
A independência apenas no século XX levou o país a se apegar à visão romântica dos guerreiros como demonstração de força.
A Noruega entra em campo neste domingo (5) para disputar com o Brasil uma vaga nas quartas de final da Copa do Mundo. Fora do gramado, milhares de torcedores noruegueses vão empurrar sua seleção com um gesto que se popularizou durante a melhor campanha do país em Mundiais: a “remada viking”.
Multidões vestidas de vermelho nas arquibancadas têm reproduzido uma coreografia que remete ao ideal heroico atribuído às populações escandinavas entre os séculos VIII e XI. A simbologia associada ao “guerreiro viking”, no entanto, parte de uma “filtragem histórica” e compõe um elemento importante na criação de uma identidade nacional norueguesa.
Quem explica é o professor da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) Johnni Langer. “Até o século XIX, a Noruega não era completamente independente, ao contrário de Dinamarca e Suécia. Esse heroísmo viking teve uma importância maior para o país no sentido de tentar criar uma identidade moderna enquanto nação”, afirma.
Em alguma medida, os três países adotaram a mesma abordagem de exaltação ao tratar a Era Viking, impulsionada pela caracterização feita por autores e pintores românticos do século XIX. “Praticamente todas as nações, naquela época, queriam ser vistas pelas outras como militarmente poderosas, por uma questão de política internacional”, diz Langer, coordenador do Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos (Neve), na UFPB.
Foi daí que surgiu a imagem do enorme guerreiro viking, armado e com um elmo de chifres, em busca de saques. Esse estereótipo teve importância ainda maior para a formação da identidade norueguesa, já que o país esteve incorporado ao reino da Dinamarca até 1814 e, depois, permaneceu atrelado ao reino da Suécia até 1905 — os três formam a região do Norte da Europa conhecida como Escandinávia.
Faz sentido que a celebração norueguesa tenha relação com o mar. Durante o século XX, explica Langer, os noruegueses estiveram entre os principais exploradores do Polo Norte e têm como ícone nacional o explorador Thor Heyerdahl, responsável por uma das expedições mais famosas do século ao navegar da América do Sul até o Pacífico em uma jangada.
Os vikings tiveram contribuição importante para a cultura náutica norueguesa. Seus navios de guerra se tornaram famosos pela sofisticação para a época. Leves e capazes de ser impulsionadas por remos, as embarcações permitiam entrada e saída rápidas de diversos lugares na ausência de vento. “Na verdade, era a grande arma secreta deles”, diz Langer.
De acordo com o professor, um espírito de “curiosidade e aventura”, além de intenções colonialistas, levou os noruegueses a diversas expedições a partir do século IX para regiões como Escócia, Islândia, Groenlândia e até a América do Norte — palco da Copa do Mundo deste ano.
Langer explica que, diferentemente de versões que circularam desde que o gesto da remada se tornou uma marca da torcida norueguesa durante a Copa do Mundo, não há qualquer elemento ritualístico no movimento. “A remada é puramente prática. Os vikings remavam para chegar a algum lugar.”
“Viking”, na verdade, é a palavra que descreve uma ação, e não uma etnia. O termo era usado para caracterizar a saída ao mar para práticas de pirataria, comércio ou colonização — atividade exercida por uma parcela pequena das sociedades escandinavas daquele período.
O “viking” seria uma característica compartilhada por povos autoidentificados como dinamarqueses, suecos e noruegueses, mas não por todas as pessoas dessas populações. Esses três grupos também compartilhavam o nórdico antigo como língua e o culto à mitologia nórdica, explica Langer.
Até mesmo parte das expedições coloniais feitas pelos noruegueses, como aquelas em direção à Islândia e à América do Norte, não deve ser caracterizada exatamente como “viking”, afirma o professor. “Não são, tecnicamente, ‘vikings’, no sentido de não fazerem pilhagem. Não é uma guerra de conquista. Eles estão procurando terras para criar fazendas. Um termo melhor seria ‘colonos armados’.”
A ideia do enorme guerreiro usando um elmo com chifres foi criada por artistas românticos do século XIX. Na realidade, não há qualquer registro de que os capacetes de proteção usados pelos vikings tivessem adornos desse tipo.
“À época, o chifre era um sinal de vigor, de poder. A representação de um guerreiro antigo portando chifres é uma imagem máscula. Os românticos do século XIX tinham uma agenda: criar essa visão gloriosa do passado”, afirma Langer.
Todos os países escandinavos acabariam se apropriando dessa visão historicamente imprecisa, a ponto de a indústria cultural também aderir a ela. Os primeiros filmes que retrataram os vikings, na década de 1920, já carregavam a caricatura introduzida no século anterior, assim como os quadrinhos e a literatura.
Embora os países escandinavos tenham exaltado por anos a imagem criada em torno dos vikings, o tema hoje é tratado com ressalvas na Suécia, à medida que grupos de extrema direita buscam se reapropriar de seus símbolos. “Eles estão usando esse passado viking principalmente para a sua agenda contra imigrantes. É a ideia de um passado puro, de uma raça pura e superior que não pode ser contaminada”, explica Langer.