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Quando o impacto vai além dos pódios
Quando o impacto vai além dos pódios
06/02/2026 13h30
Por: Redação Fonte: Infomoney

Quando o impacto vai além dos pódios.

 

Quando decidi firmar uma parceria com o OnlyFans, algumas pessoas estranharam. O que poucos sabem é que esse movimento faz parte de uma tentativa de reposicionamento da própria marca.

Durante muito tempo, acreditei que vencer era o objetivo final: medalhas, títulos e recordes. Tudo isso parecia representar o ápice de uma carreira. Mas, conforme minha trajetória foi se construindo, percebi que as conquistas mais importantes não estavam apenas no pódio, mas também nas estruturas que precisei desafiar por simplesmente existir em um ambiente que não era ocupado por mulheres.

Ser a maior medalhista da história dos X-Games não representa apenas excelência esportiva. Simboliza resistência. Significa que a menina que entrou em um esporte considerado masculino, escutando inúmeras vezes “esse não é o seu lugar”, seguiu em frente e prosperou, mesmo quando desacreditada.

Estar nesses espaços significava chamar atenção e, muitas vezes, carregar uma pressão extra apenas por ser diferente. Mas, longe de me paralisar, isso se tornou combustível para mostrar quem eu realmente era.

Fui a primeira e, por muito tempo, a única. A primeira mulher no time da Nike Skateboarding. A primeira skatista com um shape assinado por uma marca global. Recordista do Guinness por ser a atleta com mais medalhas no X-Games. Única mulher no mundo a conquistar três ouros em um único ano. Mas nenhum desses feitos faz sentido se não servir de referência para que outras mulheres entendam que elas também podem chegar lá.

Um dos momentos mais simbólicos dessa jornada foi assumir a presidência da Comissão Técnica da World Skate. Ali não era mais sobre competir, mas sim decidir, estruturar e influenciar o futuro do esporte em escala global. Estar em um cargo de liderança dentro de uma federação internacional deixou claro que romper barreiras vai além do talento físico: é ocupar cadeiras que historicamente nunca tiveram uma mulher sentada nelas.

E, quando parecia que eu já havia vivido tudo no skate, escolhi recomeçar. Migrei para o automobilismo (uma paixão antiga) e, hoje, competir na Porsche Cup ao lado de uma equipe composta inteiramente por mulheres é mais um capítulo dessa busca por espaços onde ainda não fomos vistas. Essa transição não é apenas esportiva; é estrutural. Ocupar lugares incomuns exige sair da zona de conforto, correr riscos, aceitar recomeços. Significa entender que o impacto de uma trajetória não está no tempo que ela dura, mas nas portas que ela abre para quem vem depois.

Fora das pistas, descobri no empreendedorismo uma nova forma de transformar realidades. Como sócia da Mamba Water, marca de água em lata como um empreendimento social e sustentável, entendi que sucesso e responsabilidade podem caminhar juntos. Levar água potável para regiões vulneráveis me conecta a algo maior que o esporte.

Quando decidi firmar uma parceria com o OnlyFans, algumas pessoas estranharam. O que poucos sabem é que esse movimento faz parte de uma tentativa de reposicionamento da própria marca. Minha escolha de estar ali não foi sobre reforçar estigmas, mas justamente sobre desmontá-los: ocupar aquele espaço mostrando quem eu sou para além dos rótulos, compartilhando viagens, treinos, bastidores e momentos em família, com autonomia. No fim, percebi que inovar, às vezes, não é criar algo totalmente novo, é ter coragem de desafiar percepções antigas e abrir caminhos para que outras mulheres também se sintam livres para escolher onde e como querem contar suas próprias histórias.

Se antes enfrentei bullying e descrença sobre minha capacidade de ser quem sou, hoje sou prova de que não é preciso se encaixar em estruturas para construir um legado. Às vezes, para uma mulher, vencer não basta. Às vezes, é preciso mudar as regras do jogo. E, quando isso acontece, o verdadeiro troféu não é apenas a medalha, mas o caminho aberto para quem vem depois.