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Rússia cogita voltar ao sistema do dólar em pacote econômico desenhado para Trump
Rússia cogita voltar ao sistema do dólar em pacote econômico desenhado para Trump
12/02/2026 13h55
Por: Redação Fonte: Bloomberg

Rússia cogita voltar ao sistema do dólar em pacote econômico desenhado para Trump.

 

Memorando do Kremlin propõe reaproximação financeira com os EUA, inclui projetos conjuntos em energia fóssil e matérias‑primas estratégicas.

O Kremlin elaborou propostas que podem levar a Rússia a abraçar novamente o dólar como parte de uma ampla parceria econômica com o governo Trump, de acordo com um documento interno russo ao qual a Bloomberg teve acesso.

O memorando de alto nível, redigido neste ano, detalha sete pontos em que, na visão do Kremlin, os interesses econômicos da Rússia e dos Estados Unidos poderiam convergir após um acordo para encerrar a guerra na Ucrânia. Ele prevê os dois países atuando em conjunto para defender combustíveis fósseis em detrimento de alternativas mais verdes, além de investimentos conjuntos em gás natural, petróleo offshore e matérias‑primas críticas, bem como ganhos adicionais para empresas americanas.

A proposta, que circulou entre altos funcionários russos, oferece uma visão inédita sobre o pensamento e as táticas do Kremlin em um momento em que potenciais acordos econômicos entre EUA e Rússia vêm sendo negociados como peça central de um eventual acordo de paz para a Ucrânia.

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Os EUA já propuseram suspender gradualmente sanções contra a Rússia como parte de qualquer acordo de paz — um primeiro passo necessário para que o país volte a realizar transações em dólar. Mas o que o memorando do Kremlin considera iria muito além disso.

Até agora, encontrar alternativas ao dólar, em vez de restaurar os laços com o sistema liderado pelos Estados Unidos, tem sido um objetivo central da Rússia, enquanto o presidente Vladimir Putin buscava aprofundar sua relação com a China. Por esse motivo, autoridades de governos ocidentais familiarizadas com o conteúdo do documento afirmam considerar extremamente improvável que Putin acabe perseguindo um acordo que contrarie os interesses de Pequim.

O porta‑voz de Putin, Dmitry Peskov, não respondeu a um e‑mail pedindo comentários. Não está claro se a Rússia apresentou algum dos pontos contidos no documento aos EUA.

Áreas em que o memorando do Kremlin vê convergência de interesses econômicos entre EUA e Rússia:

  1. Contratos de aviação de longo prazo para modernizar a frota de aeronaves da Rússia, além de potencial participação americana na manufatura russa.
  2. Joint ventures em petróleo e GNL (gás natural liquefeito), incluindo reservas offshore e de difícil extração, que levem em conta investimentos americanos anteriores e permitam que empresas dos EUA recuperem perdas passadas.
  3. Condições preferenciais para o retorno de empresas americanas ao mercado consumidor russo.
  4. Cooperação em energia nuclear, inclusive para projetos ligados a inteligência artificial (IA).
  5. Retorno da Rússia ao sistema de liquidação em dólar, possivelmente inclusive para transações de energia russa.
  6. Cooperação em matérias‑primas como lítio, cobre, níquel e platina.
  7. Atuação conjunta para promover combustíveis fósseis como alternativa à “ideologia” climática e às soluções de baixa emissão que favorecem China e Europa.

Muito antes da invasão em grande escala da Ucrânia em 2022, Putin vinha trabalhando para reduzir a dependência da Rússia em relação à moeda americana, como parte de um esforço de potências econômicas rivais para desafiar a hegemonia financeira dos EUA. A razão para esses esforços ficou evidente quando os EUA e seus aliados usaram o controle sobre transações em dólar para impor sanções a amplos segmentos da economia russa após o início da guerra. Desde então, Moscou tem buscado desenvolver comércio em moedas e sistemas alternativos, em especial com a China e outros países como a Índia.

Assim, em um nível, voltar ao sistema de liquidação em dólar significaria se submeter novamente à dominância financeira de Washington e reverter esforços para tornar a economia russa menos vulnerável à pressão americana. Ao mesmo tempo, isso daria ao governo Trump uma grande vitória em seu aparente objetivo de enfraquecer a relação entre Moscou e Pequim.

Outros detalhes do plano também parecem ser desenhados para atender a ambições que Trump já deixou claras em outras frentes. A ideia de que empresas americanas deveriam ser compensadas por perdas passadas na Rússia ecoa uma exigência que o presidente dos EUA fez à Venezuela, enquanto o ataque a tecnologias de baixo carbono favorecidas por Europa e China tende a agradar a um presidente conhecido por seus longos ataques retóricos contra turbinas eólicas.

Autoridades ocidentais familiarizadas com o memorando disseram que algumas das propostas parecem ter sido moldadas especificamente para aprofundar divisões entre os EUA e os aliados europeus da Ucrânia. Outras são promessas distantes, com números potencialmente elevados, que poderiam seduzir o presidente americano a fechar um acordo que, na prática, jamais se concretizaria, afirmaram, sob condição de anonimato para discutir um documento confidencial.

Elas também observaram ser improvável que o Kremlin queira se afastar da China, já que Pequim se tornou um fornecedor crucial de componentes e matérias‑primas para a máquina de guerra russa desde que as sanções ocidentais bloquearam outras fontes.

O memorando, porém, argumenta que o retorno ao sistema do dólar permitiria à Rússia expandir seu mercado de câmbio e reduzir a volatilidade em seu balanço de pagamentos. Para os EUA, diz o documento, tal movimento fortaleceria ainda mais a posição do dólar como principal moeda de reserva do mundo e poderia reduzir desequilíbrios no comércio global ao equalizar os custos de energia entre China e Estados Unidos.

O presidente ucraniano Volodimir Zelenski disse a um grupo de repórteres, no início deste mês, que Rússia e EUA vêm discutindo grandes acordos econômicos bilaterais em paralelo às conversas de paz com Kiev.

As informações sobre a proposta de Moscou, apelidada de “Pacote Dmitriev” pelo presidente ucraniano, em referência ao negociador do Kremlin Kirill Dmitriev, foram coletadas pela inteligência ucraniana, afirmou Zelenski. Dmitriev também dirige o fundo soberano da Rússia.

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