Quase toda ilha turística do mundo acaba tomada por estrada, prédio e carro. No litoral sul do Rio de Janeiro, aconteceu o contrário: um século de presídios manteve a maior ilha fluminense fechada ao público, e o isolamento forçado preservou a Mata Atlântica que hoje sustenta o turismo. A Ilha Grande, em Angra dos Reis, continua sem automóveis, com deslocamento feito só por barco ou trilha.
Pela combinação rara de floresta preservada e cultura viva. Em julho de 2019, o Comitê do Patrimônio Mundial reconheceu o sítio Paraty e Ilha Grande: Cultura e Biodiversidade, conforme o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), que aponta o conjunto como o primeiro sítio misto da América Latina com população tradicional vivendo no território. Os outros sítios mistos do continente, caso de Machu Picchu, no Peru, são áreas arqueológicas.
O reconhecimento cobre quatro unidades de conservação e cerca de 85% de cobertura vegetal nativa, o que forma o segundo maior remanescente contínuo de Mata Atlântica do país. Segundo a Prefeitura de Angra dos Reis, o território reconhecido soma quase 149 mil hectares. É um selo do mesmo peso que levou a cidade paranaense da tríplice fronteira a receber milhões de visitantes por ano.
A ilha passou décadas com acesso restrito. Em 1884, Dom Pedro II mandou instalar ali o Lazareto, área de quarentena para imigrantes europeus, estrutura que depois virou prisão. O Instituto Penal Cândido Mendes, na Vila de Dois Rios, funcionou até 1994, quando foi desativado e implodido pelo governo estadual.
Enquanto o presídio operava, quase ninguém circulava pela floresta. O resultado aparece hoje na densidade da mata e na fauna: o Instituto Estadual do Ambiente (Inea) registra que a ilha é reconhecida como Reserva da Biosfera da Mata Atlântica pela Unesco desde 1991 e como área prioritária para conservação de aves pela BirdLife International. O Parque Estadual da Ilha Grande, criado em 1971 e ampliado em 2007, protege 12.083 hectares. Das ruínas do presídio restou o Museu do Cárcere, administrado pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).
A base de tudo é a Vila do Abraão, onde chegam as embarcações e começam as trilhas sinalizadas do parque. Confira abaixo os destinos que costumam abrir a lista:
Quem sonha em conhecer Ilha Grande vai curtir este vídeo do canal Viagens Cine, com mais de 170 mil visualizações, que mostra praias, passeios de barco e dicas para explorar a ilha.
O regime é tropical úmido de encosta, com verão quente e chuvoso e inverno ameno e mais seco. Veja abaixo o comportamento médio ao longo do ano na região de Angra dos Reis:
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo, que registra em Angra dos Reis cerca de 61 mm de chuva média em agosto contra volumes bem maiores no verão. As condições mudam a cada temporada por influência do El Niño, da La Niña e de outros fenômenos, então vale conferir a previsão atualizada antes de embarcar.
Não existe ponte nem aeroporto, e o acesso é exclusivamente marítimo. De acordo com o Inea, as embarcações partem diariamente de Mangaratiba, Conceição de Jacareí e do centro de Angra dos Reis com destino à Vila do Abraão, onde fica a sede do parque.
De carro, a viagem desde a capital fluminense segue pela BR-101, a Rio-Santos, até um desses três embarques, onde o veículo fica em estacionamento particular. Na ilha, o deslocamento entre praias distantes é feito por táxi-boat ou escuna, e o resto se resolve a pé.
Poucos destinos brasileiros combinam floresta contínua, praia de mar aberto e ruína histórica em um mesmo dia de caminhada. A ausência de carros muda o ritmo da viagem: aqui a distância se mede em minutos de trilha e em travessias de barco.
Você precisa atravessar a baía e ver de perto a ilha que o Brasil manteve trancada por cem anos e a Unesco resolveu proteger para sempre.