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O maior desafio na Venezuela? Esqueça o petróleo: o problema é encher a geladeira
O maior desafio na Venezuela? Esqueça o petróleo: o problema é encher a geladeira
26/01/2026 10h49
Por: Redação Fonte: Reuters

O maior desafio na Venezuela? Esqueça o petróleo: o problema é encher a geladeira.

 

Crise política no país desencadeou nova onda de inflação que empurra itens básicos para fora do alcance de muitos.

Nair Granado correu para comprar alimentos assim que recebeu seu salário de US$ 60.

Ela sabia que não daria para encher a despensa de sua casa nos limites orientais de Caracas, capital da Venezuela. Ainda assim, temia que, em pouco tempo, seus ganhos não fossem suficientes nem para cobrir o básico.

“Os preços sobem todos os dias”, disse Granado, de 33 anos, recepcionista de laboratório que vive em um extenso bairro operário com seus dois filhos. “Está completamente fora de controle.”

Depois de mais de uma década em crise, a Venezuela não é estranha à escassez de alimentos, aos preços altos e ao sofrimento econômico.

Mas a operação militar dos Estados Unidos que removeu o líder venezuelano, Nicolás Maduro, mergulhou o país sul-americano em um novo capítulo caótico de incerteza política e econômica, desencadeando uma nova onda de inflação e problemas cambiais que está empurrando itens básicos de supermercado para fora do alcance de muitos venezuelanos.

Granado, em um dia de semana recente, ainda conseguia comprar farinha e meia cartela de ovos. Mas nem sequer cogitava comprar carne — a mais de US$ 9 (R$ 48) meio quilo, o preço quase dobrou em apenas alguns dias.

“Você realmente precisa encontrar maneiras de economizar, de fazer o salário render”, disse Granado. “Está ficando mais difícil comprar as coisas.”

A turbulência econômica agora ameaça aprofundar uma crise humanitária que já dura anos na Venezuela, onde mais de 70% das pessoas vivem na pobreza, segundo uma pesquisa de um grupo de universidades de referência no país.

A nova crise de acessibilidade atinge os venezuelanos com especial força porque muitos já vivem há anos à beira da fome, disse Phil Gunson, analista sênior do International Crisis Group, uma organização de pesquisa, que mora na Venezuela há mais de duas décadas.

“Eles venderam tudo o que podiam, apertaram o cinto até não restar mais nenhum furo”, disse Gunson. “Então não há mais em que se apoiar.”

No centro do forte aumento dos custos dos alimentos está a dependência da Venezuela do dólar americano, amplamente usado nas transações do dia a dia por ser, em geral, menos volátil do que a moeda do país, o bolívar.

Quando a economia venezuelana, que já foi a mais rica da América Latina, afundou ainda mais na crise em 2019, impulsionada pela má gestão do governo e agravada por sanções dos Estados Unidos, muitas pessoas passaram a poupar, gastar e cobrar em dólares.

Como resultado, embora a economia do país não seja formalmente dolarizada, hoje os venezuelanos dependem do dólar para seus gastos diários. Comerciantes costumam comprar de fornecedores em dólares e, por isso, atrelam os preços à moeda. E, em geral, cobram valores mais altos se o pagamento for feito em bolívares.

Novas sanções dos Estados Unidos ao longo do último ano também forçaram a Venezuela a vender menos petróleo no mercado global, o que reduziu o volume de dólares circulando na economia e tornou a moeda mais valiosa.

Agora, a ansiedade em relação ao futuro econômico do país fez o valor do dólar disparar, praticamente dobrando os preços locais de itens básicos como carne, queijo e leite.

O Banco Central da Venezuela define uma taxa de câmbio oficial, mas a maioria das pessoas se baseia em uma taxa não oficial, o dólar paralelo, que reflete o valor pelo qual o dólar é realmente negociado nas ruas.

Na semana passada, o valor não oficial do dólar chegou ao dobro da taxa oficial. (Desde então, se estabilizou, mas permanece bem acima do valor oficial — e os preços nos supermercados não caíram na mesma proporção.)

Ao mesmo tempo, a renda dos venezuelanos, que em sua maioria recebem em bolívares, “virou fumaça” com a desvalorização da moeda, disse José Guerra, economista e professor da Universidade Central da Venezuela.

“Então temos o caso de uma economia que enfrenta uma inflação extremamente alta e, ao mesmo tempo, pode estar entrando em uma recessão”, acrescentou, estimando que a inflação pode chegar a 2.000% neste ano. (O governo venezuelano não publica estatísticas econômicas oficiais e tem perseguido economistas que acompanham a inflação.)

Enquanto o governo interino da Venezuela se concentra em sua nova relação, quase de cliente, com a administração Trump, muitos venezuelanos estão simplesmente tentando descobrir como fazer o poder de compra cada vez menor render.

Johana Paredes, de 30 anos, disse que já estava acostumada a racionar as compras do mês para sua família de quatro pessoas. Mas o novo salto nos preços dos alimentos tornou difícil comprar até itens essenciais que, recentemente, estavam ao alcance.

“Nesta última semana, não conseguimos fazer nenhuma compra”, disse Paredes, mostrando os poucos suprimentos em sua casa de teto de zinco em Los Teques, a uma hora de Caracas. “Por isso não tem nem batata”, acrescentou. “Antes, nós éramos ricos e nem sabíamos.”

O presidente Donald Trump delineou planos grandiosos para revitalizar a indústria petrolífera da Venezuela, prometendo fechar uma série de acordos que trariam investimentos americanos para o setor. O principal motor da economia se deteriorou após anos de má gestão.

E, embora haja sinais iniciais de que esses planos possam estar começando a se concretizar, ainda não está claro se essa tábua de salvação financeira de fato se materializará e consertará a economia quebrada da Venezuela no longo prazo.

Muitos venezuelanos há muito perderam a confiança na capacidade de seu governo de melhorar suas vidas.

“Esses acordos de petróleo que estão sendo negociados vão ‘realmente beneficiar a Venezuela’?”, questionou Gunson, o analista. “Só o tempo dirá”, acrescentou. “Neste momento, tudo o que temos é Trump dizendo que vai pegar o petróleo e vendê-lo.”

Enquanto líderes em Caracas e Washington disputam o futuro da Venezuela, Paredes disse que ainda alimenta a esperança de que uma transformação real comece em breve a chegar a pessoas como ela.

“Tentamos nos manter positivos, acreditando que as coisas realmente vão mudar”, disse. “Porque, sinceramente, não vemos nenhuma melhora. Tudo só continua piorando.”

c.2026 The New York Times Company