No romance "Ensaio sobre a Cegueira", de José Saramago (1922–2010), uma inexplicável epidemia de “cegueira branca” atinge pessoas comuns numa grande cidade do mundo. No livro publicado originalmente em 1995, tudo começa com um homem no trânsito, repentinamente cego. Rapidamente, a condição se espalha e coloca à prova a moral, a ética e as noções coletivas da vida social.
Trinta anos depois, o Grupo Galpão interpreta o texto do autor português ganhador do Prêmio Nobel de Literatura numa montagem que tem sido recebida como “obra-prima” pela crítica e que está na programação da Mostra Lucia Camargo da 34ª edição do Festival de Curitiba. A peça “(Um) Ensaio Sobre a Cegueira” terá duas sessões nos dias 31 de março e 1º de abril no Guairinha, às 20h30.
Com direção de Rodrigo Portella, a peça faz o clássico conversar com o tempo presente, em que as distopias estão integradas ao cotidiano.
Segundo o ator Eduardo Moreira, o espetáculo é uma reflexão sobre os “limites tênues entre civilização e barbárie”. “A verdade é que o romance de Saramago se tornou, com o tempo, ainda mais atual. As autocracias, a ameaça à democracia, todos estes aspectos que se acentuam vertiginosamente no mundo contemporâneo estão presentes, de forma incisiva, na distopia apresentada pelo romance”, diz.
Ele conta que, no processo da montagem, o grupo fez algumas adaptações pontuais, como, por exemplo, o fato de o primeiro cego ser um evangélico. Ou o fato de a mulher do médico se transformar no personagem da mulher que vê.
“Algumas adaptações foram feitas pontualmente para trazer o romance mais para perto de nossa visão contemporânea. Mudanças que trouxeram o texto para mais perto de nossa visão mais contemporânea, em que a ameaça distópica é ainda mais ameaçadora e presente nos nossos dias, o que só potencializa o caráter do texto. Os personagens, confinados num manicômio, veem-se ameaçados nas condições mínimas de higiene e de sobrevivência. As regras de convivência ficam severamente ameaçadas. Tudo isso faz com que a civilização se mostre enfraquecida e a fera selvagem que cada um de nós traz dentro de si ameace pular para fora e mostrar suas garras”, conclui.
GRUPO – Formado em Belo Horizonte em 1982, o Grupo Galpão tem uma tradição de encontros com grandes diretores como Paulo José, Gabriel Vilella e Márcio Abreu. E como diz a “lei natural” destes eventos, ambos saem transformados. Segundo Moreira, o trabalho com Portella foi um processo “profundamente transformador”. “Além de um diretor com uma visão aguçada do teatro e do trabalho do ator, é um excelente dramaturgo, que articula com grande habilidade o poder das palavras e a capacidade de expressar as ideias do romance”, afirma.
A direção musical de Federico Puppi é outro destaque da montagem. O grupo desenvolveu uma oficina com o músico, a partir de algumas indicações e provocações feitas pelo diretor. Foram compostas 10 músicas, integralmente utilizadas na construção do espetáculo. "Foi realmente um trabalho profundamente revelador, que nos possibilitou mergulhar na intrínseca relação entre o trabalho musical e a criação teatral e dramatúrgica”, diz.
FESTIVAL – A Mostra Lucia Camargo no Festival de Curitiba é apresentada por Petrobras, Sanepar e Governo do Estado do Paraná, Prefeitura de Curitiba e Fundação Cultural de Curitiba, com patrocínio de EBANX, Viaje Paraná e Copel, com realização do Ministério da Cultura e Governo Federal - Do lado do povo brasileiro.
Serviço:
"(Um) Ensaio Sobre a Cegueira"
Apresentações: 31 de março e 1º de abril (terça e quarta) de 2026, às 20h30
Local: Auditório Salvador de Ferrante (Guairinha) | Rua XV de Novembro - 971 - Centro, Curitiba/PR
Classificação: 16 anos
Especificações do espetáculo: Teatro | Categoria: Drama
Duração: 140 min
Ingressos Esgotados