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Reunião do Fed escancara o tamanho do desafio que espera o novo presidente

Reunião do Fed escancara o tamanho do desafio que espera o novo presidente

30/04/2026 às 14h12
Por: Redação Fonte: The New York Times
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Reunião do Fed escancara o tamanho do desafio que espera o novo presidente

Reunião do Fed escancara o tamanho do desafio que espera o novo presidente.

 

Jerome Powell anunciou nesta quarta que permanecerá como diretor do banco central, num momento em que se acirram as divisões internas sobre os próximos passos da política monetária.

Jerome Powell fechou seus oito anos à frente do Federal Reserve com a reunião de política monetária mais rachada em décadas, depois que três dirigentes defenderam que o banco central deixasse mais claro que o próximo passo pode ser tanto uma alta quanto um corte de juros.

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Para aumentar a tensão, Powell anunciou que vai seguir no Fed como diretor depois que seu mandato como presidente (chair) acabar em 15 de maio, quando o sucessor indicado por Donald Trump, Kevin Warsh, assume o comando. Na prática, a decisão tira de Trump a chance de indicar mais um nome para o conselho de sete membros do Fed enquanto Powell continuar por lá.

A escolha de Powell — que pode ficar até janeiro de 2028 — foge totalmente do padrão. Ele justificou a permanência pelos ataques constantes de Trump e de integrantes do governo ao banco central no último ano, o que, segundo ele, coloca a independência do Fed “em risco”.

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A reunião desta quarta, em que o Fed manteve a taxa básica na faixa de 3,5% a 3,75% ao ano, condensou o tamanho do problema que Warsh vai herdar ao sentar na cadeira. Na sabatina no Senado, Warsh havia dito que queria reuniões “mais bagunçadas” e um “bom debate em família” dentro do Fed — algo que, pelo visto, não vai faltar.

Ao mesmo tempo, ele corre o risco de virar o próximo alvo preferencial de Trump se não entregar os cortes de juros que o presidente cobra faz tempo. Trump passou anos atacando Powell por, na visão dele, não reduzir juros de forma rápida ou agressiva o suficiente, chamando o então presidente do Fed de “atrasado”, “estúpido” e “imbecil”.

Nesta quarta‑feira, Trump voltou a dizer que este é um “bom momento” para cortar juros — exatamente quando dirigentes do banco central indicavam estar bem mais reticentes em oferecer esse alívio. Dentro do Fed, a discussão já não é mais sobre quando cortar de novo, mas se ainda faz sentido cortar — o que levou à reunião mais dividida desde 1992. A mudança de rota tem muito a ver com a guerra no Irã, que disparou os preços de energia e reacendeu a pressão inflacionária.

Stephen Miran, indicado ao Fed no ano passado por Trump, emplacou seu sexto voto vencido consecutivo ao defender um corte de 0,25 ponto percentual. Já os presidentes de três Fed regionais apoiaram a decisão de manter os juros, mas queriam que o comunicado deixasse mais explícito que o próximo movimento não é, necessariamente, novo corte.

Em vez disso, o Fed repetiu na sua nota que, “ao considerar a magnitude e o momento de ajustes adicionais na faixa‑alvo para a taxa dos federal funds, o Comitê avaliará cuidadosamente os dados que chegarem, as perspectivas em evolução e o balanço de riscos”.

Os votos dissidentes vieram de Beth Hammack, presidente do Fed de Cleveland; Lorie Logan, que comanda o Fed de Dallas; e Neel Kashkari, à frente do Fed de Minneapolis.

O temor de um grupo crescente de dirigentes é que, quanto mais a guerra com o Irã se arrastar, maior será o tombo na atividade. A preocupação é com um cenário em que a alta do custo da energia contamina outros preços, principalmente no setor de serviços, tornando a inflação mais persistente e difícil de trazer de volta para a meta.

Por enquanto, as expectativas de inflação à frente ainda mostram que os americanos não perderam a confiança na capacidade do Fed de reconduzir os preços à meta de 2% ao ano. Mas o surgimento de mais um choque que empurra a inflação para longe do objetivo — o quarto em cinco anos — inevitavelmente testa esse voto de confiança.

Powell afirmou nesta quarta que o Fed precisa ser “muito cauteloso” antes de supor que a alta do petróleo não vai ter um efeito mais duradouro sobre a inflação. Ele deixou claro, porém, que ninguém dentro do banco central está defendendo alta de juros agora.

Ao seguir como diretor, Powell continua com direito a voto nas decisões de política monetária, embora tenha dito que pretende manter um “perfil baixo” para garantir uma transição mais suave para Warsh e permitir que o novo presidente tenha espaço para construir maioria em torno de suas posições.

Kevin Warsh, indicado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para ser o próximo presidente do Federal Reserve, presta juramento antes de depor em sabatina de confirmação na Comissão de Bancos do Senado, no Capitólio, em Washington, D.C., em 21 de abril de 2026. REUTERS/Kevin Lamarque TPX IMAGES OF THE DAY

“Quero ser um participante muito construtivo nesse processo, por respeito ao cargo de chair”, disse Powell. Ele elogiou Warsh por ter as “habilidades” necessárias para costurar consensos dentro do Fed.

As decisões de política monetária são tomadas por um comitê de 12 membros, formado pelos outros seis diretores do conselho, pelo presidente do Fed de Nova York e por um rodízio de quatro presidentes entre os 12 bancos regionais.

A decisão de Powell de continuar no conselho foi atacada imediatamente pelo governo. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, disse à Fox Business que se trata de uma atitude “altamente incomum” e uma “violação de todas as normas do Federal Reserve”. Ele chamou a decisão de “insulto” a Warsh.

A Casa Branca não comentou de imediato a permanência de Powell, mas o gesto cria mais um foco de confronto com o presidente, que já havia prometido demiti‑lo se ele não deixasse o Fed ao fim do mandato como chair.

Em uma postagem em rede social, Trump disse que Powell está permanecendo no Fed porque “não consegue emprego em nenhum outro lugar”.

Pela lei, um presidente só pode remover um dirigente do Fed se houver “justa causa”, conceito que, na prática, envolve má conduta grave ou negligência séria no exercício da função. Trump já tentou aplicar essa lógica à diretora Lisa Cook, a quem acusou de fraude imobiliária antes de ela ingressar no Fed. A Suprema Corte analisa o processo movido por Cook contra a acusação.

Powell não detalhou por quanto tempo pretende permanecer no conselho, mas deixou claro que sua decisão está ligada ao desfecho da investigação criminal do Departamento de Justiça sobre o estouro de custos nas reformas da sede do Fed em Washington e sobre se ele mentiu ao Congresso sobre o assunto.

A investigação levou a uma rara reação pública de Powell, que classificou o processo como uma ferramenta de pressão para forçar o Fed a ceder às exigências do presidente por juros mais baixos. Ele já havia dito que não deixaria o banco central enquanto a investigação não estivesse “realmente encerrada, com transparência e caráter definitivo”, condição que voltou a repetir nesta quarta‑feira.

c.2026 The New York Times Company

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