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O motivo da fúria da China contra a primeira-ministra do Japão

O motivo da fúria da China contra a primeira-ministra do Japão

23/11/2025 às 11h26
Por: Redação Fonte: Agência CNN Noticias
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O motivo da fúria da China contra a primeira-ministra do Japão

O motivo da fúria da China contra a primeira-ministra do Japão.

 

Declarações de Sanae Takaichi sobre possível intervenção militar em Taiwan provocaram retaliação econômica e diplomática de Pequim.

Semanas após assumir o cargo, a nova líder do Japão enfrentou as consequências do que significa cruzar a linha vermelha da China em relação a Taiwan.

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Desde que Sanae Takaichi sugeriu que seu país poderia responder militarmente caso a China tentasse tomar Taiwan à força, Pequim recorreu ao seu manual de pressão econômica: alertou seus cidadãos contra viagens e estudos no Japão, indicou que não haverá mercado na China para exportações de frutos do mar japoneses e desencadeou uma onda de fervor nacionalista direcionada à primeira-ministra.

A fúria parece cuidadosamente calculada para enviar um aviso ao Japão – e outros países da região – sobre o que pode acontecer se eles sequer considerarem adotar uma posição contrária à China sobre Taiwan, a ilha democrática autônoma que Pequim reivindica como seu próprio território.

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Mas o desentendimento, que não mostra sinais de diminuir após cerca de duas semanas, também revela algo mais: as preocupações profundas de Pequim sobre possíveis mudanças nas posturas militares na Ásia – à medida que os aliados dos EUA aumentam seus gastos com defesa e coordenação em resposta ao crescente poderio militar chinês.

Nenhum outro país desperta essas preocupações como o Japão, cujo Exército Imperial no século XX invadiu, ocupou e cometeu atrocidades na China e, décadas antes, colonizou Taiwan – pontos críticos no chamado "século de humilhação" da China nas mãos de potências estrangeiras.

O sentimento anti-japonês tem persistido no país desde então – intensificando-se e ganhando força nos últimos anos, com as vozes dos linha-dura nacionalistas se tornando cada vez mais predominantes na China sob o líder autoritário Xi Jinping.

Reforçando a determinação histórica do Partido Comunista governante de garantir que a história nunca se repita, Xi modernizou rapidamente o exército chinês e expandiu sua influência global.

Agora, aos olhos de Pequim, os comentários de Takaichi revelam que o Japão não respeita o vasto reequilíbrio de poder que posicionou a China como uma superpotência ascendente – e que tem ambições militares que poderiam ameaçar a ascensão chinesa.

"Pela primeira vez, um líder japonês expressou ambições de intervenção armada em Taiwan e emitiu uma ameaça militar contra a China", afirmou um comentário no Diário do Povo, porta-voz do Partido Comunista, no início desta semana.

"Por trás disso está a perigosa tentativa das forças de direita do Japão de se libertarem das restrições da constituição pacifista e buscar o status de "potência militar"", afirmou.

O "militarismo" do Japão

O Japão realizou uma mudança radical em sua postura de segurança nos últimos anos, afastando-se da constituição pacifista imposta pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial, para aumentar seu orçamento de defesa e adquirir capacidades de contra-ataque.

Isso ocorre enquanto Pequim intensifica suas atividades militares na região, inclusive ao redor de Taiwan – e enquanto os EUA pressionam seus aliados por uma maior participação nos gastos com defesa.

Líderes japoneses anteriores evitavam discutir Taiwan no contexto de uma resposta militar, mas os políticos – particularmente entre os direitistas do partido de Takaichi – estão cada vez mais preocupados com as implicações para Tóquio caso Pequim ataque Taiwan, que está estrategicamente localizado ao sul do Japão. Esse sentimento resultou em um impulso crescente para expandir ainda mais os gastos com defesa do Japão e até mesmo alterar a constituição.

Agora Takaichi, uma figura linha-dura que já provocou a ira de Pequim por questionar algumas das narrativas sobre a culpabilidade do Japão imperial por suas atrocidades de guerra, deu o passo de falar abertamente sobre a questão de Taiwan. Nos primeiros dias de seu mandato, ela também pediu laços de segurança mais estreitos com os EUA e está se movendo para acelerar o fortalecimento da defesa do país.

Aos olhos de Pequim, de acordo com uma conta de mídia social ligada ao exército chinês, tais esforços correm o risco de ver "o "fantasma" do militarismo" ressurgir "para causar estragos no mundo."

E é por isso que alguns do lado japonês acreditam que Pequim está atacando agora "para encurralar Takaichi e colocá-la na defensiva desde o início – para que ela fique mais relutante em avançar com o investimento do Japão em defesa", segundo Chong Ja Ian, professor associado da Universidade Nacional de Singapura.

Tropas japonesas mataram mais de 200 mil civis desarmados durante sua ocupação, e estupraram e torturaram dezenas de milhares de mulheres e meninas, no que ficou conhecido como o Massacre de Nanjing, uma das mais notórias atrocidades de guerra do século XX

O Japão tem repetidamente se desculpado e expressado remorso por suas atrocidades cometidas durante a guerra.

Esse período, no entanto, tem estado em evidência na China este ano, enquanto Pequim marca o 80º aniversário do fim da Segunda Guerra Mundial, quando a rendição do Japão às Forças Aliadas libertou a China de sua ocupação e resultou na transferência de Taiwan para o governo nacionalista chinês.

O Partido Comunista Chinês estabeleceu a República Popular da China em 1949, após emergir vitorioso da guerra civil, enquanto os nacionalistas derrotados se retiraram para Taiwan.

Pequim tem usado o aniversário para justificar sua reivindicação sobre a ilha – e manifestar preocupação com o que considera uma guinada do Japão em direção ao militarismo.

A China vê o controle de Taiwan como parte fundamental da "rejuvenescimento nacional" que deve completar até meados do século – um objetivo que, se Pequim decidir alcançar pela força, poderia ser significativamente complicado por um Japão mais forte.

Para Pequim, os comentários de Takaichi podem ser resumidos como "a pessoa errada, falando a coisa errada" no "momento errado", segundo Wang Yiwei, diretor do Instituto de Assuntos Internacionais da Universidade Renmin em Pequim.

"Defendendo sua soberania"

Apesar de Tóquio ter enviado um emissário a Pequim no início desta semana para acalmar a disputa, a China não demonstrou sinais de reduzir sua avalanche de críticas.

Em vez disso, insiste que Tóquio retire o comentário – uma posição que não oferece a nenhum dos lados uma saída fácil para o impasse.

Enquanto isso, a China continua a alimentar sentimentos nacionalistas, incluindo demonstrações de força militar. Na quarta-feira (19), divulgou um vídeo intitulado "Não seja tão arrogante". Sem mencionar o Japão diretamente, inclui um rap que entoa: "Aperfeiçoamos nossas habilidades através de treinamento rigoroso, como podemos permitir que você seja tão arrogante?"

Mas talvez seja uma imagem do enviado do ministério das Relações Exteriores do Japão, Masaaki Kanai, e seu homólogo chinês Liu Jinsong após sua reunião em Pequim no início desta semana que demonstre por que a China não quer diminuir a pressão ainda.

Essa imagem – mostrando Liu em pé com as mãos nos bolsos, falando com Kanai que inclina a cabeça para frente enquanto escuta – viralizou nas redes sociais chinesas.

Comentaristas se referiram ao diplomata japonês como "fazendo reverência", enquanto elogiaram a escolha do traje de Liu – um terno cujo estilo está associado ao movimento anti-imperialista chinês do Quatro de Maio de 1919.

O simbolismo, ao que parece, não foi coincidência: "A postura da China na defesa de sua soberania permanece inalterada por um século", dizia uma legenda em uma publicação da emissora estatal CCTV.

 

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