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Motta trava PL da Dosimetria após Senado sinalizar ser contra redução de penas

Motta trava PL da Dosimetria após Senado sinalizar ser contra redução de penas

15/10/2025 às 08h27
Por: Redação Fonte: Agência Globo
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Motta trava PL da Dosimetria após Senado sinalizar ser contra redução de penas

Motta trava PL da Dosimetria após Senado sinalizar ser contra redução de penas.

 

Líderes temem que texto seja aprovado pela Câmara e senadores decidam engavetar.

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidiu segurar as articulações envolvendo o projeto que reduz as penas para aqueles que participaram de atos golpistas. Conhecido como PL da Dosimetria, o texto pode beneficiar o ex-presidente Jair Bolsonaro. Líderes partidários dizem que uma falta de acordo com o Senado travou as negociações e tem impedido o relator, o deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), de apresentar o parecer.

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Motta, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), o relator e líderes partidários da Câmara participaram de uma reunião na semana para discutir a iniciativa. Segundo relatos, Alcolumbre criticou o projeto na reunião e indicou que haveria dificuldades para ele ser aprovado pelo Senado. 

Mesmo assim, integrantes da Câmara que participaram do encontro tinham a expectativa de que Alcolumbre procurasse líderes do Senado para ajustar um texto que fosse de comum aceitação entre as duas Casas, o que não aconteceu.

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Pelos planos traçados inicialmente pelo relator, os senadores trariam sugestões para o texto e, após isso, o parecer seria apresentado e o projeto votado pela Câmara nesta semana. Sem o retorno do presidente do Senado, Motta decidiu não incluir o projeto na previsão de votações da semana e tem evitado dar um prazo para o projeto ser analisado.

“Ninguém tem texto para discutir. Não sei o que eles estão querendo, nem o texto do Paulinho a gente conhece. Não tem acordo. Isso não é pauta minha, sou contra qualquer uma dessas coisas. Eu sou contra anistia a bandido que depredou o Congresso Nacional”, disse o líder do PSD no Senado, Omar Aziz (AM).

O líder do partido, que é o segundo maior do Senado, evitou dizer se o Senado se recusaria a analisar o projeto, mas indicou que há dificuldades.

“Não sei se morre no Senado, é muito cedo para falar isso, mas não é tão simples assim (aprovar).”

O entendimento é compartilhado pelo líder do PDT na Câmara, Mário Heringer (MG). O partido representado por ele foi uma das poucas bancadas que não se reuniu com Paulinho

“Caducou. Oposição perdeu o gás”, declarou o pedetista.

O relator na Câmara passou as últimas semanas ouvindo as bancadas partidárias da Câmara e se reuniu com PL, PT, União Brasil, PP, Republicanos, MDB, PSD, PSDB, Podemos, Solidariedade, Avante, PRD e Novo. Com exceção do PT, que é contra reduzir penas e PL e Novo, que defendem uma anistia ampla, todas as bancadas se mostraram abertas a apoiar o relatório, mas aguardam a oficialização.

O entendimento é que o projeto de redução de penas tem ampla aceitação dos partidos de centro na Câmara e de uma parte da oposição, mesmo que o discurso do bolsonarismo seja por uma anistia ampla. 

Ainda assim, há o temor que o Senado se recuse a analisar o projeto ou vote para rejeitar. Deputados temem uma reação popular contra a redução de penas. Algo similar aconteceu na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Blindagem, que dificulta investigações contra parlamentares. A PEC foi aprovada pela Câmara e, após  reação popular, foi rejeitada pelos senadores.

Uma das versões do texto, que ainda não é definitiva porque o relatório não foi protocolado, reduz as penas e unifica os crimes de golpe de Estado e abolição violenta do Estado democrático de Direito, além de reduzir os crimes de dano qualificado e de deterioração de patrimônio tombado. Com isso, a pena de Bolsonaro no caso da trama golpista teria uma redução que poderia ser de 7 a 11 anos. 

O relator também já disse que a sua versão da proposta vai ser o suficiente para tirar todos que hoje estão presos por estarem nos atos do 8 de janeiro de 2023.

Pauta de consenso

Motta manteve nesta semana a estratégia de votar apenas projetos sem atrito com o Senado. Desde a derrota na PEC da Blindagem, Motta tem apostado em uma gestão de previsibilidade — evitando ruídos com o Senado — e escolhendo votações de baixo risco, como o pacote de educação que dominou o plenário na terça-feira e retorna nesta quarta.

Antes, a Câmara já havia aprovado a MP dos Mais Especialistas, a ampliação da isenção do imposto de renda e o regime de urgência de oito propostas sobre segurança pública, todas votações sem atrito político. A leitura entre líderes é que ele tenta consolidar a imagem de um presidente que entrega resultados sem provocar crises.

A oposição, no entanto, tenta reabrir o debate sobre a dosimetria e cobrar posicionamento do plenário.

“Não sei quando o texto vota. Temos que resolver alguns problemas. Tem que ver ainda”, disse o relator, Paulinho da Força (Solidariedade-SP).

Ao ser questionado se o impasse se deve à falta de entendimento com o Senado, o deputado respondeu:

“Vamos discutir. Quem sabe resolve.”

A cautela de Motta nesta semana também tem origem no desgaste provocado pela Medida Provisória 1303, que tratava do IOF sobre investimentos no exterior e das isenções para LCI e LCA. Mesmo após semanas de negociações entre o ministro Fernando Haddad e o relator, Carlos Zarattini (PT-SP), a MP acabou derrubada na Câmara. A derrota irritou a base do governo e teria feito o presidente aderir novamente à estratégia de acalmar os ânimos.

Nos bastidores, deputados da base relatam que a avaliação é a de que o governo “remou e morreu na praia” — e que a Câmara não pode repetir o cenário de improviso e fragmentação que marcou aquela votação.

Aliados dizem que a nova postura é também uma tentativa de marcar distância de Arthur Lira (PP-AL), cujo estilo de empilhar pautas polêmicas. Motta, avaliam, prefere acumular pequenas vitórias que reforcem sua imagem de articulador confiável, mesmo que isso signifique abrir mão de protagonismo.

O pacote de educação, que inclui projetos como o piso salarial para professores temporários e incentivos a estudantes de licenciatura, tornou-se a vitrine dessa estratégia. Deputados afirmam que o tema reúne consenso entre as bancadas — prova disso é que oito propostas foram aprovadas em poucas horas, por unanimidade, nesta terça-feira.

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