Centro Administrativo Municipal de João Pessoa. Talvez, muitos olhem para o ambiente e vejam apenas um complexo burocrático onde estão instaladas várias áreas responsáveis por planejar, administrar, fiscalizar e executar políticas públicas da cidade. No entanto, ali funciona o coração da Prefeitura, e por trás das paredes esse coração bate num compasso harmônico a bombear para o cérebro um desejo coletivo.
A fala de Felipe Sarmento é um dos conceitos mais sensíveis sobre a Iniciativa Futuro – projeto que visa um novo modelo de escola em tempo integral e, para além disso, desenvolve ações de contraturno escolar onde o aluno escolhe as atividades que ele quer fazer.
Talvez você ainda não tenha entendido muito bem sobre o que estamos falando. Calma! Continua lendo nossa série, que será dividida em duas grandes reportagens, porque vamos explicar todos os detalhes da Iniciativa Futuro, pois mais que um programa, ela é uma política educacional em tempo integral da Secretaria de Educação e Cultura de João Pessoa (Sedec-JP).
O quadro acima resume o conceito didático da Iniciativa Futuro. Mas, pegando a linha mais lúdica de Felipe Sarmento, podemos dividir essa política educacional em três pontos importantes para as vidas dos alunos da Rede Municipal de Educação. O primeiro ponto é ‘permanecer’; o segundo, ‘descobrir’; e o terceiro, ‘construir’.
Vamos compreender essa linha de raciocínio – A parte de permanecer representa o vínculo com a escola. Nessa etapa, a Iniciativa Futuro se apresenta como uma estratégia para incentivar a permanência escolar e valorizar a trajetória dos estudantes. A frequência, o desempenho e o incentivo financeiro entram aqui.
Incentivo financeiro? Sim! A Iniciativa Futuro é a política educacional que também atua financeiramente nas vidas dos estudantes e de suas famílias. É por isso que lá em cima tem a frase “Pé-de-Meia Municipal”.
Os alunos do 8º ano recebem R$ 200 da adesão, onde R$ 100 poderão ser resgatados e os outros R$ 100 ficam na poupança. São R$ 1.800 pela frequência (valor dividido em nove parcelas), sendo R$ 100 resgatáveis e R$ 100 em poupança por parcela. Um valor total de R$ 2 mil.
Os alunos do 9º ano seguem o mesmo formato, sendo que eles recebem R$ 1 mil a mais caso façam a matrícula no Ensino Médio após a conclusão do Ensino Fundamental II, totalizando R$ 3 mil. Os líderes dos 8º e 9º anos ainda recebem mais R$ 100, por mês, em seu benefício frequência, chegando a R$ 1 mil no final.
“O aluno tem que cumprir requisitos, tem que frequentar a escola regular, tem que participar dos clubes, zelar pelo espaço. Ele é agente fomentador, buscando outros estudantes para aquilo que ele ache interessante, não deixe de existir na escola. Mas, o Poupança de Futuro é só uma parte da proposta. O dinheiro é o resultado da escola interessante que o aluno tem acesso. Se fosse só pagar por pagar não teria alegria para ele ficar lá”, completa Felipe Sarmento.
A maior inovação é fazer diferente – Agora, vamos falar sobre ‘descobrir’. A Iniciativa Futuro pensa a escola para ser agradável e desejável pelo aluno que ficará no contraturno. É o momento de ampliar as experiências que transpassam as salas de aulas convencionais. É a hora onde os estudantes têm o poder de escolher entre várias expressões: esporte, cultura, robótica, inteligência artificial, leitura e várias novas formas de aprendizagem. É quando eles percebem que existem mais possibilidades do que se imaginava.
O projeto não foi pensado apenas como uma forma de ampliar o tempo que o estudante permanece dentro da escola, mas como uma mudança na própria maneira de compreender esse tempo. É uma diferença que começa pela possibilidade de escolha. No início do ano, os estudantes participaram da Feira dos Clubes, momento em que puderam dizer quais atividades gostariam de fazer. A partir dessas escolhas, a rede buscou profissionais para conduzir os clubes, seguindo processo seletivo e os requisitos estabelecidos em edital, de acordo com a necessidade de cada unidade escolar. “O aluno é quem manda”, resume Raquel Dantas, coordenadora da Iniciativa Futuro.
A frase sintetiza uma das mudanças propostas pela política: tirar o estudante da condição de mero receptor e colocá-lo no centro da construção da própria experiência escolar – ele vira protagonista. O contraturno passa, assim, a ser também espaço de descoberta, experimentação e desenvolvimento de interesses que nem sempre encontram lugar na rotina tradicional da sala de aula.
A proposta é fazer com que o tempo adicional não seja apenas preenchido, mas tenha propósito. E, para isso, existe outro desafio: construir a constância da participação. “A gente tem trabalhado a constância do aluno. Muitos diziam que eles não queriam participar das atividades, mas a gente tem criado essa constância, esse entendimento de que eu tenho meu momento para me desenvolver”, acrescenta Raquel.
Mas, para Raquel, a inovação não se resume à tecnologia, aos clubes ou ao desenho da jornada ampliada. Existe uma dimensão mais profunda por trás da proposta e ela se mistura com a própria história da educadora. “A escola é um espaço para o estudante ser ouvido, respeitado, acreditado, abrigado. A gente se emociona muito em ver que está dando certo”.
Construir o futuro – Se permanecer significa criar vínculo e descobrir significa abrir espaço para que o estudante encontre novos interesses, construir é dar sentido a tudo aquilo que foi vivido no presente. É quando a experiência escolar começa a se transformar em autonomia, confiança, habilidades e possibilidades para o futuro.
Mas essa construção não começa amanhã – no futuro. Ela acontece agora, no presente. Para Priscila Dias, também coordenadora da Iniciativa Futuro, muitas crianças só passam a enxergar novas possibilidades quando a escola consegue oferecer experiências que antes pareciam distantes. “Muitos só veem a escola quando a gente começa a oportunizar novas vivências. Esses acessos que hoje a Iniciativa traz para o aluno”, ressalta.
A mudança começa na própria maneira de olhar para a escola. Crianças que antes a associavam apenas à sala de aula, ao quadro e às atividades tradicionais, passam a descobrir outros espaços de aprendizagem. Há os clubes, o contraturno, o plantão de estudos e as atividades que eles próprios ajudam a criar.
O verbo construir, nesse caso, deixa de ser apenas uma ideia sobre o futuro. Ele passa a aparecer nas pequenas mudanças do cotidiano. Priscila conta que já viu alunos que, um ano antes, tinha dificuldade de manter em sala de aula por causa da indisciplina, assumirem a liderança de atividades.
São mudanças que não aparecem imediatamente em uma planilha. Elas acontecem na rotina, na presença, na participação e na relação que a criança passa a estabelecer com a escola. “Não dá para medir em números. A oportunidade que eles têm, a gente sonhava com isso. É muito bacana chegar à escola e participar do que está acontecendo, ver eles engajados e isso também deixa feliz nossa criança”, finaliza Priscila.
Por isso, a construção do futuro não acontece apenas quando o estudante conclui uma etapa, consegue um emprego ou realiza um projeto de vida. Ela começa quando ele percebe que pode fazer parte da própria trajetória. E é justamente nesse encontro, entre uma escola que oferece possibilidades e um estudante que passa a acreditar que pode escolhê-las, que construir deixa de ser uma promessa para o futuro e passa a ser uma experiência do presente.
Na reportagem de amanhã, vamos até uma escola onde foi implementada a Iniciativa Futuro para conhecer o programa na prática.