
Produtos como soda cáustica, desentupidor, alvejante e limpa-forno fazem parte da rotina de limpeza de muitas famílias, mas também representam um risco real quando ficam ao alcance de crianças. Um descuido de segundos pode deixar marcas para uma vida inteira.
Em Mato Grosso do Sul, o Centro de Endoscopia Avançada do HRMS (Hospital Regional de Mato Grosso do Sul) é referência estadual no atendimento de pacientes que ingeriram produtos cáusticos e corrosivos, como soda cáustica e limpa-forno, por exemplo.
A médica endoscopista Caroline Leonardi, que atua na unidade, explica que as principais vítimas são crianças de até cinco anos de idade, mas que também há casos frequentes entre adultos.
“Esses produtos, quando ingeridos, causam queimaduras graves no esôfago, no estômago e até no trato respiratório. Em casos mais severos, as lesões podem evoluir para perfurações e provocar complicações a longo prazo, como o estreitamento do esôfago, que impede o paciente de ingerir alimentos ou líquidos normalmente”, explica a médica.

Quando o estreitamento ocorre, o paciente precisa passar por procedimentos periódicos de dilatação do esôfago, realizados pelo Centro Avançado de Endoscopia. Caroline ressalta que, em Mato Grosso do Sul, ainda é comum a produção caseira de sabão, o que aumenta o risco de acidentes.
“Muitas pessoas armazenam a soda diluída em garrafas reaproveitadas, como de água mineral ou refrigerante. No descuido, alguém pode acabar ingerindo, achando que é água. Por isso, precisamos conscientizar, orientar e evitar o acesso a esse tipo de material”, alerta.
A médica reforça que, em caso de ingestão acidental, a orientação é procurar imediatamente uma UPA (Unidade de Pronto Atendimento) ou um CRS (Centro Regional de Saúde) mais próximo. Se houver necessidade, o paciente será encaminhado à unidade de referência por meio da regulação.
Um acidente que mudou uma vida
Tamara Ferreira Araújo, de 29 anos, sabe bem o quanto uma fração de minuto descuido pode mudar tudo. Em abril deste ano, sua filha Ana Alice, de apenas seis anos, ingeriu acidentalmente um produto usado para desentupir pias.
Tamara conta que havia preparado o produto para usar na cozinha e o deixou diluído em um copo sobre a mesa. Enquanto isso, dava os remédios controlados que a filha toma diariamente. “Saí por um instante para atender minha outra filha, que me chamou, e logo ouvi a Ana Alice dizendo que ‘parecia dipirona’. Voltei correndo e fiquei em choque quando vi que ela tinha ingerido. Foi muito rápido”, relembra.
Logo após o incidente, a menina começou a tossir, tremer e suar muito. A mãe correu com ela ao CRS mais próximo, de onde foi transferida para o HRMS. Inicialmente, Ana Alice ficou quatro dias internada, mas após receber alta, precisou retornar e permaneceu três meses hospitalizada.
Hoje, Ana Alice está em casa, mas ainda enfrenta um longo caminho de recuperação. O estômago chegou a necrosar e, atualmente, ela precisa retornar semanalmente ao HRMS para dilatação do esôfago. Também passa por acompanhamento com cirurgião, fonoaudiólogo, nutricionista, psicólogo e neurologista.
“Eu diria para todos os pais: não deixem nada ao alcance das crianças, porque pode acontecer num piscar de olhos”, alerta Tamara.
Conscientizar para prevenir
Patrícia Belarmino, Comunicação HRMS
Fotos: Patrícia Belarmino
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