Preso na entrevista do green card, caso expõe a complexidade do sistema migratório dos EUA.
Preso desde novembro último nos Estados Unidos, o brasileiro detido pelo ICE, Matheus Silveira, viu sua rotina mudar de forma abrupta no momento em que esperava regularizar a própria situação no país. A detenção ocorreu durante a entrevista final para obtenção do green card.
Nas últimas semanas, o caso ganhou novos contornos após a transferência de Matheus para uma unidade prisional na Louisiana. Segundo a esposa, as condições do local são piores do que as enfrentadas em outros estabelecimentos prisionais pelos quais ele passou recentemente, com dificuldades de comunicação, acesso limitado a informações e relatos de precariedade no dia a dia dos detentos.
Matheus Silveira tem 31 anos e mora nos Estados Unidos desde 2019. Antes da detenção, vivia com a esposa, a advogada norte-americana Hannah Silveira, em San Diego, na Califórnia.
O casal oficializou a união em agosto de 2024 e aguardava a conclusão do processo de residência permanente.
Antes de se mudar, Matheus já havia passado um período nos Estados Unidos e, no Brasil, chegou a iniciar cursos ligados à aviação. Segundo familiares, a ida ao país teve como objetivo aprimorar o inglês e dar continuidade aos estudos na área.
O visto de estudante com o qual ele entrou nos EUA venceu durante a pandemia de Covid-19, segundo Hannah.
Em 2022, Matheus foi detido em Nevada por dirigir após consumir álcool. Segundo a esposa, em relato à Newsweek, ele conduziu o veículo por considerar que o amigo não estava em condições de fazê-lo com segurança.
No entanto, o episódio passou a integrar seu histórico junto às autoridades americanas e se somou à situação migratória pendente. Até ser preso, segundo Hannan, Matheus atuava como entregador enquanto buscava se estabelecer de forma definitiva no país.
Em novembro do ano passado, Matheus compareceu ao escritório do serviço de imigração em San Diego para a entrevista final do pedido de residência permanente.
Aquela era a etapa que serviria para confirmar a legitimidade do casamento. De acordo com a esposa, o processo caminhava para aprovação, quando agentes entraram na sala e apresentaram um mandado de prisão devido à permanência irregular no país.
Após a detenção na Califórnia, Matheus Silveira foi transferido para um centro prisional no estado da Louisiana, a milhares de quilômetros de onde vivia. A mudança dificultou o contato com a família e com o advogado que acompanhava o caso desde o início.
Transferências desse tipo fazem parte do funcionamento da rede de detenção migratória nos Estados Unidos. A autoridade responsável opera centros em diferentes estados e pode deslocar detidos por razões administrativas, como logística e disponibilidade de vagas.
Reportagens do The Guardian e levantamentos da ACLU indicam que, além de ilegais, essas transferências frequentemente dificultam o acesso a advogados e o contato com familiares, especialmente quando os detidos são enviados para centros distantes de onde viviam. Na prática, isso tende a tornar o acompanhamento do processo migratório mais lento e bem menos transparente.
No caso de Matheus, a transferência veio acompanhada de dias sem contato com a esposa. Segundo ela, houve ainda a tentativa de fazê-lo assinar documentos sem a presença do advogado, em um momento em que ele estava sem os óculos e com dificuldade para ler o conteúdo apresentado.
A história de Matheus Silveira se insere em um cenário mais amplo de detenções migratórias.
Reportagens internacionais já relataram casos de imigrantes detidos durante etapas avançadas de processos de regularização, como entrevistas para obtenção do green card. Muitas vezes, a detenção acontece mesmo com vínculos familiares no país, como casamento com cidadãos americanos.
Especialistas apontam que o sistema migratório americano costuma ser pouco intuitivo para quem busca regularização. Emily Ryo, especialista em políticas migratórias e professora na Duke University School of Law, costuma falar sobre o tema:
“Há muitas percepções equivocadas sobre imigração, e enquanto a pessoa não for cidadã, ela está sempre sujeita ao risco de detenção e deportação.”
Quanto a Matheus Silveira, a autorização para saída voluntária (alternativa à deportação formal) impede que ele retorne aos Estados Unidos por até dez anos. Hoje, a família espera que o retorno ao Brasil ocorra após a conclusão dos trâmites.
O caso do brasileiro ilustra o funcionamento do sistema migratório dos Estados Unidos, no qual decisões administrativas podem alterar de forma significativa o andamento de processos de regularização, mesmo em fases consideradas avançadas.