Zhang foi detida em 2020 após divulgar vídeos que mostravam hospitais lotados e ruas vazias em Wuhan, contrariando a versão oficial de Pequim.
A jornalista chinesa Zhang Zhan (foto), de 42 anos, foi novamente condenada a quatro anos de prisão, segundo denúncia da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF). Ela já havia cumprido pena idêntica após documentar os primeiros surtos de Covid-19 em Wuhan, no epicentro da pandemia.
Zhang foi detida inicialmente em 2020, acusada de “provocar conflitos e causar problemas”, após publicar vídeos e relatos que mostravam hospitais superlotados e ruas desertas, em contraste com a versão oficial das autoridades da China. A nova condenação ocorre agora pelas mesmas acusações.
Em comunicado, Aleksandra Bielakowska, responsável pela advocacia da RSF na Ásia-Pacífico, afirmou
“Zhang Zhan deveria ser celebrada globalmente como heroína da informação, e não detida em condições brutais. Este calvário e perseguição têm de acabar. É mais urgente do que nunca que a comunidade diplomática internacional pressione Pequim para que Zhang seja libertada imediatamente.”
Detida em maio de 2020, Zhang iniciou uma greve de fome poucas semanas após ser presa.
Documentos judiciais consultados pela Reuters mostram que ela foi alimentada à força com sondas nasogástricas e teve as mãos imobilizadas pela polícia.
A jornalista cumpriu quatro anos de prisão e foi libertada em maio de 2024. No entanto, três meses depois foi novamente detida e transferida para o Centro de Detenção de Pudong, em Xangai, onde permanece.
Segundo a RSF, a nova acusação estaria ligada a comentários publicados em sites estrangeiros.
Ren Quanniu, advogado de Zhang durante a primeira prisão, afirmou que ela acreditava estar sendo “perseguida por exercer a sua liberdade de expressão”.
Em publicação no X, Ren afirmou que as novas acusações “se baseiam em comentários em sites estrangeiros, pelo que Zhang não devia ser considerada culpada”.
Desde o início da pandemia, Zhang tornou-se um símbolo da repressão contra jornalistas independentes na China.
Em 2021, a Human Rights Watch (HRW) alertou para as condições precárias nos centros de detenção do país, e denunciou alimentação mínima, falta de cuidados médicos e violações de direitos humanos.
Segundo a organização, Zhang, com 1,77 metro de altura, chegou a pesar menos de 40 quilos durante a prisão.
“Sentenças injustas contra ativistas na China frequentemente resultam em morte”, afirmou a HRW.
Já a RSF lembra que a China ocupa a 172ª posição entre 180 países no Índice Mundial de Liberdade de Imprensa. Outros jornalistas que relataram a crise sanitária em Wuhan também foram detidos.