
Aliados estiveram distantes desde a divulgação das relações entre o senador e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
Após três semanas de “distanciamento estratégico”, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), voltará a se encontrar com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato a presidente da República, durante a Marcha para Jesus, na quinta-feira (4), em São Paulo. A reunião se dará dias depois da investigação da Polícia Civil paulistana que teve como alvo o Instituto Conhecer Brasil (ICB), contratado para instalar pontos de Wi-Fi gratuito na capital. A ONG é de Karina Ferreira da Gama, dona da produtora Go Up Entertainment, responsável pelo filme “Dark Horse”, sobre a vida de Jair Bolsonaro.
A operação provocou incômodos nos bastidores do campo conservador. Além de trazer de volta à pauta as polêmicas sobre “Dark Horse”, a ação da polícia — comandada por Tarcísio — mirou também a própria gestão do prefeito Ricardo Nunes (MDB-SP), responsável pelo contrato com o ICB. Nesta terça-feira (2), Tarcísio defendeu a autonomia da corporação.
– A operação da polícia é uma coisa que a gente não interfere. A polícia tem autonomia para fazer as suas investigações, para fazer as suas operações. É uma instituição de Estado. Havia uma investigação em curso, uma demanda do Ministério Público, e a polícia cumpriu essa demanda. Sempre vai ser assim. A polícia vai ser e sempre será uma instituição de Estado — falou, durante agenda em Rio Claro, no interior de São Paulo.
Um dia antes, Flávio afirmou que a investigação não diz respeito ao filme, o que ainda não foi descartado pela polícia. O senador afirmou esperar que “parte” da Polícia Civil de São Paulo não esteja “sendo usada para fins eleitoreiros”.
— Eu só não quero crer que a gente está sendo vítima, mais uma vez, de uma pescaria probatória, de uma perseguição, porque, se vão fazer uma operação para investigar irregularidades em um determinado contrato, que é de um ano e meio, dois anos para trás, tudo bem, as pessoas vão ter que explicar, o que não tem absolutamente nada a ver com o filme — afirmou Flávio.
Até o fim da semana passada, o entorno de Flávio Bolsonaro dava como certa a ausência do senador na Marcha para Jesus de São Paulo. A mudança nos planos ocorreu após o anúncio, pelos Estados Unidos, da classificação do PCC e Comando Vermelho como organização terrorista, uma das bandeiras de Flávio e uma das tentativas de sua campanha para “virar a chave” e mudar a agenda. A confirmação de que Flávio virá ao evento foi noticiada pela CBN e confirmada pelo GLOBO.
Nas últimas semanas, após a divulgação da visita de Flávio a Vorcaro, ocorreu uma espécie de “guerra fria” entre os núcleos de Flávio e Tarcísio. De um lado, Tarcísio reforçou o distanciamento estratégico da campanha do aliado com receio de se “contaminar” com “encrencas de terceiros”, nas palavras de um aliado do governador. A postura deu resultado perante a opinião pública, segundo avaliações internas, mas gerou novos focos de desconfiança e reclamação no grupo bolsonarista.
Do outro lado, segundo um amigo do senador que também é próximo do governador, o entorno de Flávio ficou incomodado com a falta de apoio do Tarcísio no caso. Viram nas falas de Tarcísio, nas últimas semanas, um “zagueiro que chuta a bola para a torcida, em vez de tocá-la e segurar o jogo”. Em duas oportunidades, sempre que questionado por jornalistas, Tarcísio disse que Flávio tinha esclarecimentos a prestar sobre o envolvimento com Vorcaro.
— Eu acho que tem muitas questões que ele mesmo precisa explicar — afirmou Tarcísio, na semana passada.
“Não foi um defensor de primeira linha, mas também não fez gol contra”, diz o mesmo interlocutor.
Tarcísio e Flávio não vinham se falando desde o evento de lançamento da pré-campanha ao Senado de Guilherme Derrite, em 15 de maio, em Campinas (SP). Assim como Flávio não foi procurado pelo governador, ele não o procurou. Ao mesmo tempo, o senador, segundo interlocutores, não demonstrou incômodo com os posicionamentos do governador — as queixas circulam nos “andares mais baixos”. Como também mostrou O GLOBO, Tarcísio se incomodou por ter sido pego de surpresa com a proximidade entre o senador e o banqueiro preso. Nesse sentido, Flávio entende que cada um “defende a sua” e todos os lados se retraíram para se reposicionar diante da crise.
O distanciamento de Tarcísio e Flávio é corroborado por números e datas. Levantamento da consultoria Bites mostra que o governador citou o senador apenas uma vez nas redes sociais desde junho do ano passado. A postagem, na última quinta (28), parabenizou Flávio pela “articulação firme e necessária” para que Trump classificasse PCC e Comando Vermelho como grupos terroristas.
Nem em encontros presenciais entre os dois Tarcísio marcava, mencionava ou citava o senador. Em 27 de fevereiro, por exemplo, quando Flávio esteve no Palácio dos Bandeirantes e anunciou o governador como seu coordenador de campanha no estado paulista, ambos compartilharam a mesma postagem, originada de Flávio, mas o governador não o marcou. Mais recentemente, os dois fizeram uma série de posts posando juntos na Agrishow, em Ribeirão Preto (SP), mas em nenhum deles Tarcísio destaca Flávio no texto — preferiu destacar a força do agro. Procurado, o Palácio dos Bandeirantes não respondeu sobre o tema.
Quando o assunto é Jair Bolsonaro, como forma de comparação, a métrica de Tarcísio é outra. No mesmo período de 12 meses, ainda segundo a Bites, o ex-presidente foi citado 53 vezes pelo governador. Para um secretário do chefe do Executivo paulista, os números e as não-menções a Flávio são explicados pelo fato de ele não “dever” nada ao senador, mas apenas a Jair Bolsonaro, seu padrinho político. Porém, a partir do momento em que o ex-presidente tirou o governador do páreo federal, em dezembro, a “conta está paga e a dívida acabou ali”, avalia o assessor.
Para esse interlocutor, Tarcísio vai continuar “jogando na defensiva” e se esquivando de maiores problemas com os desdobramentos do caso Master. Outra fonte próxima de Tarcísio diz, inclusive, que o governador recebeu ligações cobrando uma manifestação pública em defesa do aliado, mas optou por não abordar o assunto nas redes sociais. Já para outra pessoa ligada à campanha do senador, Tarcísio está “aproveitando o momento” para “testar uma afastada” de Flávio, mas disse acreditar em um recuo, ao avaliar que o governador “precisa dos bolsonaristas”.
Ao mesmo tempo em que é cobrado pelo entorno de Flávio , Tarcísio vem recebendo críticas no X por sua postura de “largar a mão” do aliado. Ainda segundo a Bites, há um aumento claro de cobranças contra o governador pelos próprios bolsonaristas. Isso aumentou nesta semana, depois que Tarcísio disse que Flávio precisa explicar a situação do Master.
– Nesta semana, cerca de mil tweets mencionaram Tarcísio e citaram Flávio, e aí finalmente se destacam perfis de direita cobrando o governador pela fala de que o senador devia se explicar. Alguns bolsonaristas fizeram equivalência do caso de Flávio com Vorcaro ao de Tarcísio com Ney Santos, ex-prefeito de Embu condenado e acusado de ser aliado do PCC – afirma André Eler, diretor da Bites.
Para o especialista, esse volume de cobranças não é tão grande, ainda parece estar restrito ao X e a contas bolsonaristas mais radicais.
– Pode reforçar uma pressão sobre o governador, que estava fora do foco e que vem tendo menos atenção nos últimos meses – afirma Eler.
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