Comitês da Câmara e do Senado exigem explicações do Pentágono após revelação de que o secretário de Defesa ordenou execução de tripulantes após ataque inicial no Caribe.
Comissão do Congresso dos Estados Unidos decidiu abrir uma investigação formal sobre a operação militar que resultou na morte de dois sobreviventes de um ataque a uma embarcação suspeita de tráfico de drogas no Caribe.
A decisão veio após reportagem do Washington Post revelar que o secretário de Defesa, Pete Hegseth, ordenou verbalmente que nenhum tripulante fosse deixado vivo.
O episódio ocorreu em 2 de setembro. Após o disparo de um míssil que destruiu o barco, imagens de um drone mostraram dois membros da tripulação ainda com vida, agarrados aos destroços.
Segundo fontes que tiveram acesso direto à operação, o comandante das Forças de Operações Especiais ordenou um segundo ataque para cumprir a determinação de Hegseth, matando os sobreviventes.
A revelação provocou reação no Congresso. Os presidentes dos comitês de Forças Armadas do Senado e da Câmara, ambos republicanos, divulgaram notas conjuntas com seus respectivos colegas democratas afirmando que querem uma “apuração completa” dos fatos. Parlamentares pediram documentos, registros de ordens e a fundamentação legal para a operação.
Desde o retorno de Donald Trump à Casa Branca, a maioria republicana vinha atuando de forma alinhada ao governo. A contestação pública dessa operação representa um raro distanciamento.
Hegseth, em resposta às críticas, escreveu em sua conta no X que as ações são “legais, autorizadas e eficientes” e que traficantes mortos são “integrantes de organizações terroristas designadas”. Ele acusou a imprensa de fabricar denúncias para “desacreditar os guerreiros americanos”.
A postura do Pentágono, porém, gerou crescente irritação no Congresso. Em reuniões reservadas com parlamentares, conforme apuração do Washington Post, o Departamento de Defesa se recusou a levar advogados capazes de explicar a base jurídica dos ataques. Os pedidos por documentos, no entanto, também têm sido ignorados.
A administração Trump tem defendido que os Estados Unidos estariam em um “conflito armado não internacional” contra organizações ligadas ao narcotráfico, posição respaldada por um parecer confidencial da Procuradoria-Geral. Mas especialistas em direito internacional e ex-advogados militares afirmam ao jornal que o argumento não se sustenta e que matar sobreviventes indefesos configura crime de guerra.
Um grupo de ex-procuradores das Forças Armadas divulgou um relatório no sábado (29) reforçando que, mesmo em contexto de confronto, a lei internacional exige que sobreviventes incapazes de lutar sejam resgatados e tratados como prisioneiros de guerra. “As ações descritas não deixam margem: trata-se de violação grave, seja como crime de guerra, seja como homicídio”, diz o documento.
O Comando de Operações Especiais havia informado ao governo que a chamada “segunda tacada” teria o objetivo de afundar os destroços e evitar riscos à navegação.
Parlamentares que receberam esse briefing classificaram a justificativa como implausível. “É absurdo alegar que os restos de um pequeno barco representam risco em um oceano imenso. E matar sobreviventes é ilegal”, disse o deputado Seth Moulton (D-Massachusetts).
Dados internos obtidos pelo Washington Post indicam que os militares americanos já realizaram mais de 20 ataques contra barcos no Caribe e no Pacífico oriental desde o início dessa campanha.
Agora, com comitês do Senado e da Câmara atuando em conjunto, a pressão por transparência sobre as operações conduzidas pelo governo Trump na região deve aumentar nas próximas semanas.