O Egito faz a descoberta arqueológica mais importante do ano com 22 sarcófagos de madeira policromada em um sítio histórico na margem oeste de Luxor. O achado no pátio do túmulo de Seneb reúne múmias, vasos cerâmicos e papiros raros que ajudam a entender melhor a religião, os rituais funerários e a vida das enigmáticas Cantoras de Amon.
A recente descoberta em Luxor ocorreu na área de Qurna, na margem oeste, uma das zonas mais ricas em tumbas do Antigo Egito. Uma missão conjunta do Conselho Supremo de Antiguidades e da Fundação Zahi Hawass localizou o sítio no setor sudoeste do pátio do túmulo de Seneb. Os 22 sarcófagos de madeira policromada datam do Terceiro Período Intermediário, entre 1070 e 712 a.C., fase de mudanças políticas e religiosas. A equipe segue padrões internacionais de conservação para restaurar e analisar os materiais antes de qualquer exposição pública.
A descoberta arqueológica no pátio de Seneb revelou uma câmara retangular escavada na rocha, usada como grande depósito funerário. A disposição interna dos sarcófagos mostra organização meticulosa, aproveitando cada centímetro do espaço disponível. Os arqueólogos identificaram dez fileiras horizontais sobrepostas, com tampas separadas das caixas, sugerindo transferência de múmias de túmulos originais para proteção. Essa prática é coerente com esconderijos coletivos usados em períodos de instabilidade e risco de saques.
Junto aos sarcófagos em Luxor, a equipe encontrou vasos de cerâmica contendo resíduos de substâncias usadas na mumificação. Zahi Hawass, diretor da missão, afirma que o conjunto constitui um inventário raro das práticas funerárias entre as 21ª e 25ª dinastias. Esses recipientes preservam vestígios que permitem reconstituir fórmulas, ingredientes e técnicas de embalsamamento, diferenciando ritos aplicados a sacerdotes, nobres e grupos especializados como as Cantoras de Amon.
Um aspecto crucial da descoberta em Qurna é que as múmias permanecem dentro de seus sarcófagos, com parte dos envoltórios e pinturas preservados. A arqueologia moderna se beneficia da relação intacta entre corpo, caixão e objetos associados. Esse contexto original fornece dados mais precisos sobre status social, crenças e práticas rituais. A restauração estabiliza madeira e pigmentos, evitando limpezas excessivas que possam eliminar vestígios ainda analisáveis em laboratório.
O mistério das Cantoras de Amon é central nessa descoberta, pois muitos sarcófagos trazem títulos femininos ligados ao culto do deus Amon em Tebas. Essas mulheres participavam de música sagrada, hinos e cerimônias templárias. A concentração desses títulos sugere um espaço funerário dedicado a essa corporação sacerdotal feminina, reforçando o protagonismo religioso das mulheres e suas redes de parentesco e prestígio no Antigo Egito.
Além dos sarcófagos e múmias, a missão em Qurna encontrou oito papiros em um vaso de terracota, alguns com selos de argila intactos. O conteúdo pode incluir fórmulas religiosas, registros administrativos e dados pessoais. Esses textos ajudam a datar o depósito funerário e a esclarecer aspectos sociais, econômicos e religiosos do Terceiro Período Intermediário, usando técnicas de escaneamento digital que evitam danos aos rolos frágeis.
O Ministro do Turismo e Antiguidades, Sherif Fathy, afirma que a descoberta integra uma política ampla de preservação e promoção do patrimônio. A estratégia busca equilibrar pesquisa científica, conservação rigorosa e acesso público controlado. Antes da exibição, os artefatos passam por restauração minuciosa, documentação fotográfica e registros digitais detalhados. Esses procedimentos garantem monitoramento constante e reduzem riscos de dano e perda de informação.