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Ilha da Amazônia receberá novo sistema de construção sustentável desenvolvido por docente da Unesp

Iniciativa utilizará materiais típicos da região e se baseará em conceitos aplicados no projeto Casa da Floresta, já erguido na periferia de Belém

21/11/2025 às 10h41
Por: Redação Fonte: Secom SP
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Protótipo será instalado no Observatório Magnético de Tauoca (foto), mas objetivo de longo prazo é impactar condições de habitação de populações ribeirinhas
Protótipo será instalado no Observatório Magnético de Tauoca (foto), mas objetivo de longo prazo é impactar condições de habitação de populações ribeirinhas

Um observatório situado em ilha no rio Pará, no estado do Pará, vai receber o mais novo projeto de construção sustentável desenvolvido por docentes da Unesp. Elaborado em parceria com docentes da Universidade Federal do Pará (UFPA) e financiado por meio do Programa Integrado de Desenvolvimento Sustentável da Região Amazônica (Pró-Amazônia) do CNPq, o projeto se baseará em recursos naturais típicos da Amazônia para desenvolver um sistema de construção leve e resistente, de características modulares.

A iniciativa segue o rastro de outra experiência no campo da construção sustentável desenvolvida por docentes da Unesp, a Casa da Floresta . A Casa da Floresta possui uma estrutura geodésica construída com ripas de bambu e folhas da palmeira buçu. Além do uso de materiais regionais, a estrutura apresenta aberturas na altura do solo e uma claraboia que contribuem para a circulação do ar, o resfriamento do ambiente e o aproveitamento da luz natural.

A Casa da Floresta foi construída como resultado de uma parceria entre a Pró-Reitoria de Extensão e Cultura da Unesp e o Instituto Peabiru. Está localizada no município de Acará, na Grande Belém, e serve como um espaço aberto ao público que se dirige à cidade durante a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (COP 30), articulando conhecimento científico, cultura e saberes tradicionais, promovendo a busca de soluções para conjugar o desenvolvimento social e a preservação da floresta.

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A Casa da Floresta foi projetada pela arquiteta Juliana Cortez, docente da Faculdade de Ciências e Engenharia da Unesp, câmpus de Itapeva. Durante os preparativos para a construção, ela conheceu o professor da UFPA Cristiano Mendel, vice-diretor do Instituto de Geociências da UFPA. A UFPA atua na gestão e no desenvolvimento de pesquisas junto ao Observatório Magnético de Tatuoca. O nome designa uma ilha desabitada onde, desde 1957, funciona o observatório, distante 12 km de Belém.

A ilha vai receber o protótipo do novo sistema de construção. Ele será composto de módulos sustentáveis, de fácil transporte, que possam ser encaixados e fixados conforme o projeto do imóvel. A expectativa é que o conceito de estruturas modulares possa ajudar comunidades ribeirinhas da região, que muitas vezes enfrentam dificuldades logísticas na construção de seus imóveis.

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“Diferentemente da Casa da Floresta, em que montamos um pavilhão geodésico, nesse projeto queremos criar peças modulares pré-fabricadas, que sejam leves e que possam ser colocadas em um barco e montadas no próprio local”, explica Cortez.

O Observatório Magnético de Tatuoca é vinculado ao Observatório Nacional, órgão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). Ele produz medições contínuas do campo geomagnético terrestre, fornecendo dados para uma rede global com mais de 200 observatórios pelo mundo, chamada Intermagnet. No Brasil, apenas o município de Vassouras, no Rio de Janeiro, possui um observatório semelhante.

Sensibilidade a metal

A escolha por erigir o observatório em uma pequena ilha amazônica sem ocupação humana e com poucas construções é estratégica. A proximidade com o Equador geográfico e o Equador magnético da Terra faz de Tatuoca um local privilegiado para a captação de dados magnéticos. Já a ausência de moradores e outras atividades econômicas impede que outros elementos alterem a assinatura (as características) magnéticas da área e interfiram na sensibilidade dos instrumentos que analisam a variação do campo magnético. Segundo os pesquisadores que atuam no local, o movimento de um automóvel a cem metros de distância dos equipamentos já produz “ruídos” que alteram as medições. Na Ilha de Tatuoca, não existem automóveis.

Essa sensibilidade dos dispositivos do laboratório é mais um motivo para se investir em um projeto que aplique materiais naturais na construção e constitui a principal razão para escolher a Ilha de Tatuoca para receber o protótipo. “A presença de um material ferromagnético, como um vergalhão de aço ou mesmo um parafuso, pode criar uma fonte interferente e provocar variações na leitura dos dispositivos, contaminando os dados que são fornecidos para centros de todo o mundo”, explica Mendel.

Cristiano Mendel
Cristiano Mendel

Embora o uso de materiais construtivos naturais seja algo fundamental para o observatório, a ideia é que o projeto ofereça soluções para um público mais amplo. Os pesquisadores explicam que o contexto amazônico impõe algumas situações desafiadoras para a construção de casas e imóveis em geral. O transporte de materiais de construção, por exemplo, muitas vezes precisa ser feito por canoas que entram nos rios e igarapés e depois são carregadas à mão até o local da obra, o que pode encarecer ou mesmo inviabilizar o projeto. O uso de barcos ou máquinas maiores, por outro lado, tem o potencial de causar danos à vegetação e ao ambiente local.

“É dessa forma que sempre foi feito pelas populações ribeirinhas e tradicionais na Amazônia. Respeitar esse contexto é fundamental. Surge, então, a necessidade de uma arquitetura adaptada à realidade amazônica, que é a chave do projeto. A aplicação no observatório da ilha de Tatuoca será um teste de prova, porque, se funcionar ali, funcionará em qualquer lugar na Amazônia”, afirma Cortez.

A coordenação do projeto ficará a cargo do professor Carlos Emmerson Ferreira da Costa, docente da UFPA e responsável pelo Laboratório de Óleos da Amazônia, localizado no Parque de Ciência e Tecnologia Guamá, em Belém. Costa lidera uma equipe de mais de 200 pesquisadores, de perfil multidisciplinar, que se dedicam ao estudo e prospecção de insumos da Amazônia para setores de alimentos, cosméticos e bioprocessos. O conhecimento acumulado pelo grupo sobre as características, funcionalidades e aplicações desses produtos locais é uma das chaves do projeto.

Recentemente, o grupo desenvolveu um bioplástico a partir do óleo extraído da castanha da andiroba, uma planta nativa da região amazônica já conhecida pelas suas propriedades anti-inflamatórias e uso na indústria de cosméticos.

Esse é apenas um exemplo da atuação do laboratório na região, mas ilustra bem como o projeto pode se conectar com atividades já existentes. “Temos na Amazônia comunidades que já fazem um trabalho extrativista e de beneficiamento das sementes. Podemos usar os subprodutos desse processo e assim fortalecer uma cadeia produtiva que vai favorecer a viabilidade comercial”, explica o pesquisador. “Uma coisa que consideramos importante para este projeto é que ele seja viável economicamente, por isso a importância de fortalecer as cadeias que já existem”, aponta o coordenador.

O Pró-Amazônia busca fomentar o estabelecimento de redes de pesquisa e promover a ampliação da pesquisa e do desenvolvimento científico na Amazônia. Além da Unesp, da UFPA e do Observatório Nacional, também participam da rede o Instituto de Investigaciones de la Amazonía Peruana (IIAP), no Peru, que possui expertise em bioarquitetura e materiais amazônicos.

O novo projeto está dividido em três partes. A primeira parte envolve a seleção e caracterização dos principais materiais, considerando suas funcionalidades. Dessa forma, fibras de miriti, tucumã, murumuru, bambu e outras espécies nativas amazônicas serão estudadas para pesquisa de seus potenciais como isolantes térmicos, impermeabilização, resistência mecânica, além do breu branco e da borracha como ligantes naturais. Ensaios no laboratório da UFPA avaliarão essas funcionalidades, enquanto a estrutura da Unesp, no câmpus de Itapeva, realizará ensaios físicos e mecânicos dos componentes construtivos.

Na segunda etapa serão desenvolvidos os painéis modulares de montagem simples a partir de técnicas como prensagem a frio e moldagem a vácuo. A prototipagem será feita no câmpus de Itapeva em testes de escala real. A terceira etapa consiste na validação do sistema construtivo junto a comunidades tradicionais da Amazônia, por meio de parcerias com associações de comunidades ribeirinhas e indígenas. Ao mesmo tempo, um protótipo será instalado na Ilha de Tatuoca, após testes preliminares que vão analisar se a interferência dos materiais é, de fato, desprezível.

Na avaliação dos pesquisadores, essa solução poderá ser a primeira do Brasil a unir sustentabilidade amazônica, com uso de materiais locais e técnicas de baixo impacto, à compatibilidade magnética cientificamente validada, tornando-se uma opção adequada para aplicações em pesquisas científicas de precisão em comunidades tradicionais.

Vista da Ilha de Tapuoca. Foto: Divulgação
Vista da Ilha de Tapuoca. Foto: Divulgação

Sistema anterior de construção não pode ser repetido

O último prédio do observatório foi feito com madeira de ipê tratada em autoclave, uma técnica que proporciona maior resistência às intempéries. “Essa estrutura durou 50 anos, mas hoje é praticamente inviável reconstruí-la dessa forma por conta do preço da madeira e da quantidade necessária”, diz Mendel.

O professor explica que o novo projeto pode representar uma mudança de paradigma na forma de pensar essas construções. “Em geral, essas são estruturas feitas para durar muito tempo. Quando estragam, uma nova é construída. Nossa proposta é que este seja um projeto modular. Quando sofrer avarias, rapidamente poderemos desmontá-la e remontá-la. Isso vai interromper a leitura por uma semana ou, no máximo, duas, sem impactar profundamente a série temporal de aquisição de dados”, diz.

Para o coordenador Carlos Emmerson da Costa, a proposta pode colaborar para viabilizar a atividade extrativista. Além do fortalecimento das cadeias produtivas, é possível pensar em estruturas para o estoque dos produtos coletados ou para guardar materiais e ferramentas usados nesse trabalho. Trata-se de viabilizar renda e qualidade de vida para quem sempre viveu e cuidou da floresta. “Se não conseguirmos dar condições para que os povos da Amazônia consigam se sustentar da floresta e na floresta, não temos como falar em preservação”, afirma.

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