Ucrânia e Rússia poderão voltar à mesa de negociações nesta quarta-feira (23), em Istambul, para tentar avançar rumo a um possível cessar-fogo — a primeira reunião entre representantes dos dois países em mais de sete semanas. Apesar de Kiev ter confirmado presença, o Kremlin ainda não oficializou sua participação e já advertiu que não se deve esperar “avanços milagrosos”.
O encontro ocorre sob crescente pressão internacional, especialmente dos Estados Unidos. O presidente Donald Trump deu recentemente a Moscou um prazo de 50 dias para chegar a um acordo de paz, sob risco de novas sanções. O conflito, iniciado com a invasão russa em fevereiro de 2022, já deixou dezenas de milhares de mortos e devastou regiões inteiras do leste e sul da Ucrânia.
O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, confirmou que a delegação será liderada por Rustem Umérov, ex-ministro da Defesa e atual secretário do Conselho de Segurança Nacional. “Determinei a formação da delegação para as negociações com a parte russa. A delegação será chefiada por Rustem Umérov”, escreveu Zelensky em seu canal no Telegram. Também farão parte da equipe representantes do Ministério das Relações Exteriores, da inteligência e do gabinete presidencial.
Umérov já esteve à frente das duas rodadas anteriores, também realizadas em Istambul, em 15 de maio e 2 de junho. Na ocasião, os dois lados chegaram a acordos pontuais, como trocas de prisioneiros, e apresentaram suas propostas iniciais para um eventual tratado de paz — documentos que, segundo Moscou, continham posições “diametralmente opostas”.
Desta vez, a Ucrânia pretende focar em temas humanitários, como a libertação de todos os cidadãos ucranianos mantidos em cárcere na Rússia e o retorno de menores levados à força para o território russo. Outro objetivo, segundo Zelensky, é preparar o terreno para um eventual encontro direto com o presidente russo Vladimir Putin — o primeiro desde 2019. O Kremlin, no entanto, já afirmou que “muito trabalho” ainda será necessário antes que uma reunião bilateral possa ser considerada.
Paralelamente, a Rússia intensificou seus ataques contra cidades ucranianas nas últimas semanas e reivindicou avanços militares em várias frentes, o que eleva a tensão no processo diplomático. A principal barreira segue sendo a questão territorial.
Moscou exige que qualquer acordo reconheça sua soberania sobre quatro regiões ucranianas anexadas em setembro de 2022, além da Crimeia, ocupada desde 2014. Kiev, por sua vez, rejeita qualquer negociação que envolva concessões territoriais enquanto houver ocupação russa. “Não haverá cessão nem reconhecimento do que é ilegal”, têm afirmado repetidamente autoridades ucranianas.
Do lado russo, a expectativa é que a delegação volte a ser liderada por Vladimir Medinski, assessor do Kremlin e representante nas duas rodadas anteriores. Ele é visto por Kiev como uma figura com pouca autonomia política, o que levanta dúvidas sobre o real compromisso da Rússia com as negociações.
A Turquia, anfitriã do encontro, tem apelado às partes para que “não fechem a porta ao diálogo”, segundo declarou o presidente Recep Tayyip Erdoğan. Ancara atua desde o início da guerra como mediadora, embora os esforços anteriores não tenham gerado resultados duradouros.
A reunião desta quarta-feira marca mais uma tentativa de retomada diplomática em um cenário de estagnação, onde as posições centrais dos dois governos permanecem irreconciliáveis e a situação no campo de batalha segue se deteriorando.