Para ilustrar o que está em jogo, Ferguson recorre ao universo do jogo Minecraft: “O único problema é que, sob esse Mundo Superior idílico, está o Nether — um regime totalitário horrível”. Segundo ele, esse cenário resume bem os riscos da nova política comercial dos EUA, batizada ironicamente de “Projeto Minecraft”.
Embora Trump diga querer restaurar a indústria americana e combater a “globalização”, Ferguson afirma que, na prática, está promovendo o fim do império americano que surgiu após a Segunda Guerra Mundial.
“Os americanos sentirão falta da globalização e de serem os policiais do mundo”, escreveu. Ele argumenta que o retorno ao isolacionismo e ao protecionismo do início do século 20 é um erro histórico: “A seta do tempo não voa para trás”.
Trump anunciou tarifas de 10% sobre todos os países e adicionais de até 44% sobre parceiros com maior déficit comercial com os EUA. China foi a mais atingida: os produtos chineses agora enfrentam uma tarifa total de 76%.
Ferguson ironiza: “Trump chamou isso de ‘Dia da Libertação’ — uma ‘Declaração Econômica de Independência’. Os economistas chamam simplesmente de: protecionismo”.
As justificativas oficiais foram desmentidas por cálculos absurdos. Segundo o Washington Post, a fórmula para determinar as tarifas foi “dividir o déficit comercial por importações e multiplicar por 0,5”. O jornalista James Surowiecki ridicularizou: “Isso é como todo artigo acadêmico idiota que encobre uma besteira com símbolos gregos”.
No centro da disputa interna da Casa Branca, assessores como Peter Navarro e Stephen Miller teriam vencido a ala mais moderada, liderada pelo secretário do Tesouro Scott Bessent. Segundo um funcionário anônimo, “Trump está no ponto de simplesmente não ligar mais”.
O impacto imediato foi catastrófico. O índice S&P 500 caiu 10,5% em dois dias — a 16ª pior queda da história. Produtos importados encareceram: “Um iPhone ficará 54% mais caro. Preços de roupas vão subir 17%”. Ferguson alerta que o efeito será inflacionário e recessivo: “Trump pode até reduzir o déficit comercial – destruindo a economia dos EUA”.
Mesmo aliados, como Vietnã e Israel, foram tarifados. Ferguson destaca a contradição: “As tarifas punitivas sobre aliados importantes da Europa e da Ásia zombam da ideia de que há alguma ligação nova entre política comercial e segurança estratégica”.
A China reagiu imediatamente, com tarifas retaliatórias de 34% a partir desta quarta, 10. Ferguson prevê que a União Europeia fará o mesmo, ampliando a guerra comercial. “O déficit fiscal vai crescer, não diminuir. O dólar enfraqueceu, e as ações caíram”, observou.
Trump afirma que reindustrializará os EUA em dois anos. Ferguson desmonta essa promessa: “Isso é pura fantasia”. Segundo ele, falta mão de obra, energia, tempo e infraestrutura para uma retomada industrial significativa. “Os custos de terra e trabalho são altos demais. A oferta de energia está comprometida com data centers”.
Além disso, as cadeias produtivas globais são hoje tão integradas que tentar isolá-las é contraproducente. Ferguson cita estudos do Banco de Compensações Internacionais e da Asia Times que mostram como produtos chineses continuam chegando aos EUA por países intermediários, como México e Vietnã: “As novas tarifas estão tentando impedir isso, mas têm tanta chance de sucesso quanto você tentando consertar um laptop congelado com um martelo do Minecraft”.
Ao final, Ferguson conclui que Trump está apenas acelerando a decadência do império americano: “Se o seu desejo é ver proletários americanos cavando carvão e fabricando Cadillacs, crie reservas de Minecraft. Não tente reverter a história econômica”. A provocação resume o tom do texto: “Por favor, confie em mim: você vai sentir falta do império americano quando ele se for”.
Quem é Niall Ferguson
Niall Ferguson é um historiador britânico, professor da Universidade Stanford e autor de best-sellers como Império, Civilização e Colossus: The Rise and Fall of the American Empire.
Conhecido por suas análises sobre história econômica e geopolítica, venceu o prêmio Benjamin Franklin e foi colaborador sênior da Hoover Institution. Já escreveu para The Economist, Financial Times e The New York Times. É um dos principais intelectuais públicos do Reino Unido.