Se você já desistiu de considerar um carro elétrico por causa da autonomia limitada ou por morar em uma região de inverno rigoroso, uma pesquisa pode mudar essa percepção. Pesquisadores chineses desenvolveram um novo eletrólito capaz de mais que dobrar a densidade energética das baterias de lítio atuais dos carros e manter desempenho pleno mesmo a -70 °C.
O estudo foi conduzido na Universidade Nankai, em Tianjin, na China, liderado pelo professor Qing Zhao e pelo acadêmico Jun Chen, vice-presidente executivo da instituição e membro da Academia Chinesa de Ciências. O pesquisador Yong Li, do Instituto de Fontes de Energia Espacial de Xangai, ligado ao programa aeroespacial chinês, também integrou a equipe, assim como o doutorando Lanqing Wu, primeiro autor do artigo.
A combinação de uma universidade civil de alto prestígio com um instituto do setor aeroespacial revela a amplitude das aplicações que os próprios pesquisadores enxergam para a tecnologia, que vai muito além da mobilidade elétrica convencional.
As baterias de lítio comerciais alcançam hoje densidade energética de aproximadamente 300 Wh/kg em temperatura ambiente, suficiente para autonomias entre 500 e 600 km nos modelos mais avançados. O problema aparece no frio: a -50 °C, essa capacidade cai para menos de um terço, tornando os carros elétricos praticamente inviáveis em regiões de clima extremo.
Além da autonomia reduzida, o comportamento do eletrólito convencional em baixas temperaturas compromete a velocidade de recarga e a vida útil da bateria. É esse gargalo que a pesquisa da Universidade Nankai se propõe a resolver diretamente.
O eletrólito é o componente que conduz os íons de lítio entre os eletrodos dentro da bateria. Nas versões convencionais, os solventes usados criam uma ligação lítio-oxigênio que se torna viscosa e lenta no frio. A equipe substituiu esse sistema por solventes de hidrocarboneto monofluorado (HFC), especialmente o composto 1,3-difluoropropano (DFP).
A coordenação lítio-flúor resultante é mais fraca do que a lítio-oxigênio e, justamente por isso, mais rápida e eficiente na transferência iônica em qualquer temperatura. O novo eletrólito apresenta baixa viscosidade de 0,95 cP, alta estabilidade de oxidação acima de 4,9 V e condutividade iônica de 0,29 mS/cm a -70 °C.
Os testes foram realizados em células de bolsa em escala laboratorial. Os resultados apontam para uma diferença expressiva em relação às baterias comerciais atuais:
Vale destacar que a autonomia de 1.000 km é uma projeção teórica baseada na densidade energética medida, não um resultado obtido em veículo real em condições de rodagem.
Segundo a Universidade Nankai, o pesquisador Jun Chen destacou que o potencial da tecnologia ultrapassa a mobilidade elétrica. A resistência ao frio extremo abre caminho para usos em áreas onde as baterias atuais simplesmente falham:
O canal Artifícios Automotivos, com mais de 60,6 mil inscritos especializados em tecnologia automotiva, analisou em detalhes o impacto dessa descoberta para a indústria dos carros elétricos e os desafios reais que ainda precisam ser superados antes de chegar às ruas:
Os próprios pesquisadores reconhecem que a tecnologia ainda não está pronta para produção em massa. As principais limitações identificadas são a estabilidade eletroquímica em tensões elevadas e a necessidade de validar o desempenho em ciclos prolongados fora do laboratório. O histórico da indústria indica que novas químicas de bateria levam entre 10 e 15 anos para chegar ao mercado.
Ainda assim, a pressão crescente pela eletrificação do transporte pode acelerar esse processo. O que esta pesquisa representa, independentemente do prazo de comercialização, é uma mudança de paradigma: pela primeira vez, densidade energética superior e resistência ao frio extremo foram alcançadas simultaneamente em um único eletrólito, abrindo uma nova direção para o desenvolvimento dos carros elétricos nas próximas décadas.