretário do Comércio para descobrir como montar o acordo comercial e governamental que resolve o problema.”
Enquanto Washington ajusta essa nova abordagem, a indústria tenta preencher a lacuna por conta própria, disse Ghahreman.
“Nós fundamos a Cyclic Materials porque sabíamos que isso estava chegando”, afirmou. “Eu estava trabalhando em um estudo para o governo do Canadá sobre depósitos de terras raras e concluí que precisávamos de um negócio cuja receita não dependesse inteiramente da mineração.”
A empresa de Ghahreman extrai ímãs e metais de produtos usados como bicicletas elétricas, ferramentas elétricas e motores.
“Em nossa primeira instalação no Arizona, vamos processar cerca de 25.000 toneladas de produtos em fim de vida por ano”, disse ele. “Isso produz cerca de 750 toneladas de material magnético por ano, que segue para nossa segunda tecnologia, onde produzimos óxidos de terras raras e hidróxido de níquel-cobalto.”
A unidade do Arizona e uma instalação complementar em Kingston, Ontário, devem iniciar operação comercial total no primeiro semestre do próximo ano.
A reciclagem, afirmou, não elimina a necessidade de mineração, mas reduz a pressão sobre o sistema.
“Ambos precisam coexistir se quisermos de fato descarbonizar o planeta”, disse Ghahreman. “A reciclagem usa 5% da água que a mineração consome e cerca de um terço da pegada de carbono.”
Os elementos pesados de terras raras, acrescentou, continuam sendo os mais críticos: “Hoje, 99% dos elementos pesados de terras raras são minerados e fornecidos pela China. As únicas fontes realistas fora da China são novas minas e reciclagem.”
Os elementos pesados mais comuns — disprósio, térbio e ítrio — são usados nos ímãs de alta resistência que impulsionam motores de veículos elétricos e tecnologia militar.
Na visão de Ghahreman, “o apoio governamental pelos próximos cinco a dez anos será crítico” se os EUA e seus aliados quiserem competir.
Por enquanto, esse apoio chega devagar. Harrell disse que o acordo EUA–Austrália e contratos menores do Pentágono com mineradoras como a MP Minerals são um começo, mas alertou que “a questão será: conseguiremos manter esse nível de atenção e recursos para realmente resolver o problema? Ou, daqui a seis meses ou um ano, já teremos mudado para outra crise?”
Ghahreman expressou um alerta semelhante. Ele disse que o padrão da China de reforçar os controles de exportação — desde restrições de equipamentos em 2023 até sua expansão este ano — mostra o quão rápido o cenário está mudando.
“Você pode ligar os pontos e projetá-los para o futuro”, afirmou. “A velocidade de execução e trazer toda a cadeia de suprimentos para os EUA e países aliados será importante.”
Se os EUA quiserem encerrar sua dependência da China, ele disse, terão de agir mais rápido do que jamais fizeram.
“Estamos apenas começando”, disse Ghahreman. “Mas não temos tempo a perder.”
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