Cidades Porto Velho - RO
A Nostalgia que Resiste ao Tempo: Encontramos no Mercado Central o Guardião das Relíquias Sonoras de Porto Velho
Entre capas de vinil, fitas cassete e saudades, Seu Miranda mantém viva há mais de 50 anos a memória afetiva e a paixão pela música no coração da ...
24/07/2026 09h02
Por: Redação Fonte: Prefeitura de Porto Velho - RO

A nostalgia tem endereço certo em Porto Velho. Para quem busca resgatar lembranças, reencontrar a trilha sonora da juventude ou simplesmente sentir aquele cheirinho inconfundível de papel e vinil guardados com carinho, o caminho inevitavelmente leva a um dos cantos mais conhecidos do Mercado Central.

É lá que a pressa do mundo moderno fica da porta para fora e abre espaço para histórias que atravessam gerações. Ali, entre prateleiras repletas de tesouros da MPB, do rock e do sertanejo, encontra-se Manuel Miranda de Souza. Ou simplesmente Seu Miranda, o guardião da memória musical porto-velhense.

Com um sorriso acolhedor e uma vitalidade impressionante que esconde seus 82 anos, Seu Miranda atende cada visitante como se recebesse um velho amigo em casa."O pessoal me dá 60 no máximo!", diverte-se ele, mostrando o documento de 1944. “Minha mãe era brasileira negra e meu pai descendente de português, devo essa pele firme a essa mistura.”

Uma Vida Dedicada ao Som e à Família

Seu Miranda chegou a Porto Velho em 1975, vindo de Manaus. Instalou-se no Mercado Central no mesmo ano e viu de perto a própria transformação da cidade: presenciou o antigo mercado ser demolido e dar lugar ao prédio atual, mantendo-se firme no mesmo ponto.

A paixão pela música sempre guiou seus passos. Trabalhou anos com gravadoras e, em 2003, decidiu transformar seu hobby em acervo: começou a garimpar e revender discos usados, CDs, fitas cassete e DVDs. Na época, muitos duvidaram de sua intuição.

Banca do Seu Miranda foi o alicerce de sua família

"O pessoal me dizia: 'Miranda, joga isso fora, isso é lixo, ninguém quer mais disco velho'. Eu fiquei calado, não falei nada. Eu sabia que um dia isso ia valer muito e que as pessoas iam sentir falta. É cultura, né? Nem todo mundo tem essa visão.", contou Seu Miranda.

Sustento do lar

Mais do que uma paixão, a banca do Seu Miranda foi o alicerce de sua família. Dividindo o tempo também com uma mercearia, foi com o trabalho honesto no Mercado Central que ele sustentou a casa e realizou o sonho de ver suas duas filhas formadas, uma em Pedagogia e outra em Direito.

Hoje, avô orgulhoso de duas netas, ele cuida de um acervo com mais de cinco mil relíquias sonoras.

Ele acompanhou todas as transições da tecnologia: o ápice do LP, a febre do CD nos anos 90, o surgimento do DVD e, por fim, a era do streaming digital. Mas o tempo deu razão ao Seu Miranda: hoje, o vinil vive um renascimento, voltando a ser o item mais procurado da banca, desejado por colecionadores experientes e por jovens curiosos.

O Valor do Som Analógico e o Ritual de Domingo

Para os frequentadores do mercado, o espaço é um templo da saudade. O porto-velhense Marcelo Bispo de Souza é um dos clientes fiéis que não resiste a uma parada na banca do Seu Miranda para garimpar clássicos dos anos 90, pop rock nacional e internacional.

Marcelo Bispo é um dos clientes fiéis que não resiste a uma parada na banca do Seu Miranda para garimpar clássicos dos anos 90

Para Marcelo, ouvir um CD ou colocar um vinil para girar no som de casa no domingo de folga é um ritual sagrado de pertencimento e apreciação musical que aplicativo nenhum consegue substituir.

"As pessoas dizem que o disco chia, mas quem gosta percebe uma qualidade e uma emoção que o som digital não entrega", conta Marcelo.

“Eu já fiz o teste: ouvi a mesma música no CD e no disco de vinil que comprei aqui com o Seu Miranda. No disco, você consegue ouvir o contrabaixo lá no fundo, instrumentos que são 'escondidos' no digital para a música ficar compactada. O digital é limpo, mas no analógico a música tem alma, dá até emoção de ouvir.”

Para o prefeito, é esse valor humano que dá vida aos pontos turísticos e históricos da capital.

“Histórias como a do Seu Miranda nos mostram a riqueza humana da nossa cidade. Preservar a memória, incentivar nossos comerciantes tradicionais e valorizar quem ajudou a construir Porto Velho é o nosso maior compromisso com o futuro”.

Nosso Patrimônio Humano e Cultural

A história do Seu Miranda e da sua banca de relíquias é o retrato do que Porto Velho tem de melhor: acolhimento, história viva, trabalho digno e amor à cultura local. O Mercado Central não é feito apenas de paredes e comércio; é feito de personagens inesquecíveis que guardam os nossos afetos.

Convite

Neste final de semana, fica o convite: passe no Mercado Central, tome um café, troque uma ideia com o Seu Miranda e leve para casa não apenas um disco ou CD, mas uma fatia da nossa própria memória.

Texto:Helen Paiva

Fotos:Helen Paiva e Isadora Estolano