Gravação da caixa-preta e detalhes do relatório indicam que o capitão do voo desligou o fluxo de combustível para os motores.
Uma gravação da cabine de comando do condenado voo 171 da Air India indica que o copiloto mais jovem perguntou ao seu colega mais experiente por que ele desligou os interruptores de fornecimento de combustível do avião, segundo pessoas familiarizadas com o assunto.
A informação, de pessoas que pediram para não ser identificadas por não estarem autorizadas a falar publicamente, revela pela primeira vez quem disse o quê na cabine de comando. A troca foi mencionada pela primeira vez no relatório preliminar da semana passada do Escritório de Investigação de Acidentes Aéreos da Índia (AAIB), que investiga o acidente de 12 de junho na cidade ocidental de Ahmedabad, mas sem identificar os interlocutores.
O relatório mostrou que dois interruptores de combustível na cabine foram movidos para a posição de corte, fazendo com que o Boeing 787 Dreamliner perdesse sustentação e caísse 32 segundos após a decolagem. O outro piloto negou ter desligado os interruptores, segundo o AAIB, que extraiu dados do gravador de voz da cabine.
Especialistas em aviação especularam que foi o primeiro oficial Clive Kunder quem fez a pergunta ao capitão Sumeet Sabharwal, dado que Kunder era o piloto que estava voando e teria as mãos ocupadas — uma no manche comandando o widebody para os céus, e a outra na alavanca do acelerador controlando a velocidade da aeronave. O Wall Street Journal já havia relatado quem disse o quê na troca.
A investigação inicial mostrou que os interruptores de controle de combustível foram desligados imediatamente após a decolagem. Embora a ação tenha sido revertida cerca de 10 segundos depois, já era tarde demais para evitar o acidente de 12 de junho que matou 260 pessoas a bordo e no solo.
Como e por que os interruptores foram desligados — cortando o fluxo de combustível para os motores — são agora as principais linhas de investigação. As autoridades estão apurando se isso pode ter sido resultado de uma falha nos sistemas da aeronave ou de uma ação humana — deliberada ou inadvertida.
Os dois interruptores ficam na parte inferior do console central da aeronave, entre os dois assentos dos pilotos e perto das alavancas de empuxo, e são projetados para evitar movimentos não intencionais. Há protetores metálicos em ambos os lados dos botões em forma de cogumelo, e os próprios interruptores têm um mecanismo de trava com mola, exigindo um movimento de puxar para cima para mudar a posição. Uma aba na base trava o interruptor na posição uma vez movido.
Embora os novos detalhes tragam uma nova perspectiva sobre a confusão na cabine durante os 32 segundos entre a decolagem e o acidente, os investigadores ainda não chegaram a conclusões definitivas.
Em um comunicado na quinta-feira, o AAIB alertou para não tirar conclusões precipitadas sobre o que aconteceu, e que um relatório final incluirá as causas raízes e recomendações.
“Neste estágio, é muito cedo para chegar a conclusões definitivas”, disse a agência. “A investigação do AAIB ainda não está completa.”
A gravação da cabine pode ser ainda mais reveladora, segundo Michael Daniel, inspetor aposentado da Administração Federal de Aviação dos EUA (FAA) e investigador de acidentes.
“Há múltiplos microfones ao redor da cabine, incluindo nos headsets deles”, disse Daniel.
A posição dos microfones significa que é possível que tenha sido capturado e identificado não apenas o som dos interruptores de combustível sendo desligados, mas a direção de onde veio na cabine — oferecendo aos investigadores informações definitivas sobre quem cortou o fornecimento de combustível aos motores do avião, afirmou.
No início desta semana, a autoridade de aviação civil da Índia ordenou uma inspeção dos interruptores de combustível na cabine de aeronaves Boeing 737 e 787 que operam no país, em um esforço para determinar se o acidente foi causado por falha de equipamento.
Psicólogos da aviação e especialistas médicos também estão envolvidos na investigação — uma prática comum na indústria da aviação — para apurar o papel dos pilotos no acidente.Continua depois da publicidade
O primeiro oficial expressou surpresa ao ver que os interruptores de combustível estavam desligados e depois entrou em pânico, relatou o Wall Street Journal, citando pessoas familiarizadas com a avaliação inicial das autoridades dos EUA. O capitão parecia manter a calma, segundo o relatório. A Associação de Pilotos de Linha Aérea da Índia rejeitou a hipótese de ação humana como causa.
O Conselho Nacional de Segurança nos Transportes dos EUA (NTSB), que está auxiliando na investigação, encaminhou perguntas às autoridades indianas. A Boeing também encaminhou perguntas ao AAIB. A Air India e a GE Aerospace, fabricante dos motores, preferiram não comentar.
O CEO da Air India, Campbell Wilson, disse em um memorando aos funcionários na segunda-feira, visto pela Bloomberg News, que o relatório não identificou causa nem fez recomendações. “Peço a todos que evitem tirar conclusões precipitadas, pois a investigação está longe de terminar”, afirmou.