Chefe do Pentágono afirma que grupos classificados como terroristas podem entrar na mira dos EUA em operações na América Latina.
O secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, afirmou que organizações classificadas por Washington como terroristas podem ser consideradas alvos legítimos de operações norte-americanas na América Latina.
A declaração foi feita na quinta-feira (13), durante uma entrevista no Panamá, em meio ao avanço da estratégia do governo Donald Trump contra cartéis e grupos criminosos na região.
A fala chama atenção no Brasil porque o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), duas das maiores organizações criminosas brasileiras, foram oficialmente classificados pelos Estados Unidos como organizações terroristas em maio deste ano.
A medida colocou as duas facções sob o alcance de instrumentos de combate ao terrorismo e de sanções financeiras aplicadas pelo governo norte-americano.
Questionado sobre a possibilidade de operações militares contra grupos armados que atuam na Colômbia, Hegseth confirmou que dissidentes das antigas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) e integrantes do Exército de Libertação Nacional (ELN) poderiam estar entre os alvos.
Em seguida, ampliou a afirmação para outras organizações terroristas designadas pelos Estados Unidos.
Segundo o secretário, grupos classificados dessa maneira podem ser tratados como alvos legítimos em ações realizadas pelos Estados Unidos em conjunto com governos parceiros, citando especificamente a Colômbia.
O país colombiano passou recentemente a integrar a coalizão Escudo das Américas, iniciativa de segurança regional liderada por Washington para ampliar a cooperação contra organizações criminosas e redes de narcotráfico.
A declaração não representa, até o momento, um anúncio de operação militar norte-americana contra o PCC ou o Comando Vermelho em território brasileiro.
Também não houve anúncio de uma autorização específica para ataques contra as duas facções no Brasil.
O que Hegseth sinalizou foi a possibilidade de emprego de força contra organizações que Washington tenha oficialmente classificado como terroristas, especialmente em ações realizadas com governos parceiros.
A classificação das duas facções brasileiras pelos Estados Unidos ocorreu em 28 de maio. Na ocasião, o Departamento de Estado afirmou que PCC e CV estão entre as organizações criminosas mais violentas do Brasil e destacou a dimensão de suas estruturas e atividades.
A mudança trouxe consequências práticas no sistema financeiro norte-americano.
O Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (OFAC), ligado ao Departamento do Tesouro, passou a registrar o Comando Vermelho e o PCC nas categorias de organização terrorista estrangeira (FTO) e terrorista global especialmente designada (SDGT).
Com a designação, os Estados Unidos podem bloquear bens e ativos sujeitos à jurisdição norte-americana pertencentes às organizações ou a pessoas relacionadas a elas, além de impor restrições a determinadas transações.
A medida também aumenta o risco de sanções para indivíduos e empresas que prestem apoio financeiro ou material às facções.
O governo norte-americano já vinha ampliando a pressão sobre estruturas financeiras relacionadas ao PCC.
Em julho, o Tesouro dos EUA anunciou sanções contra dois brasileiros, três empresas brasileiras e uma empresa portuguesa apontados como integrantes de uma rede ligada à lavagem de dinheiro para a organização.
Segundo o governo americano, a rede movimentou mais de US$30 milhões em recursos ilícitos gerados nos Estados Unidos e utilizava criptomoedas para transferir valores ao Brasil.
Ainda de acordo com o Tesouro, o PCC passou a ser considerado uma ameaça criminal transnacional relevante para os Estados Unidos, com integrantes e estruturas identificados em diferentes países.
A investigação que resultou nas sanções envolveu órgãos americanos como o FBI e o Departamento de Justiça.
A estratégia anunciada por Hegseth ocorre em um momento de maior aproximação militar entre Washington e governos latino-americanos dispostos a cooperar diretamente no combate ao crime organizado.
A Colômbia está entre os países que aderiram à nova estrutura de cooperação, enquanto operações e ações conjuntas também passaram a fazer parte da política norte-americana de combate ao narcotráfico na região.
No caso brasileiro, a declaração do secretário de Guerra ganha peso justamente porque PCC e Comando Vermelho têm suas principais bases no país e possuem redes criminosas que ultrapassam as fronteiras nacionais.
As duas organizações também são apontadas por autoridades brasileiras e estrangeiras como participantes de atividades relacionadas ao tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e outras modalidades de crime organizado.
Apesar do tom mais duro adotado por Washington, qualquer eventual operação militar norte-americana no Brasil dependeria de circunstâncias e decisões que não foram anunciadas.
A declaração de Hegseth, portanto, estabelece uma possibilidade dentro da política de combate a organizações classificadas pelos Estados Unidos como terroristas, mas não confirma uma ação militar contra as facções brasileiras.
O pronunciamento representa, contudo, mais um passo no endurecimento da política de Donald Trump contra grandes organizações criminosas latino-americanas.
Com PCC e Comando Vermelho já incluídos nas listas de terrorismo dos Estados Unidos, as duas facções passaram a enfrentar não apenas mecanismos financeiros de pressão, mas também a possibilidade de serem enquadradas na estratégia militar que Washington pretende ampliar na região.