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Da lona do circo à referência na corrida: soldado da PM transforma a própria história e inspira vidas por meio do esporte

Bruno Ítalo coleciona medalhas, troféus e pódios, mas vê no legado que está deixando o maior motivo para celebração

23/04/2026 às 14h03
Por: Redação Fonte: Secom Alagoas
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Bruno Ítalo defende que corrida une diferentes realidades, previne doenças, promove disciplina, saúde e superação - Igor Lessa e arquivos pessoal
Bruno Ítalo defende que corrida une diferentes realidades, previne doenças, promove disciplina, saúde e superação - Igor Lessa e arquivos pessoal
Marília Morais / Ascom PM-AL

O soldado Bruno Ítalo Alves, do Batalhão de Ronda Ostensiva Tática Motorizada (Rotam), tornou-se referência na Polícia Militar de Alagoas (PM-AL) quando o assunto é esporte, especialmente corrida de rua. O militar ingressou na corporação em 2020 e, há seis anos, concilia o serviço policial com a prática esportiva. Além de manter a disciplina pessoal, também incentiva os colegas na melhoria da qualidade de vida e, hoje, é o mais novo personagem da série de matérias especiais “Além da Farda”.

“Estimular a saúde ao meu redor faz parte da minha missão de vida. É um propósito ao qual me dedico e carrego comigo essa responsabilidade, de conscientizar outras pessoas sobre a importância da atividade física e da prevenção. A corrida tem um lugar especial nesse processo. É por meio dela que transformei minha vida e acompanho, hoje, tantas histórias incríveis de superação”, ressaltou Bruno Ítalo.


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Nascido e criado em uma casa simples na periferia de Maceió, dividindo um único quarto com a mãe, os avós e um tio, Bruno carrega na própria história marcas profundas de luta, disciplina e generosidade. Filho de um dono de circo e de uma dona de casa, cresceu entre dificuldades financeiras, mas cercado de exemplos de trabalho e dignidade.

Seu pai comandava um circo bastante popular na época. Nas visitas de fim de semana, Bruno, aos 12 anos, também entrava no picadeiro e se apresentava como palhaço. Enquanto o pai era o “Sementinha”, ele assumia o papel de “Sementinha Júnior”. Mas foi dentro da casa humilde dos avós que nasceram os valores que moldariam sua vida.

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“A minha infância foi uma fase cheia de desafios, mas fundamental para construir a pessoa que sou hoje. Passei a entender que sempre temos como ajudar outras pessoas; basta querermos. Cresci com essa ideia: podemos fazer a diferença na vida dos que estão ao nosso redor”, salientou.

O estudo como caminho

Em uma realidade em que poucos de sua família haviam concluído os estudos, Bruno cresceu ouvindo da avó que precisava se dedicar para conquistar um futuro melhor. Antes disso, exerceu funções como ajudante de pedreiro, instalador de internet, caixa de farmácia, porteiro de escola e funcionário de um hospital em Maceió.

Foi justamente no hospital que enxergou novas possibilidades. Ao observar profissionais formados e estabilizados, reacendeu o sonho antigo de cursar Educação Física. Mesmo acreditando que o ensino superior era distante demais para sua realidade, surgiu a chance por meio de uma bolsa integral do Programa Universidade para Todos (Prouni).


A rotina passou a ser intensa. O hoje policial militar trabalhava pela manhã e à tarde, estudava à noite e ainda treinava de madrugada. Tudo isso deslocando-se pela cidade de bicicleta, chegando a percorrer cerca de 200 quilômetros por semana. Após uma primeira tentativa sem êxito, Bruno conquistou aprovação no concurso da Polícia Militar no ano seguinte. Antes disso, fez uma promessa de que, se conseguisse ingressar na PM, ajudaria gratuitamente outras pessoas a serem aprovadas no teste físico, outra etapa do certame.

“Muitos passaram na prova teórica junto comigo em 2018. A maioria estava ansiosa pelo teste físico, fase seguinte considerada um grande desafio. Vi ali a oportunidade para cumprir minha promessa e me dispus, de forma voluntária, a ajudar esses candidatos. Divididos em grupos, íamos para a praia todos os dias treinar para o Teste de Aptidão Física (TAF). Eu ficava imensamente feliz com a notícia de cada aprovação”, recordou.


Como pagamento pelo trabalho, cada participante levava um quilo de alimento por semana. Os itens eram entregues à sua avó, que, por sua vez, fazia a distribuição entre familiares e vizinhos necessitados. Hoje, além de atleta corredor, o soldado também desempenha a função de professor, auxiliando policiais militares durante os treinos na academia de musculação da Rotam.

O exemplo como inspiração

A soldado Karinne Santos, lotada no Batalhão de Trânsito, é uma das pessoas que conheceram de perto o profissional Bruno Ítalo. Ela acompanha o trabalho do educador físico desde quando treinou com ele e foi mais uma candidata aprovada no TAF.

“Falar sobre o Bruno é lembrar do quanto ainda podemos ter fé na humanidade. É lembrar de uma época em que, mesmo sem receber nenhum valor financeiro, ele ofereceu o seu melhor preparando uma turma gigante de aprovados no concurso de 2018. Sua única ‘cobrança’ foram alimentos para ajudar ainda mais pessoas. Ao final do curso, não pude deixar de reconhecer a importância dele em toda a minha trajetória”, relembrou.


“Hoje não sou uma corredora profissional, mas foi a partir da influência dele, há oito anos, que a corrida começou a fazer parte da minha vida. Quando ele teve a oportunidade de ajudar aqueles que não tinham nada a lhe oferecer, demonstrou o quão gigante era e segue sendo. Tenho uma eterna gratidão por tudo”, reconheceu.

A corrida como transformação

De acordo com Bruno, a corrida une diferentes realidades, previne doenças, promove disciplina, saúde e superação. Mas, acima de tudo, cria oportunidades.

“O esporte muda vidas. A corrida, em específico, une pessoas de diferentes classes. Às vezes, alguém com menor condição social é um excelente atleta, mas precisa de ajuda. E alguém, também atleta, em melhor condição, doa um tênis que já não usa, um relógio. Vejo o esporte como união e superação. Como professor, ver alunos alcançando marcas como 5 e 10 km, cuidando mais de si e superando limites me emociona muito”, frisou.


O militar lembra que, quando iniciou na corrida, influenciado pelo tio, aos 16 anos, saía de casa e percorria trajetos na orla lagunar do bairro do Vergel do Lago e utilizava o Google Maps para medir distância e tempo, já que, naquela época, ainda não existiam aplicativos como os disponíveis hoje.

“Lá no início, eu treinava de forma bem simples. Marcava postes, corria forte de um ponto a outro e tentava melhorar. Mais tarde, trabalhando no hospital, alguns médicos começaram a me ajudar com inscrições em corridas, relógio e tênis. Por um período, também participei de uma escolinha de futebol, conduzida pelo subtenente da PM Joel, atualmente na reserva, onde corríamos bastante. Todos esses profissionais foram grandes incentivadores”, lembrou.


O próximo desafio já tem data e hora marcadas. No próximo domingo, 26 de abril, às 5h30, Bruno estará disputando os 10 km da 40ª Corrida Tiradentes, tradicional corrida de rua da Polícia Militar.

“É uma prova pela qual tenho um grande carinho, oportunidade em que encontro companheiros de farda e amigos que fiz ao longo dessa jornada. É um dia de convívio e camaradagem. Cada desafio é uma nova emoção e o que posso dizer é que, por aqui, já estou pronto”, garantiu.

O militar busca mais um pódio. Mas a principal vitória ele já conquistou há tempos: transformar a própria história e ajudar outras pessoas a mudarem as delas.


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