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Cenário externo complica plano de corte de juro e deixa novo chefe do Fed sob pressão
Cenário externo complica plano de corte de juro e deixa novo chefe do Fed sob pressão
09/03/2026 08h45
Por: Redação Fonte: Fortune

Cenário externo complica plano de corte de juro e deixa novo chefe do Fed sob pressão.

 

Diante das tensões geopolíticas e de dados econômicos internos, investidores já reduzem as apostas em cortes no curto prazo.

No cenário bastante provável de que a indicação de Kevin Warsh para presidente do Fed passe pelas audiências no Senado, ele estará ansioso para deixar sua primeira reunião do Comitê Federal de Mercado Aberto (Fomc) com um corte na taxa básica em mãos.

Afinal, para conseguir a indicação e suceder Jerome Powell, a orientação da Casa Branca foi explícita: o candidato teria de ser mais inclinado a reduzir juros do que Powell. Warsh, ex-governador do Fed, se encaixa nesse perfil: ele está otimista em relação à economia dos EUA, em grande parte por causa da promessa da IA, e defende um aperto relativo na política do balanço do Fed para compensar juros mais baixos.

A campanha de Trump contra o banco central comandado por Powell tem sido intensa — ele literalmente a levou até a porta do Fed. Qualquer novo presidente do Fed vai querer dar o tom logo no início e entregar o tão solicitado corte de juros pelo qual o presidente tem pressionado.

Mas realizar esse corte não será tarefa simples. As investidas militares de Trump, junto com Israel, no Irã provavelmente empurrarão um Fomc já nervoso para uma postura ainda mais rígida, acreditam analistas. Isso porque a maior consequência econômica do conflito (além do custo humanitário) é o impacto sobre o fornecimento de energia da região do Golfo.

O Irã faz fronteira com o Estreito de Ormuz, uma estreita via marítima no Golfo Pérsico por onde passam exportações dos Emirados Árabes Unidos, do Catar, do Kuwait e do Iraque. Capitães de navios agora estão receosos de atravessá-lo. A Casa Branca sugeriu que seus militares poderiam oferecer escolta a embarcações ao longo do estreito para manter a rota aberta, embora ainda não esteja claro se isso de fato acontecerá.

O efeito indireto sobre os preços de petróleo e gás é a principal preocupação dos economistas. O Fed tem a missão de manter a inflação em 2%, e os preços ao consumidor já estão acima da meta nesse indicador. Reduzir a taxa básica significaria jogar mais lenha na fogueira inflacionária, ao estimular consumo e endividamento.

Complicando ainda mais o cenário, os dados mais recentes do mercado de trabalho mostram que ele continua se fortalecendo. A provedora de folha de pagamento ADP informou que empregadores privados criaram 66 mil vagas em fevereiro, bem acima das 50 mil esperadas.

Isso não ajuda o argumento a favor de um corte. A segunda parte do mandato do Fed — emprego estável — já está se resolvendo praticamente sem intervenção.

Presidentes regionais do Fed, cujo voto tem o mesmo peso que o do presidente da instituição, já indicam que a postura de esperar para ver ganhou ainda mais justificativa com o conflito.

A presidente do Fed de Cleveland, Beth Hammack, disse que os juros podem permanecer nos níveis atuais por “bastante tempo”, com o Irã representando um novo risco inflacionário.

Da mesma forma, o presidente do Fed de Minneapolis, Neel Kashkari, afirmou na semana passada que está menos confiante em sua estimativa anterior de um corte de 0,25 ponto percentual neste ano, explicando: “Com os eventos geopolíticos, precisamos reunir muito mais dados.”

Falcões dos bancos centrais globais

Os bancos centrais estão abordando a guerra no Irã com uma postura mais dura, disse Thierry Wizman, do Macquarie, em uma nota a clientes. Além dos banqueiros dos EUA, Wizman destacou que representantes do Banco do Japão, do Banco da Inglaterra, do Banco do Canadá e do Banco Central Europeu também sinalizaram que estão atentos a qualquer indício de pressões inflacionárias.

“A possibilidade de que o Fed fique ‘em pausa’ em vez de cortar juros neste ano pode explicar por que o dólar ganhou um impulso adicional de valorização (além da busca por ativos seguros) durante a guerra”, acrescentou Wizman.

“Como o mercado de swaps OIS (que apostam nas taxas dos BCs) vinha projetando anteriormente mais de dois cortes do Fed em 2026 (até a semana retrasada), é a perspectiva de juros nos EUA que parece ter o maior ‘potencial’ de ser revertida por um novo surto de inflação global em 2026, caso o fornecimento de energia seja restringido.”

Os dados fortes fizeram com que investidores reduzissem as apostas em um corte no primeiro semestre deste ano, observou Jim Reid, do Deutsche Bank: “A probabilidade de um corte até a reunião de junho (que seria a primeira com um novo presidente) caiu para apenas 39% no fechamento, o nível mais baixo até agora neste ano. Portanto, há claramente um ceticismo crescente de que um novo presidente possa começar a cortar juros imediatamente, especialmente com os dados tão fortes quanto estão agora.”

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