
A nostalgia tem endereço certo em Porto Velho. Para quem busca resgatar lembranças, reencontrar a trilha sonora da juventude ou simplesmente sentir aquele cheirinho inconfundível de papel e vinil guardados com carinho, o caminho inevitavelmente leva a um dos cantos mais conhecidos do Mercado Central.
É lá que a pressa do mundo moderno fica da porta para fora e abre espaço para histórias que atravessam gerações. Ali, entre prateleiras repletas de tesouros da MPB, do rock e do sertanejo, encontra-se Manuel Miranda de Souza. Ou simplesmente Seu Miranda, o guardião da memória musical porto-velhense.
Com um sorriso acolhedor e uma vitalidade impressionante que esconde seus 82 anos, Seu Miranda atende cada visitante como se recebesse um velho amigo em casa."O pessoal me dá 60 no máximo!", diverte-se ele, mostrando o documento de 1944. “Minha mãe era brasileira negra e meu pai descendente de português, devo essa pele firme a essa mistura.”
Uma Vida Dedicada ao Som e à Família
Seu Miranda chegou a Porto Velho em 1975, vindo de Manaus. Instalou-se no Mercado Central no mesmo ano e viu de perto a própria transformação da cidade: presenciou o antigo mercado ser demolido e dar lugar ao prédio atual, mantendo-se firme no mesmo ponto.
A paixão pela música sempre guiou seus passos. Trabalhou anos com gravadoras e, em 2003, decidiu transformar seu hobby em acervo: começou a garimpar e revender discos usados, CDs, fitas cassete e DVDs. Na época, muitos duvidaram de sua intuição.

"O pessoal me dizia: 'Miranda, joga isso fora, isso é lixo, ninguém quer mais disco velho'. Eu fiquei calado, não falei nada. Eu sabia que um dia isso ia valer muito e que as pessoas iam sentir falta. É cultura, né? Nem todo mundo tem essa visão.", contou Seu Miranda.
Sustento do lar
Mais do que uma paixão, a banca do Seu Miranda foi o alicerce de sua família. Dividindo o tempo também com uma mercearia, foi com o trabalho honesto no Mercado Central que ele sustentou a casa e realizou o sonho de ver suas duas filhas formadas, uma em Pedagogia e outra em Direito.
Hoje, avô orgulhoso de duas netas, ele cuida de um acervo com mais de cinco mil relíquias sonoras.
Ele acompanhou todas as transições da tecnologia: o ápice do LP, a febre do CD nos anos 90, o surgimento do DVD e, por fim, a era do streaming digital. Mas o tempo deu razão ao Seu Miranda: hoje, o vinil vive um renascimento, voltando a ser o item mais procurado da banca, desejado por colecionadores experientes e por jovens curiosos.
O Valor do Som Analógico e o Ritual de Domingo
Para os frequentadores do mercado, o espaço é um templo da saudade. O porto-velhense Marcelo Bispo de Souza é um dos clientes fiéis que não resiste a uma parada na banca do Seu Miranda para garimpar clássicos dos anos 90, pop rock nacional e internacional.

Para Marcelo, ouvir um CD ou colocar um vinil para girar no som de casa no domingo de folga é um ritual sagrado de pertencimento e apreciação musical que aplicativo nenhum consegue substituir.
"As pessoas dizem que o disco chia, mas quem gosta percebe uma qualidade e uma emoção que o som digital não entrega", conta Marcelo.
“Eu já fiz o teste: ouvi a mesma música no CD e no disco de vinil que comprei aqui com o Seu Miranda. No disco, você consegue ouvir o contrabaixo lá no fundo, instrumentos que são 'escondidos' no digital para a música ficar compactada. O digital é limpo, mas no analógico a música tem alma, dá até emoção de ouvir.”
Para o prefeito, é esse valor humano que dá vida aos pontos turísticos e históricos da capital.
“Histórias como a do Seu Miranda nos mostram a riqueza humana da nossa cidade. Preservar a memória, incentivar nossos comerciantes tradicionais e valorizar quem ajudou a construir Porto Velho é o nosso maior compromisso com o futuro”.
Nosso Patrimônio Humano e Cultural
A história do Seu Miranda e da sua banca de relíquias é o retrato do que Porto Velho tem de melhor: acolhimento, história viva, trabalho digno e amor à cultura local. O Mercado Central não é feito apenas de paredes e comércio; é feito de personagens inesquecíveis que guardam os nossos afetos.
Convite
Neste final de semana, fica o convite: passe no Mercado Central, tome um café, troque uma ideia com o Seu Miranda e leve para casa não apenas um disco ou CD, mas uma fatia da nossa própria memória.
Texto:Helen Paiva
Fotos:Helen Paiva e Isadora Estolano
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