A Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) destinou madeiras do Reservatório Miringuava para a formação da primeira xiloteca caiçara do Paraná – coleção catalogada de amostras de madeira. O projeto, em parceria com a Universidade Federal do Paraná – Campus Litoral e a Associação de Cultura Popular Mandicuera, alia a sustentabilidade à educação ambiental ao preservar o conhecimento sobre as árvores da Mata Atlântica e fortalecer a cultura tradicional caiçara.
A madeira dará origem a três coleções: uma para a Sanepar, uma para o Museu de Arqueologia e Etnologia da UFPR (MAE) e outra para a Associação Mandicuera.
O engenheiro florestal Aurélio Lourenço Rodrigues, coordenador de serviços e sistemas de gestão ambiental da Sanepar, explica que a xiloteca faz parte das ações da Companhia para preservar a memória das principais espécies lenhosas da flora da região do Reservatório Miringuava.
“Difundir o conhecimento das árvores da Mata Atlântica, em que algumas espécies do Miringuava também são comuns para a comunidade caiçara, contribui para a educação ambiental. Nem todo mundo tem acesso à floresta, então a proposta é exatamente a de preservar esse material para que as pessoas possam conhecê-lo de uma outra forma”, explica.
ESPÉCIES– De acordo com o engenheiro florestal Fernando Bechara, professor do curso de licenciatura em Educação do Campo da UFPR Litoral e vice-coordenador do projeto, foram catalogadas 44 espécies de madeira. Entre os exemplares, estão o cedro rosa, uma madeira comercial e muito utilizada na movelaria e na construção de casas caiçaras.
O carvalho é outra espécie que compõe o acervo e é um exemplo de como as peças físicas possibilitam conectar diversas informações sobre a madeira e os processos da natureza. “O carvalho é uma madeira pesada, que cresce devagar, agrega as fibras e fica mais densa, com menos ar. Já a madeira leve cresce muito rápido e junta muito ar. A madeira mais pesada vai sequestrar mais carbono do que uma madeira mais leve”, destaca Bechara.
Outro exemplar é a casca de anta, uma espécie de cataia utilizada pelas antas para cicatrização de ferimentos. “O curioso é que no Litoral também tem uma cataia, mas é de outra família, que na verdade é uma pimenta (Pimenta pseudocaryophyllus). Ambas têm eugenol, um óleo medicinal e muito utilizado para fazer o uísque caiçara. Então é muito importante na cultura caiçara”, afirma o professor.
EDUCAÇÃO– A criação de uma xiloteca era um sonho antigo de Aorélio Domingues, fundador e mestre da Associação de Cultura Popular Mandicuera, para disseminar e salvaguardar o conhecimento e a cultura tradicional das madeiras utilizadas nos usos e costumes caiçaras para as novas gerações.
“A juventude já não tem acesso à floresta como nós tivemos. A gente tem um conhecimento muito vasto dessas madeiras e hoje notamos que os jovens estão perdendo isso. A xiloteca tem a frente de uma educação popular, que, além de libertadora, está focada no que faz sentido dentro da comunidade”, destaca.
Segundo Domingues, essa será a primeira xiloteca do Litoral. “Ela é muito importante no sentido que os livros não deram conta de preservar esse conhecimento por causa da linguagem científica e pela dificuldade de identificar a madeira em uma fotografia. Com a xiloteca você pega na madeira, sabe se é leve, pesada, branca, vermelha, qual a textura, a sonoridade”.
“A gente já entende a propriedade daquela madeira tocando nela, se é boa para barco, casa ou para instrumento. É muito mais interessante uma criança pegar peças de madeira, algo concreto que traz o universo dela. É muito mais rápido do que ficar tentando explicar”, afirma o mestre.
O processo de criação das peças da xiloteca envolve o corte, o beneficiamento e a catalogação das madeiras, que são identificadas pelo nome popular, científico e a localização geográfica dentro do território. Com apoio técnico da UFPR Litoral, o mestre Aorélio já produziu as peças que serão destinadas à Sanepar e ao MAE. A próxima etapa é beneficiar as madeiras que ficarão na associação e terão características diferentes das outras peças para tornar o conhecimento tradicional ainda mais acessível.
CIÊNCIA E TRADIÇÃO– Para o povo que vive da floresta e do mar há mais de 500 anos, organizar o saber tradicional caiçara ultrapassa o benefício à própria comunidade – cria uma rede de conhecimento junto à universidade e às pessoas interessadas em conhecer as madeiras nativas da Mata Atlântica.
“A proposta da xiloteca era da comunidade e veio ao encontro de ações da universidade. E a Sanepar já tinha exemplares de madeiras catalogadas, o que acelerou muito o processo. Foi muito importante a chegada da Sanepar junto com a comunidade, construindo relações que vão além da água, que traz outras correntes”, acredita Domingues.
A professora Andressa Tavares, coordenadora do projeto e docente do curso de licenciatura em Educação do Campo da UFPR Litoral, destaca que a xiloteca articula o conhecimento tradicional com o científico, promovendo o diálogo com as comunidades do Litoral.
“Tivemos a sorte de encontrar a Sanepar construindo o Reservatório Miringuava no momento em que precisávamos. Este foi o pontapé, e agora queremos produzir materiais bibliográficos, didáticos e digitais para disponibilizar esse conhecimento também na internet. Traz benefícios para a comunidade local e para a sociedade em geral”, acrescenta.