
Com o objetivo de garantir o acesso, a continuidade e a permanência na escola de todas as pessoas que não iniciaram ou interromperam seus estudos,a Educação de Jovens, Adultos e Idosos (Ejai) é uma política pública fundamental para o acesso à educação.
Na rede municipal de educação de Belém, gestores, técnicos e professores se mobilizam para divulgar essa modalidade de ensino e incentivar esse público a iniciar ou retomar os estudos, uma decisão muitas vezes difícil para quem ficou longe da escola por muito tempo, mas que traz benefícios que vão muito além da alfabetização em si, mas incluemganho de autonomia, socialização e superação de preconceitos e desigualdades.
Na Escola Municipal Manuela Freitas, em São Brás, a história de Maria das Graças Tavares, de 73 anos, se assemelha a de muitos alunos idosos: pessoas de baixa renda que na juventude precisaram parar de estudar para trabalhar. No caso de dona Maria, ela se casou com 18 anos, teve seis filhos e precisava ajudar o marido a sustentar a família.
Vendo filhos e netos formados, ela decidiu retomar sua trajetória escolar após décadas de interrupção. Uma de suas netas, que está na faculdade, incentiva a avó nos estudos. “Ela fica mandando ‘vó, vai estudar. Quero ver o seu certificado junto com o meu aqui no meu quarto’. E a gente estuda junto. Quando eu estou com dificuldade eu digo ‘Helô, me ensina isso aqui’. E eu gostei aqui do colégio, dos professores”, conta a aposentada.
Na Ejai, a metodologia tem um diferencial: elaprecisa reconhecer e valorizar os saberes e as práticas dos estudantes, bem como levar para o ambiente de aprendizadoo diálogo, a afetividade e o acolhimento.
O professor de matemática da Escola Manuela Freitas Roberto Nunes explica que a abordagem precisa ser adaptada às realidades dos alunos, que muitas vezes são feirantes ou trabalham no comércio informal. “Como professor de matemática, gosto muito e sempre procuro trabalhar com foco na educação financeira, para poder ajudá-los no desempenho das suas atividades e até mesmo melhorar suas vendas. O objetivo é otimizar cada vez mais a aprendizagem deles”, afirma o professor.

Além do progresso prático na escrita, dona Maria das Graças destaca a importância da escola para o seu bem-estar social e para a superação do isolamento da aposentadoria. E ela incentiva quem não se decidiu. “Venham se matricular, que é muito bom. A gente faz amizade com os professores, com os coleguinhas, temos um outro meio de convivência com as pessoas. O estudo é muito bom na vida da gente. Tem muitas pessoas que dizem ‘ah, mas tu estás velha para estudar’. Mas a gente não tem que pensar no que as pessoas vão falar, e no que a gente quer”, afirma.
Em outro ponto de Belém, na Escola Municipal Cordolina Fontelles de Lima, em Icoaraci, a ex-aluna da Ejai Ciléia da Silva, 54 anos, lembra como na adolescência lhe foi tirada a oportunidade de estudar. Ela veio do Marajó com 14 anos para trabalhar como doméstica em casa de família. Sua patroa, na época, não permitiu que ela fosse para a escola. “Eu achava tão bonito os alunos passarem todos uniformizados… Eu tinha muita vontade, muita vontade mesmo de estudar”, recorda.
Ela precisou abandonar os estudos porque não tinha como se sustentar e nem onde morar na capital. Já com 25 anos, se casou, teve filhos, e só em 2024 decidiu retomar os estudos. Ela conta que quando voltou para a sala de aula foi um dos momentos mais felizes da sua vida.
Hoje, tendo concluído o Ensino Fundamental e já fazendo o Ensino Médio, ela deixa uma mensagem de incentivo. “Eu falo para todas as pessoas de 50, 60 anos:se você tiver a oportunidade de estudar, volte a estudar, porque é uma satisfação imensa, o aprendizado nunca é demais, e ele chega para somar na vida da gente, sabe, porque a gente deixa de ser leigo e volta a ter uma sabedoria muito grande. Quem tiver a oportunidade, não desista dos seus sonhos, continue batalhando, que, com fé em Deus, a gente consegue”.

A diretora de Educação Básica da Secretaria Municipal de Educação de Belém (Semec), Manuela Porto, ressalta que a Ejai impacta diretamente a formação integral dos estudantes, ao fortalecer a valorização pessoal, a autoconfiança e a autoestima, promovendo o desenvolvimento da autonomia em aspectos essenciais da vida. “Esse processo amplia as possibilidades de inserção social e no mundo do trabalho, ao mesmo tempo em que contribui para a formação de sujeitos críticos, conscientes de sua realidade, participativos na vida social e capazes de exercer seus direitos e deveres”, explica.
Estudar representa, para alguns, um recomeço, mas também uma nova oportunidade de sonhar. Elpídio da Assunção, 70 anos, é uma pessoa em situação de rua consciente da importância da educação para a mudança social. Ele veio do Marajó na juventude para trabalhar em Belém. Passou por serviços em padarias, vendeu pastel no Ver-o-Peso, mas nunca permaneceu num emprego fixo.

“Tinha uma amiga minha que se formou como professora normalista com 70 anos. Aí eu fiquei pensando, assim, vendo o cabelo branco dela: ‘Eu vou estudar, não há coisa melhor do que estudar’”. Hoje ele estuda na Escola Manuela de Freitas e cultiva o sonho de fazer doutorado em inglês e quer levar mais pessoas como ele para a escola. “Nunca é tarde para estudar, é isso que as pessoas têm que meter na cabeça”, afirma Elpidio.
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A matrícula na Ejai pode ser feita em qualquer momento do ano letivo, enquanto houver vagas nas escolas. Basta levar a seguinte documentação:
– Certidão de nascimento, RG ou documento oficial de identificação brasileiro ou estrangeiro;
– CPF;
– Cartão SUS, se houver; e
– Histórico escolar ou ressalva, nos casos de matrícula no 2º ano do Ensino Fundamental ou séries posteriores.
Documentos do responsável legal (para alunos da EJAI entre 15 e 17 anos):
– Documento de identificação oficial com foto;
– Cópia legível de comprovante de residência, podendo ser conta de água, luz, telefone fixo ou móvel, internet, contrato de aluguel, IPTU ou declaração emitida por abrigo, associação comunitária, entidade religiosa ou órgão público;
– Documento que comprove guarda/tutela ou adoção do estudante, quando aplicável; e
– Autorização escrita dos pais ou responsáveis legais para cursarem a Educação de Jovens, Adultos e Idosos.
Documentos complementares:
– Folha resumo do CadÚnico, para estudantes beneficiários de programas sociais, contendo o Número de Inscrição Social (NIS) do estudante; e
– Duas fotos 3×4 atualizadas.
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