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Pesquisa indica nascimento de novos neurônios em adultos

Pesquisa indica nascimento de novos neurônios em adultos

09/07/2025 às 19h52
Por: Redação Fonte: Agência O Antagonista
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Pesquisa indica nascimento de novos neurônios em adultos

Pesquisa indica nascimento de novos neurônios em adultos.

 

Ao contrário do que se acreditava, novos estudos têm corroborado a tese da neurogênese em cérebros adultos.

Embora saibamos que, quando se trata de ciência, poucas descobertas ganham certidão de incontestáveis, isso não significa que não possamos chegar perto de determinadas conclusões. Uma delas é animadora: pelo jeito, a depender de pesquisas recentes, envelhecer não é sinônimo (neuronal) de emburrecer.

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Um novo estudo, que utiliza inteligência artificial e análise genética avançada, apresenta evidências bastante consistentes de que o cérebro humano adulto é capaz de gerar novos neurônios, resultado de um processo conhecido como neurogênese.

Publicada na revista Science, a pesquisa identificou células com a assinatura genética de progenitores neurais no hipocampo, a região cerebral crucial para a memória e o aprendizado. Essa descoberta pode dar fim a um debate que intrigou neurocientistas por mais de um século, mudando a compreensão sobre a plasticidade cerebral ao longo da vida.

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O fim de um velho paradigma

 

Por décadas, a tese dominante, proposta já no início do século XX por Santiago Ramón y Cajal, era que as células cerebrais eram “fixas, terminadas e imutáveis” após o nascimento. Acreditava-se que a formação de novos neurônios se restringia à infância. Depois disso, meus leitores, só ladeira abaixo.

Mas parece que não é bem assim. A partir da década de 1990, diversas pesquisas começaram a contestar essa noção. Jonas Frisén, do Karolinska Institute, publicou em 2013 evidências de que neurônios eram gerados na idade adulta. Como era bom demais pra ser verdade, e é mesmo o papel dos cientistas continuar a fuçar até provar a veracidade ou falsidade de uma tese, o debate continuou aberto e os estudos prosseguiram.

A equipe de Frisén se meteu na confusão com novas ferramentas. Conforme explica Annika Inampudi, eles aplicaram aprendizado de máquina (tudo agora é “aprendizado de máquina”) para caracterizar a atividade genética de neurônios jovens em cérebros de roedores adultos. Em seguida, procuraram por padrões genéticos semelhantes em dados de sequenciamento de RNA de células únicas de tecido humano pós-morte.

O grande avanço do trabalho, segundo o neurocientista Hongjun Song, da Universidade da Pensilvânia, foi a capacidade de isolar e identificar as raras células progenitoras neurais, que são precursoras dos neurônios imaturos. De aproximadamente 300 mil neurônios do hipocampo humano analisados, o algoritmo da equipe identificou 354 como células progenitoras.

Evgenia Salta, do Netherlands Institute for Neuroscience, que estuda a neurogênese, afirma que o estudo oferece uma “prova conceitual” de que novos neurônios nascem no hipocampo adulto, mesmo na velhice. Gerd Kempermann, da Universidade de Tecnologia de Dresden, acredita que, à luz das evidências atuais, “o debate está encerrado”. Cachorro velho aprende, sim, truque novo.

 

Entendendo as nuances e os rumos da pesquisa

 

Mas nem tudo são sinapses. Ainda que a nova pesquisa indique que a neurogênese ocorre, o processo é mais lento do que em um cérebro em desenvolvimento, e varia consideravelmente entre os indivíduos. Conforme apontado por Salta, cérebros mais jovens geralmente apresentavam mais progenitores neurais, e tecidos de cinco dos quatorze adultos estudados não mostraram progenitores discerníveis. A taxa de crescimento neural em adultos parece ser baixa; trabalhos anteriores de Frisén estimaram a formação de cerca de 700 novos neurônios por dia, o que representa menos de 0,03% dos neurônios no hipocampo adulto.

Nem todos estão totalmente convencidos. Shawn Sorrells, neurocientista da Universidade de Pittsburgh, considera os métodos do novo estudo “bastante indiretos”, e sugere que o algoritmo de aprendizado de máquina pode ter sido treinado para identificar progenitores de células não-neuronais, as glias, ou que as células identificadas podem ser “ruído”. No entanto, Ionut Dumitru, pesquisador de pós-doutorado no Karolinska Institute e autor principal do artigo, rebate essa crítica, afirmando que as células progenitoras usadas como referência expressavam genes característicos de neurônios, não de glia.

A equipe de Frisén espera agora direcionar sua pesquisa para entender como a neurogênese contribui para o aprendizado e a memória na vida adulta. Hongjun Song destaca que a “próxima fronteira” é investigar se as diferenças na taxa de neurogênese no hipocampo estão ligadas a condições como o declínio cognitivo observado na doença de Alzheimer, o que poderia abrir caminho para potenciais terapias. Frisén expressa a esperança de que esta pesquisa promova a unificação no campo científico, superando a longa controvérsia.

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