Governo Trump atribui bloqueio do espaço aéreo em El Paso a drones de cartéis, mas autoridades municipais e congressistas contestam.
O aeroporto internacional de El Paso, cidade texana na fronteira com o México, teve seu espaço aéreo bloqueado nesta quarta-feira, 11, em um episódio que expôs divergências entre a administração federal e autoridades locais sobre as razões da medida.
O secretário de Transporte, Sean Duffy, atribuiu a decisão a uma invasão de drones operados por organizações criminosas mexicanas. A explicação é contestada.
“A FAA e o DOD agiram rapidamente para lidar com uma incursão de drones de cartéis. A ameaça foi neutralizada, e não há perigo para a aviação comercial na região. As restrições foram retiradas e voos estão sendo normalizados”, afirmou Duffy em publicação na rede social X
O aviso de bloqueio, que inicialmente previa dez dias de suspensão do tráfego aéreo, foi cancelado horas depois de anunciado.
Três pessoas ouvidas pela agência Associated Press sob anonimato apresentaram versão distinta. Segundo elas, o fechamento decorreu de um teste de tecnologia antidrone baseada em laser, desenvolvida para neutralizar equipamentos utilizados por grupos criminosos. O Pentágono teria insistido na realização dos testes mesmo diante de objeções da agência federal de aviação, que demandava garantias de segurança para a operação comercial.
A AP não confirmou se o experimento chegou a ser executado.
A deputada democrata Veronica Escobar, representante do distrito de El Paso no Congresso, rejeitou a narrativa oficial. “Não é a informação que nós recebemos no Congresso”, declarou em entrevista coletiva. “Não havia uma ameaça, e é por isso que a FAA suspendeu essa restrição tão rapidamente. As informações vindas do governo não fazem sentido”, acrescentou.
O prefeito Renard Johnson manifestou perplexidade com a sequência dos acontecimentos. Diversas autoridades municipais não conseguiram compreender os motivos que levaram a uma ação tão drástica, seguida de recuo imediato.
“Essa decisão desnecessária provocou caos e confusão na comunidade de El Paso”, afirmou Johnson. “Quero deixar muito, muito claro que isso nunca deveria ter acontecido. Não se pode restringir o espaço aéreo em uma grande cidade sem coordenar com a prefeitura, o aeroporto, os hospitais e as lideranças comunitárias”, concluiu.
O bloqueio forçou o desvio de voos de evacuação médica para Las Cruces, no Novo México, localizada a 72 quilômetros de distância. As companhias aéreas que operam no terminal foram surpreendidas pelo comunicado divulgado de madrugada, que também suspendeu operações de helicópteros médicos. A Southwest Airlines, com 23 partidas diárias programadas no aeroporto, estimou impactos mínimos em suas operações.
Bob Mann, consultor do setor aéreo, questionou a conduta da agência federal. “A FAA não demonstrou exatamente credibilidade, objetividade ou profissionalismo”, disse. “A pergunta que deveria ser feita é: vamos receber uma explicação?”.
A presidente do México, Claudia Sheinbaum, declarou que seu governo tentaria apurar os fatos, mas não possuía registros de tráfego de drones pela fronteira.