Relatório do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais diz que ainda há vários grupos ativos e que que mesmo redes pouco estruturadas e atores solitários podem espalhar o medo nos EUA.
Anos de pressão contraterrorista no mundo debilitaram as forças de grupos armados extremistas, o que acabou por reduzir, mas não eliminar os riscos de ataques contra os Estados Unidos ou contra cidadãos americanos em outros países.
Um novo relatório do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) observa que ainda há vários grupos em redes pouco estruturadas e atores solitários que podem espalhar medo nos EUA.
“Diferentemente do período imediatamente após o 11 de setembro ou do auge do califado territorial do Estado Islâmico, não há uma ameaça suprema clara. Em vez disso, os Estados Unidos enfrentam uma variedade de grupos formais, redes frouxas e atores solitários que pretendem matar americanos e espalhar medo nos Estados Unidos ou ameaçar interesses importantes de segurança dos EUA”, dizem os autores do centro de estudos
A esse risco inerente, soma-se o fato de os Estados Unidos estarem reduzindo seus investimentos em contraterrorismo, mesmo em um momento de crescente incerteza. Cortes de verbas no FBI, na CIA e em programas de prevenção — combinados com a politização tanto das funções de inteligência quanto da própria definição de terrorismo — estão aumentando o risco de alertas perdidos e de conspirações não detectadas, alerta o estudo.
“O resultado não é uma catástrofe inevitável, mas uma maior probabilidade de surpresa e uma capacidade reduzida de preveni-la. A priorização eficaz de recursos é essencial para gerir um ambiente de ameaças incerto”, defendem os autores.
O estudo do CSIS destaca inicialmente, a perda de força de diversos grupos terroristas nos últimos anos, que foram degradados e não se recuperaram. “Após décadas de uma ameaça clara vinda de organizações salafistas-jihadistas ligadas primeiro à al-Qaeda e depois ao Estado Islâmico, o país não possui mais uma ameaça nº 1 evidente na qual concentrar seu aparato de contraterrorismo”, explicam os autores.
No entanto, hoje os EUA enfrentam um conjunto de ameaças ativas, latentes e suprimidas no exterior, além de um cenário interno cada vez mais violento. “Os atores solitários que dominaram o debate sobre contraterrorismo desde a queda do Estado Islâmico ainda estão presentes, mas organizações terroristas capazes e abastadas continuam a se fortalecer em múltiplos continentes, e patrocinadores estatais como o Irã permanecem uma ameaça”, alertam.
Segundo o texto, o terrorismo continua a representar uma ameaça aos interesses dos Estados Unidos tanto no exterior quanto em seu próprio território. E, embora os atentados de grandes proporções, envolvendo centenas de mortes, sejam extremamente raros nos Estados Unidos (e provavelmente continuem assim), a frequência de episódios de violência terrorista de baixo nível continua a aumentar no país, à medida que cresce a força de grupos potencialmente hostis no exterior.
Para os autores, o terrorismo no Oriente Médio é menos ameaçador para o território norte-americano do que nos últimos anos, embora a guerra em curso entre Estados Unidos e Israel com o Irã tenha aumentado os incentivos do regime dos aiatolás para usar o terrorismo contra os Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, as campanhas militares israelenses enfraqueceram significativamente o Hamas e o Hezbollah, e o chamado Eixo de Resistência do Irã está em desordem.
“A al-Qaeda e o Estado Islâmico continuam sendo, principalmente, ameaças inspiracionais, mantendo a capacidade de inspirar ataques no Ocidente apesar de sua degradação organizacional. O novo governo da Síria apresenta tanto uma oportunidade quanto um risco: ele aderiu à Coalizão Global para Derrotar o ISIS, mas permanece frágil, e o Estado Islâmico explorou a recente instabilidade para libertar combatentes detidos e expandir sua presença”, cita o estudo.
E a Al-Qaeda na Península Arábica (AQAP), por muito tempo considerada enfraquecida, está ressurgindo, ampliando suas capacidades, reconstruindo suas finanças e retomando a propaganda em inglês direcionada a públicos ocidentais. “Terroristas ainda representam importante ameaça aos interesses dos EUA e a parceiros de segurança no Oriente Médio, e a guerra em andamento com o Irã continua sendo um grande motor de incerteza”, adverte o estudo.
Avaliação Comparativa de Grupos Terroristas Internacionais no Oriente Médio
| Grupos Terroristas | Área de operações | Capacidade | Intenção | Avaliação da ameaça |
| Houthis | Iêmen | Entidade de caráter estatal com acesso a capacidades militares de tipo estatal | Assumir o poder nacional e exercer maior influência sobre a região | Ameaça ativa à estabilidade regional e aos aliados dos EUA; ameaça latente a indivíduos e ativos dos EUA na região; ameaça latente a indivíduos e ativos dos EUA fora da região |
| Hezbollah | Líbano | Entidade de caráter estatal com acesso a capacidades militares rudimentares de tipo estatal | Avançar o poder político e militar nacional; avançar os interesses iranianos | Ameaça latente à estabilidade regional, a indivíduos, ativos e aliados dos EUA na região; ameaça latente ao território dos EUA, dependendo das decisões e percepções de ameaça do Irã |
| Hamas | Gaza e Cisjordânia | Entidade de caráter estatal com acesso a algumas capacidades militares rudimentares de tipo estatal | Avançar o poder nacional e político; obter controle do movimento nacional palestino; intenção de longo prazo de criar um novo Estado que eliminaria Israel, um parceiro dos EUA | Ameaça indireta à estabilidade regional e aos aliados dos EUA na região; ameaça indireta a indivíduos e aliados dos EUA na Europa |
| Estado Islâmico – Núcleo | Iraque e Síria | Insurgência fraca que não controla mais território, mas mantém a capacidade de inspirar ataques | Conduzir e inspirar ataques na região, na Europa, nos Estados Unidos e em outras partes do mundo; controlar e expandir território sob sua interpretação da lei islâmica | Ameaça indireta de inspirar ou facilitar ataques contra indivíduos, ativos e aliados dos EUA fora da região; ameaça indireta aos interesses dos EUA na região |
| Al Qaeda – Núcleo e AQAP | Núcleo da Al Qaeda: Afeganistão e Paquistão; AQAP: Iêmen | Insurgência fraca que não controla mais território, mas mantém a capacidade de inspirar ataques | Promover movimentos antirregime no Oriente Médio e conduzir e inspirar ataques na Europa e nos Estados Unidos | Ameaça indireta de inspirar ou facilitar ataques contra indivíduos, ativos e aliados dos EUA fora da região; ameaça mínima aos interesses dos EUA na região |
| Estado Islâmico – Província do Khorasan | Afeganistão, Paquistão e Ásia Central | Insurgência fraca que não controla mais território, mas mantém a capacidade de dirigir e facilitar ataques | Conduzir e inspirar ataques na região, na Europa, nos Estados Unidos e em outras partes do mundo | Ameaça indireta de inspirar ou facilitar ataques contra indivíduos, ativos e aliados dos EUA fora da região; ameaça mínima aos interesses dos EUA na região |
O terrorismo na África representa a maior incerteza, diz o texto do CSIS. Os afiliados da al-Qaeda, al Shabaab e Jama’at Nusrat al-Islam wal-Muslimin (JNIM), estão ameaçando a sobrevivência dos governos na Somália e no Mali, respectivamente, e o al Shabaab continua sendo o único grupo africano conhecido por ter planejado um ataque de grandes proporções contra o território norte-americano.
Enquanto isso, a Província do Estado Islâmico na África Ocidental provavelmente é a maior e mais capaz província do Estado Islâmico no mundo. “Embora esses grupos permaneçam focados, principalmente, em objetivos locais, suas capacidades crescentes — incluindo avanços rápidos no uso de drones armados — e a integração cada vez maior em redes jihadistas internacionais aumentam o risco de uma futura mudança em direção a alvos relacionados aos interesses dos EUA.”
Avaliação Comparativa de Grupos Terroristas Internacionais na África
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| Grupos terroristas | Área de operações | Capacidade | Intenção | Avaliação da ameaça |
|---|---|---|---|---|
| Al Shabaab | Chifre da África | Entidade de caráter estatal com acesso a capacidades militares rudimentares de tipo estatal | Intenção demonstrada de atacar alvos dos EUA; intenção regional de criar um novo Estado que atravesse fronteiras internacionais | Ameaça ativa à estabilidade regional, aos aliados dos EUA e a indivíduos e ativos dos EUA no Chifre da África; ameaça latente e capacitadora à liberdade de navegação ao largo da costa da Somália; ameaça latente a indivíduos e ativos dos EUA fora da região |
| JNIM | Sahel Ocidental | Forte insurgência que deslocou o Estado de territórios significativos | Intenção regional de criar um novo Estado que atravesse fronteiras internacionais; intenção aguda de derrubar o governo do Mali | Ameaça ativa à estabilidade regional; ameaça latente a indivíduos e ativos dos EUA fora da região |
| ISSP | Sahel Ocidental | Insurgência moderadamente forte que deslocou o Estado de territórios significativos | Intenção regional de criar um novo Estado que atravesse fronteiras internacionais; possível intenção de dirigir, facilitar ou inspirar ataques na Europa ou nos Estados Unidos | Ameaça ativa à estabilidade regional; ameaça latente a indivíduos e ativos dos EUA fora da região |
| ISWAP | Região do Lago Chade | Forte insurgência que deslocou o Estado de territórios significativos | Intenção regional de criar um novo Estado que atravesse fronteiras internacionais; possível intenção de dirigir, facilitar ou inspirar ataques na Europa ou nos Estados Unidos | Ameaça ativa à estabilidade regional; ameaça latente a indivíduos e ativos dos EUA fora da região |
| JAS | Região do Lago Chade | Insurgência moderadamente forte que deslocou o Estado de pequenas porções de território | Os objetivos oficiais envolvem tomar o poder nacional; os objetivos reais estão mais relacionados ao poder e à riqueza em nível local | Ameaça ativa à estabilidade regional; pequena ameaça a indivíduos e ativos dos EUA fora da região |
| IS‑Somalia | Somália | Insurgência fraca que não controla mais território, mas mantém a capacidade de inspirar e facilitar ataques | Intenção demonstrada de inspirar e facilitar ataques contra alvos dos EUA como parte de uma rede transnacional | Ameaça ativa (ainda que enfraquecida) de inspirar ou facilitar ataques contra indivíduos dos EUA fora da região; pequena ameaça às populações na região |
| IS‑DRC/ADF | Leste da RDC | Insurgência fraca que não controla mais território, mas mantém a capacidade de inspirar e facilitar ataques | Intenção vaga, mas provavelmente incluindo a criação de um Estado que atravesse fronteiras internacionais | Ameaça ativa às populações locais; pequena ameaça a indivíduos e ativos dos EUA fora do leste da RDC |
| IS‑M | Norte de Moçambique | Insurgência fraca que não controla mais território, mas mantém a capacidade de inspirar e facilitar ataques | Intenção vaga, mas provavelmente incluindo a criação de um Estado que atravesse fronteiras internacionais | Ameaça ativa às populações locais; pequena ameaça a indivíduos e ativos dos EUA fora do norte de Moçambique |
A advertência do estudo é que há três temas que atravessam diferentes regiões e que precisam ser observados com atenção. O primeiro é que grupos terroristas estão fazendo uso crescente de sistemas aéreos não tripulados (UASs, ou drones) e de inteligência artificial, tecnologias cujas implicações completas para o terrorismo e o contraterrorismo ainda são pouco compreendidas.
O segundo ponto é que grupos repetidamente considerados em declínio terminal ressurgiram, ou seja, degradação não é sinônimo de derrota. Em terceiro, os autores citam que o engajamento diplomático é essencial. “Conflitos por procuração e a fragilidade estatal no Sahel, na República Democrática do Congo (RDC), no Iêmen e na Síria oferecem espaço para que terroristas atuem e ressurjam de maneiras que ameaçam tanto atores locais quanto os interesses dos EUA.”