Publicada na revista Science, a pesquisa identificou células com a assinatura genética de progenitores neurais no hipocampo, a região cerebral crucial para a memória e o aprendizado. Essa descoberta pode dar fim a um debate que intrigou neurocientistas por mais de um século, mudando a compreensão sobre a plasticidade cerebral ao longo da vida.
O fim de um velho paradigma
Por décadas, a tese dominante, proposta já no início do século XX por Santiago Ramón y Cajal, era que as células cerebrais eram “fixas, terminadas e imutáveis” após o nascimento. Acreditava-se que a formação de novos neurônios se restringia à infância. Depois disso, meus leitores, só ladeira abaixo.
Mas parece que não é bem assim. A partir da década de 1990, diversas pesquisas começaram a contestar essa noção. Jonas Frisén, do Karolinska Institute, publicou em 2013 evidências de que neurônios eram gerados na idade adulta. Como era bom demais pra ser verdade, e é mesmo o papel dos cientistas continuar a fuçar até provar a veracidade ou falsidade de uma tese, o debate continuou aberto e os estudos prosseguiram.
A equipe de Frisén se meteu na confusão com novas ferramentas. Conforme explica Annika Inampudi, eles aplicaram aprendizado de máquina (tudo agora é “aprendizado de máquina”) para caracterizar a atividade genética de neurônios jovens em cérebros de roedores adultos. Em seguida, procuraram por padrões genéticos semelhantes em dados de sequenciamento de RNA de células únicas de tecido humano pós-morte.
O grande avanço do trabalho, segundo o neurocientista Hongjun Song, da Universidade da Pensilvânia, foi a capacidade de isolar e identificar as raras células progenitoras neurais, que são precursoras dos neurônios imaturos. De aproximadamente 300 mil neurônios do hipocampo humano analisados, o algoritmo da equipe identificou 354 como células progenitoras.
Evgenia Salta, do Netherlands Institute for Neuroscience, que estuda a neurogênese, afirma que o estudo oferece uma “prova conceitual” de que novos neurônios nascem no hipocampo adulto, mesmo na velhice. Gerd Kempermann, da Universidade de Tecnologia de Dresden, acredita que, à luz das evidências atuais, “o debate está encerrado”. Cachorro velho aprende, sim, truque novo.
Entendendo as nuances e os rumos da pesquisa
Mas nem tudo são sinapses. Ainda que a nova pesquisa indique que a neurogênese ocorre, o processo é mais lento do que em um cérebro em desenvolvimento, e varia consideravelmente entre os indivíduos. Conforme apontado por Salta, cérebros mais jovens geralmente apresentavam mais progenitores neurais, e tecidos de cinco dos quatorze adultos estudados não mostraram progenitores discerníveis. A taxa de crescimento neural em adultos parece ser baixa; trabalhos anteriores de Frisén estimaram a formação de cerca de 700 novos neurônios por dia, o que representa menos de 0,03% dos neurônios no hipocampo adulto.
Nem todos estão totalmente convencidos. Shawn Sorrells, neurocientista da Universidade de Pittsburgh, considera os métodos do novo estudo “bastante indiretos”, e sugere que o algoritmo de aprendizado de máquina pode ter sido treinado para identificar progenitores de células não-neuronais, as glias, ou que as células identificadas podem ser “ruído”. No entanto, Ionut Dumitru, pesquisador de pós-doutorado no Karolinska Institute e autor principal do artigo, rebate essa crítica, afirmando que as células progenitoras usadas como referência expressavam genes característicos de neurônios, não de glia.
A equipe de Frisén espera agora direcionar sua pesquisa para entender como a neurogênese contribui para o aprendizado e a memória na vida adulta. Hongjun Song destaca que a “próxima fronteira” é investigar se as diferenças na taxa de neurogênese no hipocampo estão ligadas a condições como o declínio cognitivo observado na doença de Alzheimer, o que poderia abrir caminho para potenciais terapias. Frisén expressa a esperança de que esta pesquisa promova a unificação no campo científico, superando a longa controvérsia.
