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Captura de Maduro pressiona tabuleiro político no Brasil, dizem especialistas

Captura de Maduro pressiona tabuleiro político no Brasil, dizem especialistas

04/01/2026 às 09h50
Por: Redação Fonte: Reuters
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Captura de Maduro pressiona tabuleiro político no Brasil, dizem especialistas

Captura de Maduro pressiona tabuleiro político no Brasil, dizem especialistas.

 

Analistas apontam que ataque reacende temores de intervenção externa, gera incertezas sobre o futuro da Venezuela e impõe desafios diplomáticos, humanitários e políticos ao Brasil.

O ataque dos Estados Unidos à Venezuela e a captura de Nicolás Maduro mexem no cenário geopolítico da América Latina, reacendem temores históricos de intervenção externa e colocam o Brasil diante de desafios diplomáticos, humanitários e políticos internos. A avaliação é compartilhada por especialistas em relações internacionais e ciência política ouvidos pelo InfoMoney.

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Para o professor Roberto Goulart Menezes, do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UNB), o desfecho observado desde a madrugada surpreendeu os governos da região.

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“A expectativa era de uma pressão sucessiva sobre o governo de Nicolás Maduro, com consultas e negociações envolvendo países da região. O que ocorreu foi um ataque direto, com características de uma ‘operação cirúrgica’, como a realizada no Iraque em 1991, embora ainda haja muitas lacunas de informação”, afirma.

Entre as principais incertezas estão o paradeiro de Maduro, se houve apoio ou divisão nas Forças Armadas venezuelanas e se o país caminha para uma transição negociada ou para um período de confrontos internos. Para Menezes, essas respostas serão determinantes para medir o grau de instabilidade regional.

Fato geopolítico

Na avaliação do consultor em marketing político e estrategista, Celso Lamounier, o episódio precisa ser analisado em duas camadas. A primeira é o fato geopolítico em si, com os Estados Unidos escalando ações contra a Venezuela sob o argumento do combate ao narcotráfico e anunciando a captura do líder venezuelano. A segunda é a narrativa sobre a disputa real.

“Os EUA alegam que é uma guerra contra o narcotráfico, mas o governo venezuelano sustenta que o objetivo dos ataques seria o controle de reservas estratégicas, como petróleo e minerais”, afirma.

Segundo ele, nos dias que antecederam a ofensiva, Maduro vinha sinalizando disposição para conversas com Washington, inclusive mencionando cooperação antidrogas e investimentos no setor de petróleo, numa tentativa de deslocar o conflito para o campo diplomático.

Lamounier ressalta o precedente perigoso criado pelo que chamou de “intervenções militares seletivas” e a captura de um chefe de Estado, que ampliam a instabilidade em toda a América Latina. “Ainda mais em um país que faz fronteira com o Brasil”. Para ele, o fato de outros regimes autoritários ou democracias frágeis não sofrerem ações semelhantes reforça a leitura de que interesses estratégicos e econômicos pesam nessas decisões.

Lamounier ressalta o precedente perigoso criado pelo que chamou de “intervenções militares seletivas” e a captura de um chefe de Estado, que ampliam a instabilidade em toda a América Latina. “Ainda mais em um país que faz fronteira com o Brasil”, diz.

Risco para o Brasil

Menezes avalia que a ofensiva se insere na Estratégia de Segurança Nacional anunciada por Donald Trump, que volta a tratar a América Latina como área prioritária de influência. “Essa lógica lembra a doutrina aplicada durante o governo Ronald Reagan. A China continua sendo o principal alvo global, mas a região reaparece como espaço de contenção de potências extra-regionais”, afirma. Nesse contexto, Nicarágua e Cuba surgem como possíveis alvos, segundo o professor.

No caso brasileiro, Menezes avalia que o país não foi arrastado junto com o colapso do governo Maduro porque já vinha se afastando da Venezuela. “O presidente Luiz Inácio Lula da Silva tentou, no início do mandato, reinserir a Venezuela na governança regional e apostar em uma transição negociada. O esforço fracassou após o não cumprimento de acordos e ataques diretos de Maduro ao governo brasileiro”, explica, acrescentando que a distância já era grande e agora tudo desmoronou.

“O Brasil não está entre os escombros do governo Maduro”, resume Menezes. Ainda assim, o país pode enfrentar impactos relevantes, especialmente no campo humanitário, com a possibilidade de uma nova onda migratória em direção às fronteiras do Norte.

Custo político

O forte posicionamento de Lula mostra que o presidente não fez uma crítica genérica ao que aconteceu, segundo Lamounier. “Ele repudiou explicitamente o bombardeio em território venezuelano e a captura de um chefe de Estado, classificando o episódio como uma violação grave da soberania e um precedente perigoso para a ordem internacional”, afirma.

Para o consultor, essa é uma fala que assume custo diplomático, justamente por ocorrer em um momento de recomposição da relação entre Brasil e Estados Unidos, após tensões recentes no campo comercial. “Mesmo com uma relação bilateral mais estável, Lula deixa claro que não se curva a Washington quando entende que princípios centrais estão em jogo. Essa tem sido uma marca da política externa brasileira: diálogo, mas com autonomia e firmeza.”

O impacto, segundo Lamounier, é duplo. No plano externo, o Brasil se reposiciona como um ator que tenta conter escaladas militares e reafirmar o multilateralismo, postura que Lula vem adotando em outros conflitos internacionais. No plano interno, porém, a declaração tende a ser explorada politicamente.

“Em ano eleitoral, essa fala sai do campo da diplomacia e vira instrumento de polarização, com tentativas de associar Lula a Maduro, mesmo que o conteúdo da declaração trate de soberania e não de apoio a regimes”, avalia.

Ambos os especialistas concordam que o ataque marca apenas o início de um processo ainda cercado de incertezas. Sem clareza sobre o destino de Maduro, a reação das Forças Armadas venezuelanas e o tipo de governo que poderá emergir, a instabilidade na América Latina tende a aumentar.

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