
Algumas lembranças não precisam de fotografias para permanecerem vivas. Basta fechar os olhos e, de repente, o passado volta em forma de sons, imagens e sentimentos. É assim que Dona Márcia, de 50 anos, revive sua infância sempre que fala da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré.
Nascida em Manaus, ela chegou a Porto Velho aos cinco anos de idade. Foi aqui que cresceu e criou uma ligação afetiva com um dos maiores símbolos da história da capital. Enquanto relembra aqueles tempos, o olhar se distancia por alguns instantes, como se ainda pudesse enxergar a locomotiva cruzando os trilhos.
“Passear no trem era gostoso demais. Eu lembro daquele barulho, lembro das faíscas saindo dos trilhos. O vento batendo na janela do vagão… Eu via as casas bem pertinho dos trilhos e ficava imaginando como as pessoas conseguiam se acostumar com o trem passando toda hora ali e com todo aquele barulho.”, relatou Dona Márcia.
Naquela época, a curiosidade de uma menina transformava uma simples viagem em uma grande aventura. Cada apito da locomotiva despertava novas perguntas, e cada casa à beira dos trilhos alimentava sua imaginação. Sem perceber, ela construía memórias que o tempo jamais conseguiria apagar.
Histórias como a de Dona Márcia ajudam a dimensionar a importância da Madeira-Mamoré para além de sua estrutura física. Para o prefeito Léo Moraes, preservar o complexo significa também proteger parte da identidade construída por gerações de moradores da capital.

“A Madeira-Mamoré faz parte da identidade de Porto Velho e da memória de muitas famílias. Preservar esse espaço é valorizar a nossa história e garantir que as próximas gerações também possam conhecê-la”, destacou o prefeito.
Hoje, muitos anos depois, a vida fez questão de levá-la de volta ao lugar onde tantas histórias começaram. Dona Márcia trabalha em um trailer no complexo da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré e faz questão de receber cada visitante com a mesma alegria de quem conhece aquele espaço muito além dos livros de história.
Nos dias de evento, o movimento é intenso. Entre um atendimento e outro, ela orienta turistas, compartilha curiosidades sobre a ferrovia e também aprende com quem chega para conhecer Porto Velho. Segundo ela, muitos visitantes desembarcam na cidade já encantados pela história da Madeira-Mamoré e surpreendem com o quanto pesquisaram antes da viagem.
Para o secretário Cássio Moura, da Semtel, é justamente essa convivência entre passado e presente que contribui para manter a Madeira-Mamoré viva no cotidiano da população e de quem visita a capital.
“Cada pessoa que passa por aqui tem uma relação diferente com a Madeira-Mamoré. Nosso trabalho é cuidar desse patrimônio e manter o complexo como um espaço vivo, onde história, cultura e novas memórias continuam se encontrando”, afirmou o secretário.
É nesse encontro entre quem viveu a história e quem vem descobri-la que Dona Márcia encontra um dos maiores prazeres do seu trabalho. Com um sorriso que denuncia o carinho pelo lugar, ela conta que a Estrada de Ferro não guarda apenas as lembranças da menina que um dia admirava o mundo pela janela do vagão. É também o cenário onde continua escrevendo novos capítulos da própria vida, colecionando encontros, histórias e memórias que fazem daquele espaço muito mais do que um patrimônio histórico: um lugar de pertencimento.
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Texto:Débora Oziel
Fotos:Débora Oziel/ Erisson Soares
Secretaria Municipal de Comunicação (Secom)
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