
Kyle Hanslovan, CEO da Huntress, teve trajetória marcada por autodidatismo, rejeições de investidores e sacrifícios pessoais.
No mercado de trabalho incerto de hoje, a geração Z vive ouvindo o mesmo conselho: não planeje toda a sua carreira agora; siga seus instintos e confie que o salário e a estabilidade virão depois.
Kyle Hanslovan é a prova de que isso pode funcionar — mas não exatamente da forma que se imagina. Hoje CEO da Huntress, uma empresa de cibersegurança avaliada em US$ 3 bilhões, sua trajetória até o topo não começou com um diploma de uma universidade de elite nem com um estágio no Vale do Silício. Em vez disso, tudo começou em salas de bate-papo da AOL e fóruns de hackers na internet.
Hanslovan descreveu seu eu mais jovem como um garoto “suspeito”, que passava o tempo pirateando videogames enquanto vivia com a mãe solo na Flórida. Essa curiosidade autodidata chamou a atenção da Força Aérea dos EUA, que o recrutou aos 17 anos para colocar essas habilidades de hacking em prática — desta vez, de forma legal.
“Quando você cresce com muito pouco dinheiro, precisa aprender e experimentar”, disse Hanslovan à Fortune. “Às vezes você aprende levando bronca, e às vezes aprende tendo sucesso.”
Ele passou anos em operações cibernéticas ofensivas antes de migrar para o setor privado, apoiando missões ligadas à Agência de Segurança Nacional (NSA). Foi ali que começou a perceber o quanto o cenário de ameaças estava mudando drasticamente.
O que antes parecia uma forma esperta de driblar firewalls corporativos ou baixar um jogo grátis havia evoluído para algo muito mais sério. Hackers passaram a mirar infraestrutura crítica, sistemas hospitalares e pequenas empresas.
Essa percepção levou Hanslovan a dar um salto. Em 2015, ele deixou uma carreira estável para cofundar a Huntress, uma startup de cibersegurança focada em proteger organizações pequenas e médias que grandes empresas costumam ignorar — de contadores de cidades pequenas a startups inovadoras de tecnologia.
Depois de viver à base de macarrão instantâneo e dormir no carro enquanto fazia a empresa crescer até US$ 3 bilhões, Hanslovan admite que “não faria tudo de novo”
A ameaça cibernética só piorou nos últimos anos: americanos perderam US$ 16,6 bilhões com crimes na internet em 2024, um aumento de 33% em relação ao ano anterior, segundo o relatório mais recente do FBI.
Tensões geopolíticas contínuas e a rápida adoção de ferramentas de IA podem tornar os ataques ainda mais sofisticados e prejudiciais nos próximos anos.
Para a Huntress, essa ameaça foi positiva para os negócios: a empresa cresceu para mais de 700 funcionários em cinco países e alcançou uma avaliação de US$ 3 bilhões. Mas, segundo Hanslovan, isso não veio sem sacrifícios significativos ao longo da última década.
“Eu dormi no meu carro durante boa parte do início da Huntress; não conseguíamos capital de risco”, relembrou o executivo de 40 anos à Fortune. “Tive 60 investidores dizendo não, e já tínhamos esgotado todo o dinheiro dos fundadores.”
Hanslovan reconheceu que a resiliência empreendedora, por si só, não é algo único — muitos fundadores enfrentaram rejeições de investidores ou começaram do zero, em casa. Em vez disso, ele acredita que transformar dificuldades da infância em paixão pode ser uma vantagem real.
“Eu realmente acho que muitas pessoas que chegam lá tiveram algum nível incomum de dificuldades na infância que as ajudou a persistir nesses momentos difíceis”, disse Hanslovan. “Então, mesmo não tendo sido a melhor fase da minha vida, não me arrependo nem um pouco.”
Ainda assim, ele faria algumas mudanças. Quando fundou a Huntress, seus três filhos tinham 5, 9 e 11 anos. Hoje têm 15, 19 e 21; dois já foram para a faculdade, e houve um divórcio no meio do caminho.
“Eu exagerei demais no trabalho. Nos primeiros oito anos, acreditei totalmente nessa cultura de trabalhar sem parar”, disse. “Perdi muitos dos melhores anos da vida deles.”
“Provavelmente eu não faria tudo de novo se pudesse”, acrescentou.
Apesar de todo o sucesso, Hanslovan também admite que isso não traz necessariamente satisfação automática.
“Todo o dinheiro, todo o glamour e tudo isso não me fez mais feliz. No máximo, me deixou mais desconectado”, afirmou.
Parte dessa insatisfação, acrescentou, veio de uma mentalidade que ele internalizou cedo: a de que construir uma empresa bilionária era o padrão para ‘ter vencido na vida’.
“Eu gostaria de ter sabido mais cedo que ainda teria sucesso mesmo que isso não tivesse se transformado em uma empresa de US$ 3 bilhões”, disse Hanslovan. “Há muitas maneiras de fazer a diferença que não envolvem apenas dinheiro.”
Ele ainda aconselha a geração Z a empreender — mas apenas se definirem o sucesso nos próprios termos.
É uma mensagem que pode fazer sentido para uma geração que já caminha nessa direção. Quase dois terços dos jovens de 18 a 35 anos dizem que já iniciaram um trabalho paralelo ou planejam fazê-lo, segundo uma pesquisa de 2024 da Intuit, e quase metade afirma que a principal motivação é simplesmente ser seu próprio chefe.
Ainda assim, Hanslovan alertou contra mirar alto demais sem necessidade.
“Você não precisa se tornar [o bilionário] Mark Cuban. Não precisa criar uma Huntress de US$ 3 bilhões para ter uma boa vida e sustentar sua família”, disse Hanslovan.
“Não há nada de errado em crescer com um negócio de estilo de vida, um negócio local próprio ou algo assim que permita preencher essa lacuna.”
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